Maldita fila do osso

Por Raimundo Borges
O Imparcial – Nunca neguei minha origem de menino pobre, filho de lavrador sem terra, que vivia como “agregado” do ‘coronel’ de patente comprada, o latifundiário Francisco Alves. Mesmo assim, meu pai, analfabeto e sem posses, nunca deixou os dez filhos passarem um dia sem comer.

Sei o que é a dor da fome, mas foi depois dos 16 anos, quando me mudei sozinho de Jaguarana para São Luís, em busca de estudar. Mesmo assim não era fome de doer na alma e me fazer desviar de meus objetivos e da minha incansável busca por direito à cidadania. A pobreza, no entanto, nunca me fez ir à feira em busca de osso para ‘engrossar’ a sopa.

Hoje, depois de tantos anos vividos e vencidos profissionalmente, com sonhos bem realizados com minha família, jamais imaginei que iria ver cidadãos maranhenses e brasileiros na fila de osso bovino em açougues. É uma realidade perversa deste século, em que a riqueza é um paradoxo danoso. Alguns, com absurdas somas de dinheiro, e outros que morrem de fome.

É um mundo desastrado, ter que assistir os mesmos seres humanos na fila do turismo espacial ao custo de até US$ 100 milhões de poucas horas em órbita, enquanto outros se acotovelam na fila da miséria, na ilusão de estar enganando a fome com a sopa de osso.

É o Brasil continental que o mundo conhece mais por mal feitos dos governantes, do que por evolução científica ou o potencial econômico. É o Brasil que contrasta a fila do osso de milhões de famintos, com o desperdício dos poucos que arrebatam o dinheiro público ou ganham somas babilônicas sonegando impostos ou explorando o trabalho dos desafortunados.

É o Brasil em que o presidente usa o orçamento secreto para angariar votos em projetos de pouca duração, voltado para fomentar a campanha eleitoral. É o Brasil da eterna política dos descamisados e desempregados – não tão distante dos tempos da escravidão e do extermínio dos índios pelos colonizadores.

A fila do osso fez o produto triplicar de preço. Antes custava R$ 3 e servia para alimentar cachorro. Agora, com a demanda, já cobram até 10 Reais no quilo. E ninguém chega mais dizendo que é para dar gosto à comida do cão. É o prato da família de milhares de desesperados pelo Brasil afora.

Um escárnio num país tão rico e tão belo. Afinal, a fila do osso começa cedo e a prioridade é de quem chega primeiro. No governo, a prioridade é aprovar o Auxílio Brasil, com prazo de validade até 31 de dezembro de 2022.

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