Jovens relatam ‘pressão positiva’ por título de eleitor e 1º voto

“Estou bastante animada”. Júlia Menezes, 15 anos, não se refere a uma festa ou a um show, mas sim às eleições deste ano.

Enquanto o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) se desdobra em campanhas para que a faixa etária entre 16 e 18 anos tire o título de eleitor até o fim do prazo, que se encerra nesta quarta-feira (4), Júlia se antecipou: fez o documento ainda em janeiro e diz incentivar os amigos — assim como a cantora Anitta, a quem agradece pelas mobilizações em prol dos votos dos mais jovens.

“Muitos só fizeram isso depois da campanha dos famosos”, disse à reportagem.

Júlia é uma das quatro pessoas entrevistadas pelo UOL na faixa entre 15 e 19 anos. Moradores de diferentes cidades, todos votarão pela primeira vez este ano.

Até março, o TSE havia registrado a menor quantidade de eleitores entre 16 e 18 anos desde 2004. Após as campanhas de influenciadores, o número aumentou 45%.

“As pessoas estão mais desmotivadas”, relata Júlia, que completa 16 anos a tempo de votar. “Quem eu conversei disse que está com preguiça de tirar o título, de ir na fila votar”, acrescenta.

Mas o documento, hoje, está a um clique de distância: é possível tirar e regularizar o título, além de transferir o domicílio eleitoral, pela internet.

“Tentei tirar com alguns amigos, mas o site estava fora do ar. Nos juntamos em sala de aula e tentamos mandar os arquivos, mas [o sistema] não estava aceitando”, conta Andrey Pires, de 16 anos, estudante no Senai de Curitiba (PR).

O TSE não respondeu aos questionamentos do UOL sobre uma possível instabilidade no sistema. Até a publicação da reportagem, Andrey conseguiu tirar o título.

“Conheço bastante gente desanimada, com a velha ideia de que candidato x já vai ser eleito, de que nem adianta ir lá e votar”, diz Andrey, que já escolheu seu candidato para a Presidência da República.

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Mayanne Silva votará pela primeira vez neste ano Imagem: Ricardo Labastier/UOL

Mayanne Silva, de 19 anos, também já tem a cola pronta para votar em outubro. “Só mudo de ideia se algum deles desistir”, diz.
A estudante de História na Unibra (Centro Universitário Brasileiro), no Recife, não votou nas eleições municipais de 2020, apesar de já ter a idade mínima permitida Ela perdeu o prazo, que, neste ano, termina nesta quarta-feira (4).

“Eu queria muito ter votado, mas fui deixando passar o tempo, acabei não tirando o título e não votei”, lamenta. Este ano, o título está a postos.

Envelhecimento da população

Diogo Cruvinel, cientista político e analista do TSE, afirma que o tribunal atribui a queda de novos títulos entre 16 e 18 anos à atual pirâmide etária do Brasil.

A nossa população está envelhecendo, não é só o número de jovens com título de eleitor que tem diminuído, mas a quantidade de jovens na população no geral.”Diogo Cruvinel, cientista político e analista do TSE

Segundo dados publicados em 2019 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia Estatística), a faixa etária entre 30 e 39 anos é a maior do país, correspondendo a 15,8% da população, seguida da parcela entre 40 e 49 anos (13,8%). Os jovens de 16 a 18 anos representam 6,1% da população.

 

No entanto, após a campanha que mobilizou até atores internacionais, como Mark Ruffalo e Leonardo Di Caprio, a procura aumentou. “Foi uma grande e positiva surpresa essa adesão espontânea dos artistas. Isso acabou tendo um impacto grande nos números”, relata Diogo.

Medo do cancelamento

Estudante de Educação Física na Unifia (Centro Universitário Amparense), no interior de São Paulo, Pedro admite que tem receio de se posicionar sobre política.

Política é um assunto que entra bastante nessa cultura de cancelamento. Eu não gosto de me abrir em público para evitar esses desconfortos.”Pedro Mantovani, 17 anos

Enquanto falava sobre as manifestações de ódio na internet, Pedro consultava o Twitter para ver qual o assunto da vez. “Deixa eu ver aqui nos Trending Topics”. No dia, nenhuma “treta” dominava o noticiário.

“A maneira que as pessoas usam a internet hoje em dia é muito mais destrutiva do que construtiva. Isso faz com que as pessoas não queiram dar a opinião por medo”, acrescenta Andrey Pires.

Mayanne concorda, em parte, com a opinião de Pedro e Andrey. “Muitos influenciadores digitais estão com medo de se posicionar, são pessoas públicas. Mas, olha, talvez pela minha bolha social, pessoas mais próximas não estão com tanto medo. Ainda bem.”

A jornalista Manuela Pinho, 50 anos, mãe de uma adolescente que votará pela primeira vez em 2022, discorda.

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Manuela Pinho, 50 anos, líder do “Se liga, 16!” em 1989, posa ao lado da filha Helena, 15, que vai votar pela primeira vez em 2022 Imagem: Manuela Pinho/Arquivo Pessoal

“Tenho a impressão de que os jovens falam o que querem”, observa. Ela acrescenta que o seu ponto de vista é limitado: “Eu tenho 50 anos, não trabalho com a juventude, não estou inserida nesse universo. Digo pelo que vejo na minha filha, nos amigos dela, e na minha convivência pessoal, que é muito restrita.”

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