Garimpeiro ilegal mostra no YouTube fugas e dribles à fiscalização em terra yanomami

Barco com piloto é perseguido por barco com soldados
Reprodução | Canal criado por garimpeiro tem cenas de perseguições com tiros e graves acidentes

“Ó os polícia, ó os polícia”, alerta um homem enquanto filma três helicópteros sobrevoando um acampamento de garimpeiros ilegais na Terra Indígena Yanomami.

“É três ‘blackhawkzão’, três!”, prossegue o narrador, referindo-se ao modelo da aeronave militar. “Todo mundo, vamos se esconder, agora o bicho pega”, ele diz.

Cenas como essa, que mostram garimpeiros fugindo de forças de segurança, são comuns num canal no YouTube criado por um garimpeiro que atua ilegalmente dentro do território yanomami, em Roraima.

Os vídeos do canal, 120 ao todo, foram postados nos últimos três anos, período de forte crescimento da mineração ilegal em terras indígenas, apesar de operações policiais pontuais.No território yanomami, onde se estima que haja até 20 mil garimpeiros, a atividade ganhou visibilidade nas últimas semanas após denúncias de violência sexual contra mulheres e meninas indígenas.

O garimpo também está associado à presença de facções criminosas no território e à contaminação de indígenas por mercúrio (leia mais abaixo).

Página do YouTube com vídeos em miniatura
Canal que expõe rotina de garimpeiros no território yanomami foi criado em 2018 e tem 120 vídeos publicados

 

Rotina do garimpo

Os vídeos do canal “Fabio garimpo Junior” mostram garimpeiros à vontade diante das câmeras durante seus trabalhos, ainda que garimpar em terras indígenas seja crime passível de prisão.

Sem esconder o rosto, eles discursam em defesa do garimpo e criticam a repressão à atividade, muitas vezes ecoando posições do presidente Jair Bolsonaro.

Os vídeos mostram ainda como o garimpo na terra yanomami ganhou uma escala industrial nos últimos anos.

Mapa da Terra Indígena Yanomami
Maior terra indígena do Brasil, território yanomami ocupa porções dos Estados de Roraima e Amazonas

 

As gravações mostram helicópteros e aviões privados transportando os garimpeiros até as minas ilegais (não há acesso terrestre ao território).

Nos garimpos, máquinas pesadas abrem grandes clareiras na Floresta Amazônica e rios são desviados na busca por ouro e cassiterita. Alguns acampamentos parecem minicidades, com eletricidade e internet.

Segundo a Hutukara Associação Yanomami, a área desmatada por garimpeiros dentro do território indígena cresceu 46% em 2021 em comparação com o ano anterior.

A atividade, porém, implica sérios riscos para os garimpeiros. Dois vídeos mostram helicópteros a serviço do garimpo em destroços após caírem na floresta.

Outras filmagens mostram manobras arriscadas de barcos com garimpeiros subindo corredeiras, helicópteros descendo em pequenas clareiras e aviões pousando sob forte chuva.

As cenas são exaltadas no canal como exemplos da coragem e perícia dos envolvidos.

Agente armado de costas, diante de caminhonete em chamas
Legenda da foto,Agente observa caminhonete em chamas durante operação contra o garimpo na Terra Indígena Yanomami, em 2021

 

Perseguições com tiros

A rotina nos garimpos no território yanomami também abarca perseguições com tiros.

Um vídeo publicado em janeiro de 2020 tem como título “Piloto no garimpo do Uraricoera tenta fugir do Exército brasileiro”.

As imagens mostram um piloto que navegava em alta velocidade enquanto era perseguido por um barco com quatro soldados no Uraricoera, principal rio do território yanomami.

Após quatro disparos, um homem na margem do rio grita: “Pegou, pegou”. Ouvem-se então outros dois tiros, mas o vídeo termina sem que seja possível ver se o piloto foi realmente atingido nem qual foi o desfecho da perseguição.

Outra versão dessa cena, publicada em fevereiro de 2022, envolveu um carro da Polícia Militar de Roraima que perseguia em alta velocidade um pequeno avião num aeroporto não identificado.

Segundos após a decolagem, ouve-se um disparo, mas a aeronave prossegue o voo, aparentemente ilesa.

Garimpeiro youtuber

O canal no YouTube que exibe os vídeos existe desde janeiro de 2018 e tem 324 inscritos. A última gravação foi publicada em 28 de abril de 2022.

Em vídeo de agosto de 2021, o dono do canal se apresenta como Fábio Júnior Rodrigues Faria e se define como garimpeiro, mas diz ter a ambição de viver como youtuber.

“Se um dia futuramente der, vou viver disso, mostrando a realidade do garimpo, mostrando a dificuldade que os garimpeiros passam”, ele afirma no vídeo.

Faria aparece em vários vídeos num dos maiores garimpos no território yanomami, conhecido como garimpo do capixaba. O local foi alvo de sucessivas operações nas últimas décadas – a última delas, em março de 2021, quando o Exército destruiu uma pista de pouso usada por garimpeiros.

Mas as operações não foram capazes de paralisar os trabalhos. Os vídeos mostram que, assim que as forças de segurança deixam os acampamentos, os garimpeiros saem dos esconderijos nas matas para retomar as atividades.

Ao se esconder, costumam levar consigo o ouro extraído e motores que usam para garimpar. Os equipamentos que ficam para trás costumam ser queimados pelos agentes.

Um vídeo de outubro de 2021 mostra uma distribuição gratuita de cerveja a garimpeiros logo após forças de segurança deixarem um acampamento, quando parte do local ainda estava em chamas.

“Pode pegar que tá liberado”, diz um homem, ele próprio com duas latas na mão. “Aqui é por conta da (Polícia) Federal”, ironiza.

Helicóptero sobrevoando acampamento em vídeo no YouTube
Legenda da foto,Apesar de operações pontuais contra o garimpo no território yanomami, atividade está em alta

Outras gravações mostram acampamentos de garimpeiros em outras áreas do território yanomami, como nos rios Catrimani e Uraricoera.

Procurado por meio de seu canal no YouTube, Faria não respondeu as perguntas da BBC.

Na última tentativa de contato, na última quarta-feira (11/05), a BBC postou no canal uma mensagem questionando se Faria estava ciente das penas para o garimpo ilegal em terras indígenas.

No dia seguinte, porém, a mensagem tinha sido deletada.

Problema histórico

Com área equivalente à de Portugal, a Terra Indígena Yanomami abriga cerca de 27 mil membros dos povos yanomami e ye’kwana, que vivem em 331 aldeias.

O território ocupa porções do Amazonas e de Roraima e se estende por boa parte da fronteira do Brasil com a Venezuela. A região é alvo de garimpeiros desde ao menos a década de 1980.

A atividade viveu um declínio com a demarcação da terra indígena, em 1992, mas voltou a crescer nos últimos anos.

Mais em BBC News

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.