Cara no fogo

Por Raimundo Borges

O Imparcial – O ato de confiança absoluta nas pessoas nem sempre é uma atitude que dura para sempre, ou trata-se de uma verdade plena. Os especialistas apontam a seguinte situação que sintetiza a confiança absoluta: digamos que você esteja perdido. Dois homens oferecem ajuda, mostrando o caminho em direções opostas. Um é simpático, bem vestido e bonito. O outro, rude, maltrapilho e feio. Você aceita a ajuda de algum? Qual deles? Segundo o pesquisador argentino Tomas Chamorro-Premuzic, autor de “Confiança: a surpreendente verdade sobre o quanto se necessita dela e como consegui-la”, a maioria de nós vai confiar no primeiro sujeito. Se ele pertencer a nossa cultura ou “tribo”, as chances são ainda maiores.

Presidente Jair Bolsonaro (PL) disse em sua live que “botaria a cara no fogo” pelo ministro da Educação Milton Ribeiro — Foto: Reprodução/YouTube

Porém, sem o cuidado com o que diz como presidente da República Brasileira, o ex-capitão Jair Bolsonaro extrapolou, na semana passada, a expressão popular dos tempos medievais da inquisição: “Pôr a mão no fogo”.

No auge da crise resultante de denúncias de corrupção envolvendo um gabinete paralelo dentro do Ministério da Educação, no qual pastores evangélicos agiam como lobistas para liberar recursos aos municípios, em troca de propina até em quilo de ouro, Bolsonaro saiu com esta: “Eu boto a minha cara no fogo pelo Milton.

Minha cara toda no fogo”, afirmou o presidente, referindo-se ao titular da Educação, pastor Milton Ribeiro, do time chamado de “terrivelmente evangélico”.

Se na inquisição da idade média, colocar a mão no fogo já era uma tortura máxima para a Igreja Católica manter a população sob seu controle, imagine-se, por a cara toda no fogaréu, podendo sair do castigo, cego, surdo e mudo.

Mas o presidente Bolsonaro não demorou mais do que três dias para desmoralizar a promessa, e fazê-lo pensar mais, antes de falar. Se a Igreja medieval punia a heresia com a queima de uma mão, usando um ferro em tocha, o que não significaria então pôr a cara toda na labareda? E espontaneamente.

Na segunda-feira, Bolsonaro decidiu desacreditar sua promessa estapafúrdia e demitir Milton Ribeiro – o quarto a ocupar o cargo nos três anos do atual governo. No dia 9 de agosto de 2021, Ribeiro declarou à TV Brasil algo impensável para um ministro da Educação do Brasil: “A universidade deveria, na verdade, ser para poucos, nesse sentido de ser útil à sociedade”.

Na mesma entrevista se superou: “As crianças com deficiência são de impossível convivência”. Portanto, Ribeiro já foi tarde, e Bolsonaro, que já trocou cinco ministros da Saúde, cinco da Educação, cinco diretores da PF, precisa aprender o quanto é temeroso botar a cara no fogo por alguém que confia.

Na inquisição, o herege de mão queimada tinha que provar em juízo que o fogo não fez efeito, portanto, foi salvo pela fé divina. Logo, se não tinha proteção de Deus seria, então, morto.

Um comentário em “Cara no fogo

  • 30 de março de 2022 em 21:38
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    Na verdade desde o início o referido ministro demonstrou sua pouca afinidade com o cargo.
    O fato de ser declaradamente fundamentalista, já evidencia sua indisposição para o cargo.
    Além disso suas declarações denotam total despreparo para o cargo, por último, as denúncias de corrução o inviabilizam no cargo. A Bolsonaro lhe resta queimar a mão.

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