Sinistrose eleitoral

Por Raimundo Borges
O Imparcial – A verdadeira historia das eleições de 2022 começou a ser remodelada em 3 de março de 2021, quando o ministro do Supremo Tribunal Federal Edson provocou a maior sacudida no processo político-eleitoral. Era uma tarde de segunda-feira quando Fachin decidiu, de forma surpreendente, anulou quatro processos da Lava Jato os quais levaram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à cadeia.

Foi o primeiro passo para o petista se habilitar à disputa de 2022, o que ele não fez em 2018. Estava preso em Curitiba desde 4 de abril, por ordem do então juiz federal Sérgio Moro, a 12 anos e 1 mês de prisão, no caso do Triplex de Guarujá, misturado com o Sítio de Atibaia.

Ao decidir conceder o habeas corpus a Lula, impetrado em novembro de 2020, Fachin declarou a incompetência da Justiça Federal do Paraná para julgar quatro ações — triplex do Guarujá, do sítio de Atibaia e duas relacionadas ao Instituto Lula.

Segundo o ministro, a 13ª Vara de Curitiba — cujos titulares na ocasião das condenações eram Sergio Moro (triplex) e Gabriela Hardt (sítio) — não era foro do “juiz natural” dos casos. Como não poderia ser de outra forma, a repercussão da sentença foi imediata. Um golpe na direita, na extrema-direita e no centro político brasileiro e um contraponto ao antipetismo, vicejado na Lava Jato.

Assim como o bolsonarismo é a encarnação do antipetismo, a recíproca é totalmente verdadeira. Portanto, naquele dia estava entrando em cena o antibolsonarismo em pessoa.

Luiz Inácio Lula da Silva continuava o símbolo da esquerda brasileira, derrotada na disputa presidencial de 2018, com Fernando Haddad para Bolsonaro e em 2016, quando Dilma Rousseff foi golpeada no Planalto, com a participação do vice Michel Temer, apoiado pelas forças conservadoras tradicionais. O arremate do enredo foi a prisão de Lula que acabaram de reconquistar a proeminência da política da história.

No dia da decisão de Fachin, o cientista político Sérgio Praça, da FGV, já deva um prognóstico definitivo: “Se, de fato o Lula vier a ser candidato, o jogo de 2022 muda completamente”. E completou prognóstico: “É quase certo” que o segundo turno da eleição seria entre Lula e Bolsonaro.

Mesmo descontando o período de 582 dias que Lula passou preso em Curitiba, o peso eleitoral de Lula permanece inabalável. Ele, desde 2021, vem liderando todas as pesquisas, com aproximadamente o dobro de intenções de voto de Jair Bolsonaro, o 2º colocado bem distante do 3º, o estreante Sérgio Moro, que patina entre 7 e 8% por cento das intenções de voto.

Ao decidir trocar a toga pela política, Sérgio Moro terá pela frente Lula, que colocou na cadeia numa condenação em que o STF o considerou um juiz parcial. E não é só: Moro terá no flanco direito, o próprio Bolsonaro, que ele ajudou a eleger em 2018, se tornou ministro da Justiça e agora é o maior inimigo e adversário político.

Portanto, será uma eleição eletrizante, com cores sinistras, autêntico roteiro de ópera bufa, em ano mergulhado na pior pandemia da história contemporânea. Será eleição única e estranha na história do Brasil.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *