Venezuela decide vender até 10% de ações de empresas públicas na bolsa em busca de investimento

Refineria de petróleo em Puerto La Cruz, na Venezuela – Yuri Cortez / AFP

Em aceno ao capital privado, economistas enxergam a decisão como parte de um processo de maior liberalização da economia.

Aliado aos esforços para levar adiante uma recuperação econômica que já encerrou um ciclo de quatro anos de hiperinflação, estabilizou a taxa de câmbio e colocou fim à recessão, o governo venezuelano vem implementando medidas que, para muitos especialistas, podem ser classificadas como um processo de maior liberalização da economia. 

Depois de isentar quase 3 mil produtos manufaturados de impostos para importação, acabar com o controle cambial, reconhecer a dolarização forçada e aprovar a chamada Lei Antibloqueio que permite, entre outras coisas, privatizar empresas nacionais, o governo do presidente Nicolás Maduro anunciou na última semana a venda de até 10% de ações de empresas públicas nas bolsas de valores do país.

“Vamos colocar nas bolsas de valores entre 5% e 10% das ações de empresas públicas. Precisamos de capital para o desenvolvimento de todas as empresas públicas, precisamos de tecnologia, de novos mercados e vamos avançar”, disse o presidente venezuelano em rede nacional no dia 11 de maio.

Segundo Maduro, as empresas que passarão por essa ampliação do pacote acionário são a Cantv e sua subsidiária Móvilnet, ambas do setor de telecomunicações; a Petroquímica da Venezuela (Pequiven), e todas as empresas mistas de petróleo e gás; e as empresas básicas de Guayana, que atuam na produção de aço, ferro e alumínio.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o professor de Economia da Universidade Central da Venezuela (UCV), Carlos Mendoza Pottellá, explicou que a decisão anunciada pelo mandatário é um sinal evidente do giro que o governo está fazendo em sua estratégia econômica, caminhando para uma mais ampla liberalização e abertura da economia.

“É uma mudança de atitude que tem um significado qualitativo. Pode ser uma atitude positiva conceder uma nova participação ao capital privado para alcançarmos uma prestação de serviços mais eficiente, mas isso tem um significado sobretudo político. É o abandono de uma posição total e absolutamente negativa do capital privado”, afirmou.

Embora a conjuntura econômica atual seja particular, com o bloqueio dos EUA e ameaças golpistas, a venda de parcelas significativas de ações de empresas públicas a investidores privados contrasta com a estratégia de nacionalizações e expropriações iniciada pelo ex-presidente Hugo Chávez durante os anos de bonança petroleira, e muito antes das primeiras sanções contra o país. A estatal Cantv, por exemplo, que agora está na lista das empresas que terão suas ações vendidas na bolsa, foi nacionalizada por Chávez em 2007. 

As empresas mistas de petróleo, por sua vez, controladas pela Corporação Venezuelana de Petróleo (CVP), filial da PDVSA, representam um total de 44 plantas de produção de petróleo cru, incluindo as que estão localizadas na Faixa Petrolífera do Orinoco, onde está a maior reserva de petróleo do mundo, além de outros minerais como diamante e ouro.

Em 2007, Chávez nacionalizou a Faixa, que possui uma extensão de mais de 55 mil km² e se estende por três estados do país, garantindo que o país controlaria no mínimo 60% de todas as ações. Diversas empresas privadas e estatais estrangeiras, como a estadunidense Chevron e a russa Rosneft, operavam e operam na região. No caso das norte-americanas, as sanções petroleiras impostas por Donald Trump em 2019 interromperam suas atividades em solo venezuelano. 

Para Pottellá, a decisão sobre ampliar o pacote acionário do setor petroleiro deve ser discutida com maior cautela, pois a presença de empresas estadunidenses nas plantas mistas levanta o risco de que o Estado perca o controle de algumas produções.

“Existe um caminho que pode ser lento, que pode derrubar a lei de 2007, que estabeleceu a participação em 60% e 40%, e retornar aos níveis estabelecidos na lei de 2001, que estabelecia a participação em 51% e 49%. A partir disso, fica muito fácil seguir diminuindo e começar a ceder posições de controle. Isso é o que alguns setores, dentro dos quais eu me encontro, estamos vendo com preocupação”, disse.

O professor ainda afirma que a mudança de estratégia econômica por parte do governo com relação ao investimento privado encontra oposição de diversos setores dentro do chavismo. “Há um giro que vem sendo denunciado por antigos chavistas, um grupo integrado por ex-ministros, um deles inclusive foi vice-presidente de Chávez, e muitos ex-ministros da Economia estão contra esse giro”, afirmou. 

Pdvsa perdeu 99% das suas receitas e diminuiu em 60% sua produção com o bloqueio dos EUA / Reprodução / Youtube

Em seu primeiro pronunciamento feito no dia 11, Maduro havia prometido que as ações das empresas selecionadas começariam a ser negociadas na bolsa na última segunda-feira (16/05). Entretanto, a Bolsa de Valores de Caracas afirmou que não recebeu nenhum contato por parte das empresas. Na última terça-feira (17/05), o presidente venezuelano confirmou que as operações ainda não haviam sido iniciadas, mas garantiu que “centenas de investidores estão prontos para investir nas ações”. Até o fechamento da reportagem, nenhum órgão competente havia confirmado o início das operações.

Setor privado reage de forma positiva

O anúncio de Maduro foi celebrado pela Bolsa de Valores de Caracas. Em comunicado oficial, a entidade considerou a decisão “muito positiva” e afirmou que “o fortalecimento do mercado de ações tem sido um pedido de longa data”.

“Somente através de administrações eficientes baseadas em diretrizes que gerem sustentabilidade e gestão é que se poderá despertar o interesse dos investidores para realizar projetos a longo prazo”, afirmou a Bolsa.

Para Ramiro Molina, presidente da Câmara Nacional de Intermediários do Mercado de Ações (Canimev), a decisão do governo não só representa um avanço para investidores nacionais e estrangeiros, mas também pode ser o começo de um processo que permita uma participação cada vez maior do capital privado em empresas que hoje são públicas.

“Se isso for só um começo, ainda é muito modesto. A venda de 5% até 10% de participação não resolve o problema da necessidade de financiamento dessas empresas e deixa os investidores em uma situação minoritária. Isso não é ruim, já é um avanço, mas como o governo está há cerca de três anos em um processo de flexibilização, de abertura, isso pode ter um desenvolvimento maior do que o que foi anunciado”, afirmou em entrevista ao Brasil de Fato

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