“Vamos virar uma grande fazenda”: Brasil vive acelerada desindustrialização

A pandemia acelerou ainda mais esse processo, enquanto o Governo federal privilegia o setor agrícola para exportação de alimento, minério e energia. De 2013 a 2019, o país perdeu 28.700 indústrias e 1,4 milhão de postos de trabalho no setor.
Diego Machado Ferreira e Ligia Ribeiro Paiva, ambos ex-metalúrgicos, trabalham hoje como entregadores terceirizados de uma transportadora que presta serviços para o Mercado Livre. FERNANDO CAVALCANTI

“Sou o terceirizado, do terceirizado, do terceirizado do Mercado Livre”. É assim que Diego Machado Ferreira, de 34 anos, explica sua situação trabalhista. Demitido da Ford em 2019, o ex-metalúrgico tem uma rotina semelhante à do personagem principal do filme Você não estava aqui, de Ken Loach. Sai às 6h da manhã para encarar a fila de entrega do galpão localizado no Parque São Lourenço, extremo Leste da capital paulista. Quanto mais pacote ele consegue despachar, mais ele recebe, o que significa comprometer o almoço e, com frequência, contar com uma ajudante para acelerar as entregas. A diferença entre ficção e realidade é que, ao contrário do personagem do filme, Ferreira não comprou a ideia de que ele é seu próprio patrão por ter aberto uma microempresa. “Não me sinto empreendedor.”

Ferreira faz hoje parte do grupo de trabalhadores jovens, altamente escolarizados e frustrados com as expectativas de emprego e melhoria de condições de vida, que o sociólogo Giovanni Alves chama de precariadoEssa classe social foi forjada pela promessa de ascensão social por meio da educação e do emprego. Porém, o futuro que se projetava para o país durante dos governos petistas ―com uma política industrial voltada para fortalecer e modernizar empresas nacionais― , não se concretizou. “Está em curso no Brasil um processo de desconstrução do sistema de segurança e saúde do trabalho que visa atender à demanda de um novo projeto econômico em desenvolvimento”, explica o cientista social Fausto Augusto Júnior, diretor técnico do Dieese.

O acirramento do processo de desindustrialização no país é um sintoma dessa mudança. Em setembro, a norte-americana Ford fechou a fábrica da Troller em Horizonte, região metropolitana de Fortaleza (CE), deixando 446 trabalhadores desempregados. Essa medida finalizou a saída da empresa do Brasil, anunciada no começo do ano. Com a transferência de sua produção para a Argentina, foram fechados também suas unidades em Camaçari (BA) e Taubaté (SP) com a demissão de 5.000 pessoas. E a Ford não foi a única. Nos últimos dois anos, as montadoras alemãs Mercedes Benz e Audi, as farmacêuticas Roche (Suíça) e Eli Lily (EUA) e a empresa de eletroeletrônicos japonesa Sony também anunciaram sua saída do Brasil.

“A visão de futuro do Governo Bolsonaro é a de um país produtor de comida, minério e energia”, afirma Augusto, por isso o abandono de tudo relacionado com políticas industriais, inclusive os cortes de investimentos em ciência e tecnologia. “Temos ouvido ministros falarem que o Brasil será a grande fazenda do mundo, pois será também a grande mina. Não espere nenhuma indústria de carro elétrico chegando por aqui”, lamenta.

Dados do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) mostram que o setor manufatureiro atingiu mínimas históricas na pandemia. A indústria de transformação (que enolve tecnologia para transformar matéria prima em produto final) caiu de uma participação de 11,79% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2019 para 11,30% do PIB em preços correntes em 2020, o menor patamar desde 1947, quando se dá início a série histórica das contas nacionais calculada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O auge da comparação da indústria de transformação aconteceu em 1985, quando chegou a representar 24,5% da economia do país. No terceiro trimestre deste ano, o peso do setor voltou a subir um pouco, chegando a 12,5% da geração de riquezas do país, mais como um soluço do que como retomada consistente. “A pandemia atingiu a indústria com significativa capacidade produtiva ociosa devido às perdas industriais de 2014-2016 e a crise político-institucional aguda de 2015 e 2016. Apesar da recuperação no triênio 2017-2019, o produto manufatureiro em 2019 ainda era 14% inferior ao de 2013″, informa o Iedi. O saldo de 2021 é negativo, segundo a entidade, que considera que “a segunda onda da pandemia para a indústria ainda não terminou.” Só o setor de alta tecnologia teve queda de 7,6% entre julho e dezembro.

Um fenômeno contrário aconteceu com o agricultura, que ganhou espaço mesmo no desafiador ano de 2020. O setor alcançou uma participação de 6,8% no PIB nacional em 2020 ― com uma leve alta em relação ao ano anterior, quando representou 6,5%, conforme dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A expectativa é que a peso da agricultura no PIB chegue a 7,9% neste ano e matenha uma trajetória de crescimento até 2022, quando chegará a 8,3%. “A partir de 2023, [a participação] deve cair de volta para a média da série histórica, algo próximo a 6%”, afirma Renato Conchon, coordenador do Núcleo Econômico da CNA. Estes dados ainda serão revisados a partir do ajuste feito pelo IBGE nos dados trimestrais.

Brasil perde 28.000 indústrias em seis anos

Pesquisa Industrial Anual (PIA) 2019, divulgados neste ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra em números o tamanho do estrago: de 2013 a 2019, o país perdeu 28.700 empresas e 1,4 milhão de postos de trabalho. Em 2019, o país tinha 306.300 indústrias, um encolhimento de 8,5% em relação ao seu auge seis anos antes. Essas empresas empregavam antes da crise sanitária 7,6 milhões de pessoas, uma redução de 15,6% sobre 2013. O salários do setor, geralmente mais elevados do que em outros segmentos, também sofreram perdas. Na indústria extrativa, a remuneração saiu de uma média de 5,9 salários mínimos (s.m.), em 2013, para 4,6 s.m., em 2019. Nas indústrias de transformação a redução foi de 3,3 s.m. para 3,1 s.m.

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