Jornais e livros são desafiados a resistir aos tempos bicudos

Por Raimundo Borges

O Imparcial – O jornal impresso, o livro e revistas nunca antes tiveram o monumental desafio de concorrerem com as mídias digitais e sobreviver. Diante da avassaladora onda de plataformas de comunicação online, a instantaneidade e a aproximação delas com o público, as mídias impressas estão diante do que poderá ser o maior processo de reinvenção e inovação que já passaram desde Gutemberg. No momento em que São Luís realiza a sua 14ª Feira do Livro, na Praça Maria Aragão, a Academia Caxiense de Letras acabou lotar suas dependências, por dois dias, com 5º Salão do Livro, tendo como foco os jornais impressos, exposição de fotos antigas e charges.

Jornalista Raimundo Borges, membro da ACL, palestrando no Salão do Livro de Caxias

Para não ficar só nisso, no Rio de Janeiro, ocorre, nesses dias, a Feira Internacional do Livro (Bienal), realizada no Rio Centro, tendo como principal personagem o Livro. O articulista de O Imparcial Osmar Gomes foi ao avento, autografar a edição livresca de suas crônicas selecionadas. Tudo isso é um bom sinal de que os dois segmentos de informação, cultura, literatura e conhecimentos estão reagindo positivamente para enfrentar tempos tão desafiadores.

Jornais estão mudando de formato do standart para tabloide, de data de circulação, da forma de produzir a notícias com mais opinião e análise, o livro não fica atrás. As editoras sofreram enorme impacto desde o começo deste século, mas as feiras de livros e o volume de venda do produto não permitem que se especule sobre o fim do jornal impresso, das revistas de papel de do livro. As busca por inovação e adequação, estão por todo lado, numa saudável onda de resistência, que já é a marca tanto do jornalismo impresso, quanto do livro e até da televisão aberta, que passa por dificuldades.

Caxias é isso

Na semana passada, a Academia Caxiense de Letras, a cidade do Maranhão que no passado dividiu com grande centros urbanos a proeza de editar inúmeros jornais periódicos e diários, deu um passo importante nessa caminhada de resistência comunicativa pelos meios impressos. Este jornalista Raimundo Borges, integrante da Casa de Coelho Neto, foi abrir o Salão do Livro, com uma palestra sobre os jornais impressos hoje e no futuro. O Imparcial, com 95 anos de circulação ininterrupta foi o principal enfoque. Assim como os 200 anos do Conciliador do Maranhão, primeiro informativo do Estado (entre 1821Q1823), evento comemorado pela Universidade Federal do Maranhão.

 

Na abordagem procurei colocar para o auditório lotado, a importância da crença, do apoio aos jornais impressos e da persistência dos jornalistas em avançar sem medo e continuar fazendo do jornalismo a principal arma contra abusos, ataques de poderosos e a trincheira pelas liberdades e em favor da democracia brasileira. No mesmo evento, a ACL homenageou os jornalistas Gentil Meneses e Victor Gonçalves Neto, um implacável tirano na arte de transformar letras impressas em chicotadas contras desmandos de governantes em qualquer esferas de poder. O conferencista Sineas Santos foi de Teresina a Caxias desnudar, de forma brincalhona, a figura e os feitos do cronista Victor Gonçalves Neto.

Charge do jornalista Raimundo Borges, exposta no Salão do Livro, na ACL

O encerramento do Salão do Livro de Caxias foi marcado por palestra do psiquiatra e escritor Ruy Falhanço, filho da cidade Princesa do Sertão, e o lançamento do 5º Volume da Séria “Crônica ao Cotidiano na Visão de um Psiquiatra”, cuja primeira edição teve Raimundo Borges como prefaciador. Portanto, a ACL marcou um ano relevante, hoje sob a presidência do escritor Renato Meneses. “Nada mais atual do que louvar o jornalismo num momento em que a liberdade de expressão no Brasil vive sob pesadas ameaças e ataques frontais. Foram dois dias benfazejos em que a Casa de Coelho Neto tentou neutralizar as hostilidades de poderosos e da internet contra a verdadeira imprensa”, resumiu Renato Meneses.

O futuro do jornal em papel

A dúvida que paira é: Por quanto tempo o leitor de jornal impresso e de livro vai dispor dessa ferramenta que revolucionou a história da humanidade? É verdade que há um embate já em curso contra as adversidades de ordem econômicas e tecnológica. Por isso as palavras de ordem são: adequação, reinvenção e modernização de seu conteúdos, redirecionamento para nichos específicos, atualização da linguagem e se mostrar atraente para os diferentes públicos. As pessoas preferem e, sinceramente, é muito mais prático o uso da mídia impressa no cotidiano. Afinal, a leitura de jornais e livros pela internet ainda é um obstáculo para vários tipos de púbicos. Lê um livro volumoso em qualquer plataforma digital é algo desafiador, até pelo modo desconfortável de fazê-lo.

O pesquisador e membro da ACL, Quincas Vilaneto conseguiu reunir em livros, as publicações dos jornais do Maranhão, do interior do Maranhão e somente os de Caxias desde os primórdios. Ele considera as descobertas, que lhe valeram anos de buscas pelo país afora, um ponto de referência para a história da imprensa e do jornalismo. Ele reuniu as capas desses informativos, relacionou editores, articulistas, redatores e o sistema tipográfico de cada qual. “Foram diferentes projetos políticos por traz dos jornais, tudo isso entendido como instrumento de uma nova cultura”, resume Vilaneto.

Ele completa numa ligeira abordagem do Conciliado do Maranhão. Em 1821, com a superação do absolutismo lusitano os principais centros decisórios da província já contavam com imprensa periódica bastante ativa. “O Maranhão foi um dos principais esteios da política da corte. Foi quando se criou o Conciliador do Maranhão, um jornal, trazendo em suas páginas enfoques sobre economia, política, administração da província, além de veículos que tratavam temas do cotidiano locais com textos doutrinários, periódicos com anedotário, poesia e parábolas”, anotou o escritor.

Leitura do smartphone

Não é tão descomplicado para os leitores obcecados por livros e jornais, o uso de computadores ou smartphones. Sem falar que tais ferramentas eletrônicas ainda não se encontram totalmente difundidos pela população de um modo geral. Por comodidade, é muito mais fácil pegar jornal, livro ou revista para o usufruto do incomparável prazer de adquirir informação, cultura, entretenimento e os absorvê-los, de forma ampla e democrática. “Da mesma forma, ninguém prefere ficar com a coluna dolorida para assistir um filme de até três horas diante do computador”, como bem diz o pesquisador Luiz André Corrêa de Oliveira, no texto analítica: “O futuro do Jornal”.

Portanto, razão não falta para se garantir que as mídias impressas, renovadas, atualizadas e modernizadas, ainda terão vida longa na sociedade moderna, seja pela facilidade, pela complementariedade ou pela comodidade. Bem distante do tempo em as grandes invenções do telescópio, desenvolvido por Galileu Galilei. De igual modo, o advento da máquina de imprensa desenvolvida pelo alemão Johann Gutenberg (1398-1468), que hoje passa por sua maior provação, para se manter como meio forma imprescindível à leitura e consolidação dos conhecimentos impregnados nas páginas dos jornais e dos livros.

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