‘Antitrabalho’: o movimento que ganhou força na pandemia e se espalha por comunidades online

A pandemia aumentou a insatisfação dos trabalhadores em muitas partes do mundo, levando ao crescimento do movimento antitrabalho

Muitos trabalhadores estão frustrados com a natureza da relação de emprego. Mas alguns, já saturados, estão se fazendo uma pergunta maior: qual é o objetivo do trabalho?

Chris, profissional da área de tecnologia da informação residente nos Estados Unidos, afirma que sofreu terríveis condições de trabalho nos seus últimos empregos.

Ele conta que dois empregadores diferentes – um que não pagava licenças médicas e o outro que cobria apenas uma semana de ausência – forçaram-no a voltar ao trabalho mesmo estando doente. Em outros empregos com forte sobrecarga de trabalho, ele afirma que acabou precisando cuidar das próprias feridas.

Mas um emprego em assistência ao cliente foi além da conta. Seu trabalho, que pagava menos de US$ 13 (R$ 70) por hora, exigia que ele verificasse se os dependentes das pessoas tinham direito a seguro-saúde. E ele conta que seria demitido se fornecesse aos clientes certas informações úteis que ele não estava autorizado a revelar, como o prazo em que eles deveriam enviar a documentação.

“Havia pessoas literalmente implorando por suas vidas ao telefone e eu não podia fazer nada”, ele conta. “Isso me perturbou tanto que percebi que absolutamente nada nesse sistema funciona… é pura falta de empatia e gentileza humana. Não sei como isso aconteceu.”

Após dois anos de pandemia, os trabalhadores de todo o mundo estão cansados. Problemas de saúde mental e burnout são comuns, particularmente entre os trabalhadores essenciais e com salários mais baixos. Esse período prolongado de incertezas fez com que muitos deles repensassem a forma como seus empregadores tornavam as coisas piores – e o número de trabalhadores deixando seus empregos em busca de melhores opções vem batendo recordes em muitos países.

Mas algumas pessoas estão indo além, perguntando-se se existe algum propósito para o seu trabalho, ou para o próprio sistema econômico. Essas pessoas são parte do movimento “antitrabalho”, que busca romper com a ordem econômica que sustenta o ambiente de trabalho moderno.

O antitrabalho baseia-se nas críticas econômicas anarquistas e socialistas e argumenta que a maior parte dos empregos de hoje em dia não são necessários; ao contrário, eles impõem a escravidão do salário e impedem os trabalhadores de receberem o total valor da sua produção.

Mas isso não significa que o trabalho deva deixar de existir. Os apoiadores do movimento antitrabalho acreditam que as pessoas deveriam organizar-se e trabalhar apenas o necessário, em vez de trabalhar por longas horas para gerar excesso de bens ou capital.

Alguns anos atrás, o antitrabalho era uma ideia marginal, radical, mas a encarnação pandêmica desse movimento cresceu rapidamente e tornou-se mais conhecida fora dos círculos políticos.

Ela está baseada na comunidade r/antiwork, em inglês, do agregador de conteúdo e rede social Reddit. A comunidade ainda está fundamentada na ação direta, mas, à medida que sua popularidade foi crescendo, seu foco foi suavizado e ampliado para formar um diálogo mais amplo sobre as condições de trabalho.

Atualmente, a comunidade contém uma mescla de narrativas pessoais sobre pedidos de demissão, criação de mudanças em locais de trabalho hostis, defesa de greves trabalhistas em andamento, organização trabalhista e formas que as pessoas podem buscar para advogar em causa própria.

A comunidade cresceu rapidamente. Em um momento em que a insatisfação dos trabalhadores e os direitos trabalhistas são intensamente analisados, qual o significado do crescente interesse por esse movimento? E ele poderá ter um papel a desempenhar na efetivação de mudanças?

‘Rejeição visceral do trabalho’?

Chris ajuda a moderar a comunidade r/antiwork, que reúne atualmente 1,7 milhão de assinantes (eram apenas 100 mil até março de 2020). “Temos um aumento constante do número de membros, entre 20 mil e 60 mil seguidores por semana. Temos enorme crescimento e muitos membros engajados. Recebemos centenas de postagens e milhares de comentários todos os dias”, acrescenta Doreen Ford, que também atua com moderadora da comunidade.

O nome e a filosofia da comunidade vêm de diversas fontes. Ford afirma que uma delas é Bob Black, filósofo anarquista cujo ensaio de 1985 The Abolition of Work (“A abolição do trabalho”, em tradução livre) foi baseado em pensamentos anteriores sobre o trabalho – uma história que Black afirma vir desde os filósofos Platão e Xenofonte, na Grécia antiga.

“Muitos trabalhadores estão saturados com o trabalho… Pode haver algum movimento rumo a uma rejeição consciente do trabalho, não apenas visceral”, escreve Black, sugerindo que as pessoas façam apenas o trabalho necessário e dediquem o restante do seu tempo para a família e as paixões pessoais.

As pessoas que acreditam no antitrabalho não são necessariamente contra todas as formas de trabalho. Seu sentimento global é de hostilidade contra “trabalhos que sejam estruturados com base no capitalismo e no Estado”, segundo a seção de perguntas frequentes (FAQ, na sigla em inglês) da comunidade: “o objetivo de r/antiwork é começar a conversar sobre a problematização do trabalho como o conhecemos hoje”.

Alguns usuários da comunidade r/antiwork compartilham ideias sobre como apoiar movimentos grevistas, como a disputa trabalhista da Kellogg’s no final do ano passado, nos Estados Unidos
Alguns usuários da comunidade r/antiwork compartilham ideias sobre como apoiar movimentos grevistas, como a disputa trabalhista da Kellogg’s no final do ano passado, nos Estados Unidos

Embora esses ideais sigam sendo fundamentais para o movimento, o foco da comunidade se ampliou para englobar direitos trabalhistas mais genéricos. Os usuários compartilham histórias de abuso por parte dos empregadores, pedem conselhos sobre como negociar melhores salários, contribuem com memes ou postam notícias sobre greves trabalhistas em andamento.

Os participantes também fornecem dicas aos usuários sobre como apoiar movimentos grevistas. Em dezembro de 2021, os membros da comunidade apoiaram os esforços para inundar o portal de vagas da Kellogg’s quando a companhia rompeu as negociações com trabalhadores sindicalizados em greve e afirmou que contrataria novos funcionários não sindicalizados. Embora não esteja clara a importância da influência direta dos membros da comunidade r/antiwork sobre as ações da empresa, a Kellogg’s e o sindicato chegaram a um acordo no final daquele mês.

A comunidade também fornece links para leituras e podcasts sobre o movimento antitrabalho fora do Reddit. A maior parte das postagens vem de trabalhadores norte-americanos de todos os gêneros e profissões, mas há também participantes internacionais.

‘Interrupção do trabalho como o conhecemos’

O movimento antitrabalho não é novo, mas recentemente voltou a chamar a atenção.

“Com a covid, houve uma interrupção do trabalho como o conhecemos”, afirma Tom Juravich, professor de estudos trabalhistas da Universidade de Massachusetts em Amherst, nos Estados Unidos. “Em momentos como esse, as pessoas têm tempo para refletir. O trabalho se degradou para muitas pessoas. Nossas estruturas de autoridade tornaram-se mais draconianas e controladoras do que nunca. As pessoas realmente sentiram isso de uma nova maneira.”

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