2022 chega novo, porém com cara de mascarado

Por Raimundo Borges
O Imparcial – O mundo esperou por 2022 olhando mais para os números da pandemia modificada pela cepa ômicron do que para os fogos de artifícios desenhando esperanças. Afinal, os indicadores econômicos e sociais só sinalizam para um cenário de desconfiança e preocupação geral. Mesmo assim, depois de dois anos do Sars-CoV-2, o coronavírus causador da covid-19, o mundo parece estar mais próximo do fim do que do começo da pandemia. No Brasil, além dos fatores sanitários, do réveillon colorido pela metade, ou sem festa alguma nos céus, 2022 já chega abrindo alas para as eleições. A festa da democracia.

Para o jornalista e escritor Ricardo Noblat, um dos mais conhecedores das entranhas do poder de Brasília, onde foi premiado como diretor de Redação do jornal Correio Braziliense, o presidente Jair Bolsonaro pode abdicar de concorrer à reeleição em outubro. Em seu pronunciamento na virada do ano, Bolsonaro apareceu “de cara enfezada e fala dirigida unicamente aos seus devotos fiéis”.

Em seu pronunciamento na virada do ano, Bolsonaro apareceu “de cara enfezada”

Tenso e irritado

Na análise de Noblat, no portal Metrópole, a ocasião pedia que o chefe do governo brasileiro manifestasse compaixão pelas vítimas da pandemia da Covid-19 em 2021 e despertasse em seus familiares a esperança em dias melhores, mas não foi o que aconteceu. “Bolsonaro estava tenso e irritado. Deu por esgotada sua recente versão de Jairzinho paz e amor e reconciliou-se com a outra que sempre lhe caiu muito bem – a do presidente criador de casos. Não de bons casos, mas de maus”, pontuou.

No momento em que o país tenta sair do pior colapso sanitário de sua história, com quase 17 mil mortes em dois anos só de covid19, com a inflação disparada, desemprego com 13,5 milhões na rua da amargura, o presidente acaba o ano como começou: criando casos, negando a ciência e dirigindo o discurso para seus seguidores.

Durante enchentes na Bahia, Bolsonaro passa férias em SC | Reprodução/Twitter

Tudo isso num agitado e festivo período de férias, em Santa Catarina, estado onde desfruta o maior contingente bolsonarista. É também o momento da devastação por enchentes, no pior réveillon para milhares de pessoas na Bahia, Minas Gerais, Maranhão, Piauí, Sergipe e Pernambuco.

“Cresce entre seus aliados dentro e fora do governo a impressão de que Bolsonaro começa a examinar a hipótese de abdicar da reeleição, disputando uma vaga ao Senado ou recolhendo-se à sua casa. Para uma derrota certa e humilhante, ele não irá. Tem mais três ou quatros meses pela frente para decidir o seu destino”, especula Noblat, mostrando, porém, uma visão que não se encaixa no perfil arrogante, turrão e personalista do presidente.

Meio carnaval

O Carnaval será também pela metade, assim como foi a má vontade de muita gente para com o uso da máscara e dos protocolos sanitários nas festas da virada do ano pelo país afora. As redes sociais negacionistas já disseminam que a ômicron é uma espécie nova de “gripezinha” passageira, que contamina fácil, mas não mata. Porém, na Europa e Estados Unidos, a pandemia parece ganhar impulso tão grande quanto nos meses em que tinha o nome apenas de covid19 ou do filhote ‘delta’.

No Maranhão o réveillon trouxe mais temores do que euforia pré-carnavalesca, como é tradição no Brasil nessa época de virada do ano. As restrições impuseram novo jeito de o Brasil esperar a chegada do ano. Até as queima queimas de fogos nas cidades e praias, foram feitas sem o som das explosões coloridas no céu. Também, o ano novo trouxe mais dispositivos para que haja controle sobre as mídias eletrônicas no que diz respeito a onda explosiva das fake news, espalhadas mundo afora nas plataformas da internet.

Afinal, em outubro haverá eleições gerais para mudar o rumo da política, ou nela permanecer como estar. Até lá o país segue dividido entre esquerdistas, representados pelo petista Luiz Inácio Lula da Silva e o extremista da direita, liderado por Jair Bolsonaro. O centro não se encontra nem pelo meio da polarização política, nem pelas beiradas dos extremos. A chamada 3ª via dividida entre Sérgio Moro, Ciro Gomes, Simone Tebet, João Doria e outros, não empolgam, não ameaça e não se une. É cada um por si, pois no centro da peleja têm disputas inconciliáveis pelo poder e por projetos pessoais.

Prenúncio da ruptura

O Maranhão, a situação inédita na história recente, segue com dois pré-candidatos do mesmo grupo disputando o mesmo cargo no Palácio dos Leões, com o senador Weverton Rocha (PDT) e o vice-governador Carlos Brandão. Chegou à beira de um precipitado racha político, sob a liderança do governador Flávio Dino, que está fora do poder em 31 de março.

No Maranhão, o governador Flávio Dino, estará fora do poder em 31 de março

No âmbito de Brasil, 2022 começa com parecido com 2021. Inflação em disparada, dólar dando o rumo das contas públicas, o desemprego derrubando a produção, a fome matando gente e as desigualdades aprofundando o fosso entre ricos contados nos dedos e miseráveis contados aos milhões.

A vacina é o maior antídoto para essa crise sanitária, abraçada à crise econômica. Inclusive para remodelar o sistema político do novo cenário. Alerta a Organização Mundial da Saúde que ômicron e delta estão causando tsunami mundo afora. Mas lembra, porém, que o ano novo tem tudo para ser o fim da pandemia.

Tudo depende das tomadas de posições de cada país e de cada pessoa ou grupo. Após dois anos de intensa crise sanitária e mais de 5,4 milhões de mortes, o mundo “já conhece o vírus muito bem e possui as ferramentas para combatê-lo”, prevê o chefão da OMS, o biólogo etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus.

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