Lygia Fagundes Telles visitou Monteiro Lobato na prisão; leia depoimento

Morre a escritora Lygia Fagundes Telles aos 98 anos | VEJA

Em 2010, a escritora Lygia Fagundes Telles, que morreu neste domingo, 3, aos 98 anos, relembrou ao Estadão a visita que fez, ainda jovem e aluna da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, ao escritor Monteiro Lobato. Foi na década de 1940 e ele fora preso pelo governo ditatorial de Getúlio Vargas por críticas à condução do governo em relação à prospecção do petróleo.

Fã da obra infantojuvenil do criador do Sítio do Pica Pau Amarelo, Lygia tomou uma atitude corajosa ao visitar o escritor no presídio.

Em retribuição, Lobato, depois de solto, apareceu de surpresa no aniversário da futura autora.

Leia abaixo o texto em que Lygia relembra os fatos.

Quando cheguei para a primeira aula na Faculdade de Direito, um colega aproximou-se sacudindo na mão o jornal, “Olha aí, o Monteiro Lobato foi preso por causa da carta que escreveu, aquela denúncia sobre o petróleo, lembra? O Getúlio Vargas aprontando outra vez, ele foi preso por crime de opinião, contrariar o presidente dá cadeia!”

Enquanto eu lia a notícia, o meu colega esbravejava lembrando a nossa passeata, saímos levando na frente o estandarte do Centro XI de Agosto e a bandeira brasileira, todos na maior ordem e silêncio quando de repente veio por detrás a cavalaria já atirando! Um morto, feridos, presos… “Ele está no presídio da Avenida Tiradentes. Vou lá fazer minha visita”, avisei guardando os livros e cadernos na sacola que dependurei no ombro. O colega enfiou o jornal no bolso. “Não vão deixar você entrar, é claro!” Fui saindo rapidamente. “Não custa tentar.”

Ele me acompanhou até o ponto do ônibus, não podia ir porque tinha um exame nessa manhã. “E se deixássemos para depois?” Despedi-me. “Tem que ser agora.” Quando desci do ônibus fiquei na calçada olhando o velho prédio encardido e frio. Subi a escada. Um guarda veio ao meu encontro e pediu meus documentos. Entreguei-lhe a minha carteirinha de estudante e disse que viera fazer uma visita de solidariedade ao escritor.

O guarda vistoriou a minha sacola, nenhuma arma? Olhou-me com uma expressão meio divertida e ordenou que o acompanhasse. No longo corredor que me pareceu sombrio, ele avisou, a visita teria que ser breve mesmo porque já tinha um visitante lá dentro. Entrei na saleta fria. Uma mesa tosca, algumas cadeiras de palhinha. Em torno da mesa, Monteiro Lobato de sobretudo preto, um longo cachecol de tricô enrolado no pescoço.

Sentado ao lado, o visitante de terno e gravata, calvo, os olhos azuis. Monteiro Lobato levantou-se abotoando o sobretudo e veio ao meu encontro com um largo sorriso. Era mais franzino e mais baixo do que eu imaginava. Tinha os cabelos grisalhos bem penteados e o tom da pele era de uma palidez meio esverdeada, mas os olhos brilhavam joviais sob as grossas sobrancelhas negras.

Ofereceu-me a cadeira que estava entre ambos. “Este aqui é um caro editor”, apresentou-o e disse o nome do editor que não guardei. Sem saber o que dizer, fui logo enumerando os seus livros que já tinha lido e que ocupavam uma prateleira da minha estante, “ah! as paixões da minha adolescência”: Narizinho Arrebitado, Tia Nastácia, o Jeca Tatu, as memórias daquela boneca de pano, a Emília, o Saci-pererê… Ele interrompeu-me com um gesto afetuoso, eu sabia que era avesso às homenagens e assim entendi a razão pela qual desviou a conversa, afinal seus personagens não eram culpados pela sua prisão, mas sim as cartas que andou escrevendo, ou melhor, as denúncias que andou fazendo através dessas cartas porque livros os governantes não liam mesmo. Deviam ler mas não liam e daí a ideia das cartas curtas e diretas.

“Estou aqui no meio de bandidos, tinha que me calar ao invés de avisar que o petróleo é nosso. A mocinha já entendeu, hein? Sei que é estudante, mas o que está estudando?” Quando contei que estava na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, ele abriu os braços num gesto radiante, “Pois foi lá que eu me formei!. Só que na nossa turma não tinha meninas, só marmanjos. Ah! se tivesse aqui um vinho a gente poderia brindar estes doutores! Quer dizer que a mocinha vai advogar?”

Comecei gaguejando, bem, era difícil explicar, eu era uma estudante pobre, queria me formar para ter um diploma e assim anunciar um bom emprego. Na realidade, queria ser escritora, escrever contos, romances… Monteiro Lobato voltou-se para o editor e tocou-lhe no ombro. “Olha aí, a mocinha é vidente! Já está sabendo que escrever neste país não dá dinheiro, escritor morre pobre e ignorado. Então ela é uma vidente!”, disse e tirou do bolso do sobretudo um pequeno bloco e uma caneta. “Vamos, deixe o seu nome e endereço, o meu amigo aqui vai lhe enviar algumas reedições dos meus livros, vamos, diga logo antes que o carcereiro apareça.”

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