Os 55 anos de casamento e amor com o jornalismo
Por Raimundo Borges
O Imparcial – No dia 1º de setembro de 1970 teve início a história de um casamento que já dura 55 anos. Este jornalista esbarrou na porta do imponente sobrado 46 da Rua Afonso Pena, no Centro Histórico de São Luís, disposto a mudar a trajetória de vida de um menino que nasceu e viveu até os 16 anos na labuta pesada da roça de toco, no povoado Jaguarana, a 43 km da sede de Caxias. Portava uma câmera fotográfica Yashica D, com a qual ganhava trocados em aniversários, casamentos ou fotografando pessoas na Praia do Olho d’Água, único balneário até então na capital.
No segundo andar do sobradão, cheguei ao gabinete do superintendente de O Imparcial, Adirson de Vasconcelos. Meio acanhado, pedi-lhe uma oportunidade de trabalho, pois queria continuar estudando o ginásio – meu objetivo maior.
Acabara de sair da condição de feirante no Mercado Central, cuja bancada de frutas foi à falência. A compra de um milheiro de bananas de casca verde, amadurecidas no carbureto, em 24 horas, passou do ponto, e o sonho de me tornar comerciante foi para o lixo junto com as bananas despencadas.

Depois de uma conversa rápida com o dr. Adirson, ele me entregou um filme Fuji 120 mm, de 12 poses, e recomendou: “Fotografe qualquer coisa que você achar que sirva de reportagem em jornal, e amanhã volte com o filme operado”. Lá me fui, cheio de esperança e entusiasmo, matutando sobre o que seria uma boa “foto de reportagem de jornal”.
No dia seguinte, lá estava eu com o filme. O fotógrafo Josias Nobre de Mesquita o revelou no laboratório do próprio jornal e copiou algumas fotos. Adirson as examinou e prontamente autorizou: “Traga a Carteira Profissional e será contratado”. As fotos, de fato, eram jornalísticas. Mostravam imagens da Zona do Baixo Meretrício (ZBM), em franca decadência, com poucas mulheres de semblante triste, decaídas pelo tempo, com o olhar distante, na porta das chamadas “casas de cômodo”: Ziloca, Boate Crás, Maracangalha e em sobrados do quadrilátero urbano das ruas da Palma e 28 de Julho – refúgios boêmios de amores vagabundos, instantâneos e fugazes.
Eram os tempos em que São Luís tinha um recanto nada familiar, de encontros tolerados, de sexo explorado sob as vistas grossas e até o controle das autoridades policiais. O cantor João do Vale, já famoso na MPB, tinha um quarto reservado na Boate Crás, onde reunia amigos e mulheres em suas farras quando vinha à cidade.
Em 55 anos, São Luís passou de 263 mil habitantes para mais de um milhão e mudou o perfil de cidadela tradicional. Virou uma metrópole expandida na direção do Anjo da Guarda, do São Francisco, das praias e na ligação com São José de Ribamar. No mesmo período, o jornal O Imparcial cuidou de se reinventar como empresa, na qualidade editorial, no formato, no design e no projeto gráfico, até chegar hoje ao sistema digital online, acoplado a uma rádio.
Está chegando aos 100 anos em 2026, como o único veículo impresso no Norte e Nordeste, com 99 anos de história, dos quais 40 com o jornalista Pedro Freire na direção geral, que recebeu de Arthur Almada Lima Filho, e 32 com este jornalista, Raimundo Borges, na Diretoria de Redação. Hoje, Freire está ausente da função e Célio Sérgio assumiu a Direção Executiva.
Em 1973, O Imparcial saiu do sistema de composição a chumbo por linotipo, impressão plana, e implantou o modelo offset; passou do fotolito à fotomecânica e fotocomposição.
Em 1996 adotou a primeira experiência em cores – tricomia –, até chegar à policromia e ao formato atual em papel couchê. Em 1970, o Brasil vivia o auge da ditadura militar e o famigerado AI-5, com censura prévia em jornais, revistas, TV e artes em geral.
Da conquista do Tri, na Copa do Mundo no México, em 1970, a Taça Jules Rimet foi usada também como troféu de propaganda do regime. O Maranhão sequer tinha sinal de micro-ondas da Embratel. Os torcedores, em massa, se deslocavam de trem para Teresina, a fim de assistir aos jogos ao vivo, com estreia da TV em cores. Eram recebidos com chacota: “Maranhenses, bem-vindos a Guadalajara!”, saudava uma faixa debochada na ponte do trem sobre o Rio Parnaíba, em Timon.
Em 55 anos, O Imparcial tirou mais de 20 mil edições, das quais 11,3 mil sob o comando deste jornalista. Trabalhei por 11 anos nos jornais O Globo (RJ); 2,5 anos no Correio Braziliense; 2,6 anos no Diário de São Paulo e Diário da Noite (SP). Em 1984, estreei a coluna Bastidores; por 11 anos coordenei o projeto Leitor do Futuro, incentivando alunos da rede municipal a ler jornal.
Fui homenageado pelo Governo do Estado (Mérito Timbira e Comendador); pelo Mérito Judiciário Eleitoral (TRE-MA); pelos 200 anos da Imprensa e com a Medalha Sousândrade (Ufma); Simão Estácio da Silveira e Cidadão Ludovicense (Câmara de São Luís); Comenda Gonçalves Dias (Caxias); Medalhas da Alema, da Academia Maranhense de Letras e Maria Firmina (falta receber). Sou membro da Academia Caxiense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Caxias, fundado pelo escritor e desembargador aposentado Arthur Almada.
Construí uma linda família com a jornalista Elda Borges, que conheci na redação do jornal como estagiária da Ufma, cujo programa do currículo do Curso de Jornalismo coordenei por quase 20 anos na Redação do Jornal. Também Conceição Barbosa é partícipe da família como mãe de meus primeiros quatro filhos.
Foram 55 anos de história no jornalismo, de lutas pessoais e de conquistas. E O Imparcial vem se reinventando, adaptando-se às tecnologias e fazendo escola para centenas de profissionais de Comunicação Social, sempre tratando a notícia não como sua propriedade, mas como um produto exclusivamente do leitor e da leitora. Em 1970 nem se sonhava com o computador na redação e a internet estava ainda muito mais distante. A câmera digital profissional só foi concebida em 1990, com a Dycam Model 1, enquanto, na redação, a primeira do gênero chegou em 2003, com uma Citzen 4 mp de resolução.
Hoje, o sonho e o amor pelo jornalismo persistem vibrantes e inovadores, nos quais o celular e suas ferramentas cumprem boa parte das atividades que, 55 anos atrás, pareciam impossíveis.
Meu caro Borges. Leio com muita alegria e sincera admiração sua coluna de hoje, OS 55 ANOS DE CASAMENTO E AMOR COM O LORNALISMO, em que descreve sua bela trajetória de jornalismo profissional de mais de meio século, desde aquele distante 1 de setembro de 1970, em que se apresentou ao Superintendente de então de O IMPARCIAL, em busca de uma oportunidade de trabalho, até hoje. Poucos profissionais de jornalismo ou de outra profissão podem relatar experiências tão fantásticas, quanto as que descreves. Parabéns e votos de mais muitos anos de de casamento e amor a essa NOIVA tão essencial a nossa Democracia. Grande abraço.
José Cursino – Economista
Parabéns amigo, vc faz parte da história do Maranhão e é grande construtor da democracia.
Conceicao Andrade, ex-prefeita de São Luís
Parabéns Sr BORGES pelos 55 anos de HISTÓRIAS bem contadas.👏🏼👏🏼
Germano, aposentado
Parabéns para você amigo por sua brilhante e persistente trajetória. Continuo seu leitor no Jornal O IMPARCIAL no papel.
Um grande abraço
Roberto Mauro
Acompanho a vida desse competente jornalista, leitor assíduo há mais de 35 anos, reconheço e parabenizo pelo brilhante trabalho que desenvolve no jornalismo maranhense.
Parabéns, Borges!!!
Jorge Rachid Mubarack Maluf – desembargador do TJMA
Como assumido previamente, na próxima semana faremos o lançamento oficial do vídeo com a música inédita “A outra parte de mim”. Este lançamento é um compromisso que assumimos com a memória do nosso parceiro e amigo Wellington Reis. Uma demonstração de respeito e admiração pelo seu precioso legado!
Joãozinho Ribeiro- poeta e escritor
Parabéns meu amigo! Você sempre foi nobre nas notícias, criterioso e muito bom jornalista. Parabéns! Sua lida é reconhecida devidamente nos rincões brasileiro, e perante todos leitores. Sou seu grande admirador. Passei toda minha vida lendo tudo produzido. Parabéns! 🤝🤝🤝
Antônio Guimarães
Que história, ímpar.
Prof Alex Oliveira, de Arquitetura da Uena
CAXIAS E MARANHÃO, RAIMUNDO BORGES E COMUNICAÇÃO
*
“Caxias é o berço de uma farta produção literária, artística e cultural.
Em cada esquina, uma rima;
em cada canto um conto;
em cada conto em encanto.
É uma cidade que transpira letras
e inspira poesia e literatura.”
(Raimundo Borges, 15/08/2025)
*
Neste 1º de setembro de 2025 marcam-se 55 anos de vida jornalística do caxiense Raimundo Borges, 30 deles à frente da Direção de Redação de “O Imparcial”, de São Luís, jornal que, daqui há exatos nove meses, parirá 100 anos de informação, opinião, reflexão e algum entretenimento e se confirmará como o mais antigo em circulação no Maranhão.
Fui diretor de sucursal de “O Imparcial”, com Pedro Freire no comando geral e o Borges em sua diária magia de transformar fatos e opiniões em palavras e imagens. Mais de meio século nessa lida talvez recomende que, cheio de dedos, nós jornalistas desviemo-nos de regra não escrita que nos impõe não sermos nós mesmos, na Imprensa, motivo de destaque, objeto de notícia, assunto de manchete — e, olhe lá, nem mesmo um rodapé…
Entretanto, não devemos esperar que uma invasão a uma redação, um sequestro de jornalista, ou — cruz credo! – uma violência contra nós ou um resumo em obituário possam ser as únicas razões e registros a que devamos ter direito, envolvendo nosso sacrossanto nome… Não. Louve-se (ou, se não, registre-se) a meritória longevidade profissional-pessoal dessa nossa luta quotidiana usando mente e mãos e também convertamos o mérito duradouro em palavras de respeito e reconhecimento. De minha parte, trago estes registros, colhidos do discurso de recepção a Raimundo Borges, que pronunciei na sua posse no Instituto Histórico e Geográfico de Caxias, em 12 de dezembro de 2019, e que integra nosso livro inédito “Educação e Comunicação”.
É coisa do destino o fato de, em Raimundo Borges, a maior parte de sua vida ímpar ser… imparcial? (E. S.)
EDMILSON SANCHES
edmilsonsanches@uol.com.br
PALESTRAS, CURSOS, CONSULTORIA
Administração (Pública e Empresarial) – Biografias – Comunicação – Desenvolvimento – História – Literatura – Motivação