A aula de Anitta: como o bolsonarismo usa nossa indignação para se promover

Anitta se apresentando no festival Coachella. Foto: reprodução twitter
Anitta se apresentando no festival Coachella. Foto: reprodução twitter

Revista Fórum – Como usar a indignação deles a nosso favor? Este é o grande enigma que a esquerda precisa solucionar nesta campanha.

No último final de semana, Anitta decidiu bloquear Jair Bolsonaro no twitter após o perfil do presidente comentar, de forma debochada, em cima de uma postagem onde a cantora defendia que as cores da bandeira, utilizadas por ela na roupa com que se apresentou no festival Coachella, “pertencem aos brasileiros” e não a um grupo político.

A justificativa de Anitta para o block é que não queria que os administradores das redes sociais de Bolsonaro passassem a usar a fama dela para gerar engajamento para o presidente na internet. Ou seja, Anitta se recusou a servir de escada para o bolsonarismo, coisa que nós, progressistas, infelizmente temos feito todos os dias.

Em uma sequência de tweets, Anitta deu uma aula sobre a estratégia dos bolsonaristas de reverter a indignação dos progressistas em engajamento a favor do presidente. Segundo Anitta, a intenção é transformar os artistas que criticam Bolsonaro em “mimizentos”, enquanto o próprio vira o “cara maneirão, boa praça”. “Nesse momento, qualquer manifestação contra ele por meio dos artistas vai ser revertida em forma de deboche pelas mídias sociais dele. Assim o artista vira o chato mimizento e ele o cara bacana que leva tudo numa boa”, escreveu a cantora.

“As pessoas acabam esquecendo o que realmente importa, que é a forma como o país está caminhando, pra votar pela identificação de fã que você tem pela pessoa. Aquela sensação de: queria ser amigo dele… Logo, você votaria no seu amigo gente boa”, seguiu Anitta. “Já passa a ser mídia boa quando você cita o nome dele, não faz diferença se você citou de forma negativa ou positiva. Porque quanto mais você cita de forma negativa, mais mídia ele alcança e usa essa mídia pra destinar ao que ele quer. Já usei essa estratégia algumas vezes por isso sei bem o que tá rolando.”

Há várias lições aí, e a mais importante delas é que, quanto mais replicamos as barbaridades que Bolsonaro diz ou faz, mais nós o ajudamos a crescer e se popularizar. Sabe o velho “falem mal, mas falem de mim”? Deixou de ser ditado popular para se tornar estratégia de dominação da extrema direita. A recíproca não é verdadeira: o que os deixa “indignados” com a esquerda (geralmente mentiras, como a já célebre mamadeira de piroca em 2018) também se reverte em apoio para o lado deles, não para o nosso.

Sabe aquela indignação que sentimos quando Eduardo Bolsonaro postou uma serpente no twitter para zombar da tortura sofrida por Miriam Leitão? É possível que isto o ajude eleitoralmente em vez de prejudicar

Um estudo publicado em 2019 pela Universidade de Stanford mostrou que há um paradoxo na indignação viral: as críticas em massa das pessoas contra o personagem que fez a ofensa acabam resultando em simpatia para com o agressor. Os coordenadores da pesquisa mostraram a 3406 participantes alguns posts ofensivos reais das redes sociais, como uma mulher fazendo uma selfie num campo de concentração e um homem fazendo um comentário machista sobre a Marcha da Mulher em 2017, além dos comentários ultrajados que estes comportamentos geraram.

Os resultados mostraram que a indignação que viralizou nas redes contra o autor da postagem era frequentemente percebida como desproporcional, levando a um aumento da simpatia por ele. Um exemplo atual é o que está acontecendo com os políticos republicanos Lauren Boebart, do Colorado, Paul Gosar, do Arizona, e Marjorie Taylor Greene, da Georgia. Os três estão conseguindo se promover às custas da indignação que geram no país com comentários que seriam considerados inaceitáveis anteriormente –alguém lembrou dos Bolsonaro e seus repetidos elogios à tortura?

Boebart assedia frequentemente a colega de Parlamento Ilhan Omar, que é muçulmana, dizendo que ela integra um “grupo jihadista” e que é “do mal”. Estes ataques levaram à condenação veemente por parte de entidades antirracistas, mas, em vez de pedir desculpas, Boebart dobrou a aposta, exigindo de Omar que se desculpasse por sua retórica “anti-americana”. O que aconteceu em seguida foi que Ilhan Omar passou a receber ameaças de morte enquanto a agressora se tornava uma das republicanas que mais receberam doações até o momento.

Um estudo da Universidade de Stanford mostra que há um paradoxo na indignação viral: a indignação que viralizou contra o autor de uma postagem repulsiva é frequentemente percebida como desproporcional, levando a um aumento da simpatia por ele

O mesmo aconteceu com Taylor Greene, que defendeu o assassinato de lideranças democratas e chegou ao Congresso justamente por seus discursos violentos (alguém disse Bolsonaro?). Ela já conseguiu levantar em doações o triplo de fundos necessários para uma campanha a deputado nos EUA. Gosar, que tuitou a paródia de um desenho animado onde ele mesmo mata a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, foi publicamente censurado pelo Congresso, mas sua popularidade só cresceu. “Se você disser algo maluco, algo extremo, vai arrecadar dinheiro”, afirmou a também republicana Nancy Mace, uma das poucas a criticar seus colegas de partido, à agência AP.

Então, sabe aquela indignação que a gente sentiu quando Eduardo Bolsonaro postou uma serpente no twitter para zombar da tortura sofrida pela jornalista Miriam Leitão? É possível que isto o ajude eleitoralmente em vez de prejudicar. É verdade ou não é que o ultraje que sentimos quando a dupla Daniel Silveira e Rodrigo Amorim rasgou a placa de Marielle foi o que levou à eleição deles a deputado federal e estadual, respectivamente? Senão por que vocês acham que eles repetiram a dose agora, posando com a placa? Acusado de assédio moral e sexual e até de pedofilia, o vereador Gabriel Monteiro ganhou quase 300 mil seguidores desde as primeiras denúncias. 

Silveira e Amorim voltam a posar com a placa. Foto: reprodução

Numa era onde a indignação é constante, até porque há muito contra o quê se indignar acontecendo no mundo, alguns analistas internacionais vêm adotando o termo “indústria do ultraje” para definir como este sentimento está sendo manipulado nas redes de forma perniciosa, principalmente pela extrema direita. A principal questão que se coloca é que a indignação em massa não leva, como supúnhamos, à rebelião, à demolição de estruturas, pelo contrário; ao que tudo indica, é contraproducente e favorece a manutenção do status quo.

“A indignação como uma situação constante é impotente”, escreve Richard T. Ford, professor de Direito de Stanford, no artigo O Complexo Industrial do Ultraje. “Os próprios indignados são vítimas da mesma raiva corrosiva que esperam dirigir à estrutura de poder; estamos todos presos em uma corrida armamentista de indignação em que o impasse é o único resultado possível. E, claro, o impasse favorece o status quo. A expressão de indignação não é mais uma forma de protesto político efetivo; em vez disso, é uma forma de entretenimento esteticamente degradada.”

“Estamos todos presos em uma corrida armamentista de indignação em que o impasse é o único resultado possível. E, claro, o impasse favorece o status quo. A indignação não é mais uma forma de protesto político efetivo, é uma forma de entretenimento esteticamente degradada”

Para nós, esquerdistas, é a famosa sinuca de bico. É de indignação que nos alimentamos. A capacidade de indignar-se é nossa própria razão de existir. O que fazer se nossa mais justa indignação acaba se voltando eleitoralmente contra nós? Anitta contribuiu um pouco no sentido de mostrar o que NÃO devemos fazer: não devemos cair na armadilha de nos indignarmos a ponto de colocarmos o bolsonarismo em evidência, deixá-los se promover às nossas custas. O básico nas redes: não compartilhar vídeos onde eles dizem barbaridades, por exemplo.

Mas nem Anitta nem ninguém apontou até agora como podemos inverter de fato esse jogo: como usar a indignação deles a nosso favor. Este é o grande enigma que a esquerda precisa solucionar nesta campanha presidencial para realizar um contra-ataque eficiente ao bolsonarismo. Se é que existe solução.

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