Paixão desfarçada

Por Raimundo Borges

O Imparcial – Nesta sexta-feira da Paixão de Cristo, a política cederá espaço à fé. Como católico, vou rememorar fatos da infância no interior de Caxias (Jaguarana), uma localidade aonde nasci e que até hoje permanece desconhecida pela cartografia oficial do Maranhão. Porém, os moradores seguem, aqui e acolá, algumas tradições secularmente repetidas nos “dias santos” pelo Nordeste afora.

A semana anterior à Santa, já tinha colheitas na roça para a troca de alimentos com os vizinhos que também colhiam produtos diferentes. Assim todos tinham na mesa, coisas parecidas nos sagrados da fé cristã. A produção de babaçu era toda destinada à compra do bacalhau, para a torta temperada no azeito de coco.

Mamãe era a mais fervorosa na fé cristã. O jejum na sexta-feira da Paixão era um ato penitencial obrigatório. Como não tinha igreja, as famílias se reuniam na nossa casa para rezar um terço perante a imagem do Sagrado Coração de Jesus. Ninguém brigava; não se falava alto, não se fofocava. Só se ouvia no rádio musicas clássicas. Se brigasse, tinha que “pagar” o pecado, “rompendo” a aleluia com uma pisa de relho.

Os afilhados tinham que passar o sábado da Aleluia e domingo da ressureição (Páscoa) com os padrinhos, que os recebiam como se filhos fossem –, e com boa comida.

Os castigos aos desobedientes, com puxões de orelha, petelecos e bolos de palmatória eram deixados “para romper a Aleluia”. Era herança histórica dos tempos da escravidão. Os escravos tinham o ritual do dia de confissão geral. Eles eram obrigados a ir “buscar perdão dos seus pecados, para não cair no infortúnio de, na morte, ir direto para o inferno”.

Hoje, a semana santa é também dias de fazer política. As periferias e zonas rurais recebem comitivas animadas de políticos distribuindo toneladas e toneladas de peixe para a “Páscoa da bondade”, feita com o dinheiro público. Em ano eleitoral, como 2022, essa carga bondosa é mais reforçada.

 

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