Como pensam evangélicas, que podem definir eleição para presidente

As mulheres, que são quase 60% dos evangélicos no Brasil, terão papel crucial nessa eleição para presidente, dizem especialistas. “Esse ano tem eleição, temos que nos posicionar”. Num culto lotado em Brasília, a voz da pastora Raquel Prado ecoa forte. “Você tem o poder de influência. Influencie na sua casa, na sua empresa, por onde você passa. Repita comigo: decisão!”.

Todos na plateia repetem. O culto se estende por três horas e uma banda com baterista, guitarrista e cantores jovens acompanha a pregação – ora a música é lenta para dar o tom de reflexão, ora é agitada e os fiéis pulam enquanto cantam músicas de louvor.

Em vários momentos da pregação, a mensagem sobre a necessidade de a igreja se posicionar e se fazer ouvir é reforçada. “A igreja não nasceu para ser enfeite do mundo. Repita comigo: Eu me recuso a ser enfeite!”.

A mulher no palco, que claramente conseguiu captar a atenção da plateia, tem 41 anos e é pastora desde os 17 anos. De origem humilde, hoje ela roda o Brasil pregando e defendendo que a igreja se posicione e influencie, inclusive na política e nas eleições.

“Os cristãos estavam mudos, mas agora a igreja se levantou. Estamos colocando a cara e nos posicionando”, disse Raquel Prado, em entrevista à BBC News Brasil da sua casa em Taquara, no Rio de Janeiro.

Raquel Prado
Eleitora de Bolsonaro, Raquel Prado tem 41 anos e defende, em suas pregações, que evangélicos influenciam na política e se posicionem claramente na eleição de 2022

Ela está entre os quase 70% de evangélicos que votaram em Jair Bolsonaro no segundo turno da eleição de 2018. Naquele ano, os evangélicos definiram o resultado, dando 11 milhões de votos a mais a Bolsonaro na disputa com o candidato do PT, Fernando Haddad.

Mas, neste ano, pesquisas de intenção de voto mostram que a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na disputa tem provocado rachas nesse eleitorado – homens evangélicos continuam com Bolsonaro, mas as mulheres estão praticamente divididas entre os dois candidatos, conforme as últimas pesquisas de opinião.

E, segundo especialistas, são as evangélicas, que em sua maioria são de baixa renda, pretas e pardas, que poderão definir quem vai presidir o Brasil a partir de 2023. Afinal, elas são quase 60% dos evangélicos no Brasil.

“Eu não tenho dúvida de que as evangélicas negras vão decidir essas eleições”, diz a antropóloga Jacqueline Teixeira, professora da Universidade de São Paulo e autora de livros e artigos sobre crescimento evangélico no Brasil.

Para entender o que busca esse eleitorado, a BBC News Brasil viajou para Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia e conversou com evangélicas que pretendem repetir neste ano o voto em Bolsonaro em 2018 e outras que mudaram de opinião.

Nas entrevistas, algumas questões chamaram a atenção: a conexão com candidatos que falem em “proteção da família”, a decepção com a gestão da pandemia, o medo de perda de controle sobre o que filhos aprendem na escola e a demanda por medidas nas áreas de saúde, educação e segurança.

Negros e mulheres são grande maioria entre evangélicos

A face típica do evangélico no Brasil é feminina, negra e jovem: 58% são mulheres, 59% são pretos ou pardos e mais de 60% têm entre 14 e 44 anos. Os dados são de uma pesquisa Datafolha de 2020, a mais ampla feita até agora sobre o perfil do evangélico brasileiro.

Tatiana Gonzaga, de 20 anos, faz parte dessas estatísticas. Ela mora em Santíssimo, no Rio de Janeiro, com a mãe, o padrasto e a irmã, e, desde criança, frequenta a igreja Assembleia de Deus.

Tatiana Gonzaga
Tatiana, de 20 anos, é influenciadora digital com mais de 300 mil seguidores no Tiktok. Ela diz que pensou em votar em Bolsonaro em 2018, mas mudou de opinião. Agora, pretende votar em Lula

Influenciadora digital, Tatiana tem mais de 300 mil seguidores no TikTok e 90 mil no Instagram, onde começou a ganhar popularidade com vídeos de humor que desmistificam estigmas sobre evangélicos. “As pessoas têm essa ideia de que evangélico tem que usar coque, saia abaixo do joelho, e não é assim”, diz ela.

É só entrar na casa de Tatiana para perceber três coisas: a união da família, a forte presença da fé evangélica e o estímulo ao pensamento crítico. “Lá na nossa Igreja, temos um grupo jovem e a gente é bem liberal. A gente discute bastante sobre assuntos polêmicos e cada um dá a sua opinião. É claro que tem aquelas divergências, mas com respeito”, conta.

“Sobre aborto, por exemplo, eu não posso simplesmente apontar o dedo na cara de uma menina que foi abusada sexualmente, que engravidou e que quer tirar aquela criança por conta de um trauma muito grande. Não posso dizer: ‘você não vai fazer isso porque você vai pro inferno’ ou dizer que ela precisa seguir o que eu acredito. Precisamos ter em conta os direitos humanos e chegar a um consenso.”

Quase voto em Bolsonaro

Em 2018, Tatiana planejava votar em Bolsonaro, ao saber que havia um candidato que se apresentava como cristão e tinha Deus no slogan de campanha, mas mudou de ideia depois que uma professora sugeriu que pesquisasse mais sobre o então candidato à Presidência.

A jovem conta que, ao procurar mais informações sobre Bolsonaro, ficou impactada por dois vídeos em particular: um em que ele sugere que mulheres não devem ganhar o mesmo salário que homens porque engravidam e outro em que ele declarou, numa palestra no Clube Hebraica, no Rio de Janeiro, que quilombolas “não servem nem para procriar”.

Tatiana Gonzaga
‘Eu percebi que não faz sentido votar em alguém pelo simples fato de ele se dizer cristão. Ele pode se dizer cristão e não seguir os preceitos, não agir como cristão’, diz Tatiana.

“Eu vi que ele é uma pessoa que apoia causas que eu não apoio, um tipo de homem que rebaixa uma mulher por ser mulher, que é preconceituoso com outras pessoas de outras religiões”, diz.

“Daí eu percebi que não faz sentido votar em alguém pelo simples fato de ele se dizer cristão. Ele pode se dizer cristão e não seguir os preceitos, não agir como cristão.”

Tatiana e toda a família dizem que pretendem votar em Lula, na eleição de outubro. “De todos os candidatos que estão aí, Lula é o que mais se aproxima dos preceitos cristãos, que tem uma preocupação com o pobre.”

“Eu procuro um candidato que queira realmente mudar o quadro que está o país, porque literalmente virou um caos. As pessoas estão comprando osso para comer em casa, é desumano. Quero uma pessoa que fique indignada, porque muitas pessoas estão sendo realmente esquecidas por serem pretas e por serem pobres.”

A ideia de ameaça à liberdade religiosa

Mulher orando em evento evangélico
Em 2018, quase 70% dos evangélicos votaram em Bolsonaro e foram cruciais para a eleição dele. Agora, pesquisas de opinião mostram que parte das mulheres evangélicas está migrando votos para Lula

Assim como Tatiana, Alexia Pimenta se enquadra no perfil majoritário de evangélicos brasileiros. É jovem, mulher e negra. Aos 22 anos, é pastora da igreja Sarando a Terra Ferida. Mas, diferentemente de Tatiana, votou em Bolsonaro em 2018 e pretende repetir o voto nele.

Ela recebeu a equipe da BBC News Brasil em casa, ao lado do marido, em Belford Roxo, no Rio de Janeiro.

“Vi que Bolsonaro era um homem conservador, alguém que zela pelo pai, pela mãe. Percebi nele alguém de punho firme, que queria lutar pela família, lutar pela causa. Porque sabemos muito bem que a família é a base de tudo”, disse.

Alexia diz que sente por parte da “esquerda” uma tentativa de “imposição de valores”.

“O PT e todo o povo da esquerda, eles sempre apresentam algumas coisas, falam algumas coisas que a princípio a sociedade fica: ‘nossa é isso que nós precisamos’. Eles tentam disfarçar a imposição com a necessidade do povo, como o ativismo LGBT”, critica.

“Eles querem impor, tem que ser assim. Eu não sou contra os gays de jeito nenhum, mas não apoio a prática.”

Questionada pela BBC News Brasil se, assim como ela quer ter o direito de professar a sua fé e ser quem é, gays devem ter o direito de casar e ser quem são, ela respondeu:

“Eles podem lutar pela pauta deles. Eu tenho o direito de ser contra. Uma coisa é alguém agredir o outro pelo que a pessoa é. Isso aí é homofobia. Eu não aceitar não é homofobia, é um direito que eu tenho.” Alexia argumenta que as propostas de criminalização da homofobia são uma tentativa de acabar com a liberdade religiosa.

Mais em BBC News

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *