Hoje, dia do jornalista

Por Raimundo Borges

O ImparcialCumprimento a todos que resistem, dentro do possível, às intempéries das crises sanitárias e econômicas, como às arapucas eletrônicas dos tempos modernos, que nos aprisionaram – ou tentaram nos submeter. Aqui, neste jornal quase secular – O Imparcial – vale lembrar fatos corriqueiros na redação naqueles tempos que se foram na década de 1970.

O repórter estreante, José Cirilo Filho – depois, apenas Zé Cirilo – saiu a campo para produzir uma série de reportagens chamada “Como vivem os moradores das Palafitas de São Luís”. Eu, como repórter-fotográfico fui escalado parceiro na empreitada, organizada pelo chefe de reportagem, jornalista Benedito Buzar. Zé Cirilo, com seu gravador National, de fita cassete (a pilhas grandes), pesando uns três quilos, e eu, com minha inseparável câmera “caixão” Yashica Mat, fabricação japonesa, operada com filme de rolo preto e branco, seis chapas, sentimo-nos desafiados a cumprir missão tão difícil.

Com um pequeno microfone adaptado ao gravador, Cirilo e eu percorríamos as ruas palafitadas, sobre estreitas “passarelas de tábuas”, escoradas em estacas enfiadas na lama, com a maré subindo e descendo, roçando o fundo dos casebres. O local era a Avenida Kennedy, que acabara de ser construída, onde era antigo manguezal, no fim do governo José Sarney. Foi um trabalho duro e comovente ouvir os moradores sobre suas dificuldades, como chegaram ali, de onde vieram, o que faziam e como se viravam morando em situação tão miserável. Era a pauta social de enorme relevância. Afinal, aos poucos, a Kennedy foi se transformando e se incorporando à paisagem urbana de São Luís.

Eu e Cirilo percorríamos as ruas palafitadas, sobre estreitas “passarelas de tábuas” escoradas em estacas enfiadas na lama, com a maré subindo e descendo

Era O Imparcial cumprindo o seu papel de agente da transformação social pela informação definitiva; de porta-voz de quem não tinha voz nem vez. Era o jornalismo forte, corajoso e presente, como ainda o é. Sempre fazendo a história do momento para as gerações do futuro. O jornalismo de papel que no passado, depois de lido, servia tanto para embrulhar peixe na feira, também era arma para detonar a ganância de poderosos e malfeitores.

Hoje a Avenida Kennedy é quase centro da cidade, com seus arruamentos precários, mas a parte principal virou endereços de bancos, repartições públicas, comércio arrojado e um trânsito intenso. A maré foi expulsa da área e com ela, os caranguejos que fervilhavam no mesmo ambiente em que alimentavam aquela gente sem endereços. Era a invasão coletiva, ora despejada, ora reerguida, até que, finalmente, cada morador transformou as palafitas em um bairro, ainda carente, mas com uma bela história contada na imprensa.

A construção da Avenida Kennedy foi um fato tão relevante, que a Revista Veja, na época, fez uma matéria especial com o foco na ‘despalafitação’ de São Luís, um tema tão relevante que foi objeto de dos livros do pesquisador e sociólogo Josué de Castro, autor dos clássicos “Geografia da Fome” e “Homens e Caranguejos”. Este último sobre a luta por moradia e sobrevivência, dos palafitados do Recife.
Josué de Castro dizia, taxativo: “Metade da humanidade não come; e a outra não dorme, com medo da que não come”. Já em São Luís, a construção da Avenida Kennedy rendeu até toada do famoso bumba-meu-boi do cantador Laurentino, que começava assim, com arroubos sobre José Sarney, governador: “Governo como esse eu nunca vi, construiu a caixa d’água e a Avenida Quenedi”.

2 comentários em “Hoje, dia do jornalista

  • 7 de abril de 2022 em 17:55
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    Querido Borges, salve!
    Parabenizo o amigo pela passagem do dia jornalista!
    Dizem que recordar faz bem à alma. De fato. Me lembro de qdo ainda eras repórter fotográfico de O Imparcial. Sempre presente, atento e solícito.
    Pregrediste na bela profissão de jornalista, merçê do teu talento, trabalho e dedicação. Ninguém te ofertou nada. Conseguiste sozinho com tuas qualidades já citadas e faro jornalístico, porém sempre mantendo a ética.
    Pode e deves comemorar a vida de vitórias! Fraterno abraço.

    Leônidas Caldas
    Engenheiro

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    • 7 de abril de 2022 em 20:45
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      Olá, Borges!
      Todos esses registros, lembranças e informações sobre as transformações sociais e urbanísticas da cidade de São Luís deveriam virar livro e documentário, comandante. Narradas e comentadas por você e os colegas jornalistas que protagonizaram toda essa história. Parabéns pelo dia de hoje e pelo trabalho.

      Resposta

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