O sertão virando mar

Por Raimundo Borges

O Imparcial – Tocantins eras meu rio / Mais que um rio, eras meu mar. / Nas noites negras de frio, escutava tu passar. / Passavas bem de mansinho, / devagar a deslizar. /O caboclo zé fininho, /nem precisava remar. A poesia sobre o Rio Tocantins não tem autoria, mas tem significado de respeito, amor, entrega e dileção pela natureza escorreita sobre o leito do vazo natural que banha o Maranhão, Tocantins e Pará.

Três estados que se encontram parcialmente devastados por uma enchente jamais vista em época tão antecipada dos invernos tradicionais na região. O Estado do Tocantins já se encontra em estado de emergência.

Depois da Bahia, o rio do centro-oeste já não inspira poesia e gera destruição e prejuízos. A sua população clama por socorro urgente. Mesmo isolado por covid19, o governador do Maranhão, Flávio Dino autorizou uma força-tarefa para tomar providências e agir no sentido de minimizar o sofrimento das populações de Estreito, Mirador, Imperatriz.

Até ontem já eram mais de 400 famílias desabrigada na parte do Maranhão, enquanto o governador em exercício do Tocantins, Wanderlei Barbosa (Sem partido), afirma que as inundações “comprometeram a capacidade de resposta do Poder Público nos municípios afetados, dificultando a identificação precisa da intensidade dos desastres”.

Também na Bahia, onde a tragédia das enchentes provocou 26 mortes e destruiu cidades inteiras, o governador Rui Costa (PT), cobrou, um “repasse substantivo” de recursos do Governo Federal, para atender às vítimas do aguaceiro que atingiu o sul, extremo-sul e sudoeste do Estado.

O que ocorre hoje na Bahia, Maranhão, Sergipe, Piauí e Ceará faz lembrar a consciência ecológica do jornalista Euclides da Cunha no clássico “Os Sertões”, lançado em 1902, sobre o massacre na guerra de Canudos ((1896-1897). O escritor cita um decreto do governo português, de 1776, contra o desmatamento que então ocorria em Pernambuco e na Bahia. Veja a atualidade a abrangência daquela obra literária.

Foi da lavra do beato Antônio Conselheiro, líder dos combates em Canudos contra o exército da recém-proclamada República, no sertão da Bahia, que ele lançou a conhecida profecia sertaneja. Em linhas simples, fala de um mundo que muda. Nele, “o sertão vira mar e o mar vira sertão”. Mas o sertão – ou melhor, parte dele – acabou virando rio.

Aconteceu na Bahia, na cidade de Canudos. A imagem do conselheiro parece testemunhar o novo cenário da região: a Canudos atual e o açude que submergiu o sonho de um povo.

O Rio Cocorobó tem 250 milhões de metros cúbicos de água, a 30 quilômetros de inundação sobre as terras mais secas do sertão baiano. No local, tem sertanejo que trocou a enxada pelo barco.

É uma novidade ver o Cocorobó quase cheio, com 80% de sua capacidade. Navegar em suas águas é ter a sensação de desbravar o desconhecido. Passado e presente.

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