13 de janeiro de 2026
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O que deve mudar com a saída de mais da metade dos ministros para disputar as eleições de 2026?

Brasil de Fato – Pelo menos 23 dos 38 ministros devem deixar o governo Lula até abril; especialistas analisam o cenário.

O primeiro escalão do governo federal passará por uma grande transformação nos próximos meses. Pelo menos 23 dos 38 ministros atuais planejam deixar os cargos para participar das eleições de 2026. A legislação eleitoral obriga que ocupantes de cargos públicos interessados em concorrer se afastem das funções até o dia 6 de abril, , com exceção de mandatos parlamentares.

Além do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, que pediu demissão na última quinta-feira (8), mas que não deve, a princípio, se candidatar, essa movimentação deve afetar pastas importantes da Esplanada. Entre os possíveis nomes que deixarão a equipe estão Geraldo Alckmin, do Ministério do Desenvolvimento, e Fernando Haddad, da Fazenda. Haddad é incentivado a buscar uma vaga no Senado ou candidatar-se ao governo de São Paulo. 

Em coletiva de imprensa no Palácio do Planalto, em dezembro de 2025, Lula manifestou, diante do ministro da Fazenda, que gostaria que ele fosse candidato, embora o ministro resista em aceitar a sugestão, e tem afirmado que deseja apenas contribuir com a campanha pela reeleição do presidente. 

“É impossível você imaginar uma pessoa da envergadura do Haddad deixar o Ministério da Fazenda e voltar para casa. Acho que nem eu, nem a Ana Estela [esposa de Haddad] iríamos gostar”, brincou o presidente na ocasião. “Vou conversar com o Haddad e com o Alckmin, porque são duas pessoas que eu tenho profundo respeito, admiração. Eu vou querer saber se eles quiserem ser alguma coisa, o que eles querem ser. Eu acho que nós precisamos de um candidato a governador em São Paulo forte e precisamos de um candidato ao Senado forte. Nós temos chance de fazer governador e fazer senador em São Paulo”, apontou.

Outros ministros estão de olho em uma vaga no Senado Federal. É o caso de Rui Costa, da Casa Civil, que irá disputar pela Bahia; Alexandre Silveira, de Minas e Energia, por Minas Gerais; Carlos Fávaro, da Agricultura, pelo Mato Grosso, e Waldez Góes, da Integração, pelo Amapá. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, também avalia se disputará uma vaga no Senado por São Paulo. Segundo interlocutores da ministra, ela já descartou concorrer à reeleição do atual mandato de deputada federal. 

Na Câmara, atuais deputados e deputadas federais que devem retomar os mandatos e buscar a reeleição, como Gleisi Hoffman, da Secretaria de Relações Institucionais e Sonia Guajajara, dos Povos Indígenas. Outros, como a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, e da Cultura, Margareth Menezes, devem estrear nas urnas buscando um primeiro mandato na Câmara federal. Luiz Marinho, ministro do Trabalho, vai permanecer no cargo e apoiar a candidatura de Moisés Selerges a deputado federal.

A ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, deve buscar sua reeleição ao mandato de deputada estadual do PT em Minas Gerais, cargo do qual está licenciada. 

Existem também baixas previstas por motivos alheios à disputa de votos. Sidônio Palmeira sairá da Secretaria de Comunicação Social (Secom) para coordenar o marketing da campanha de reeleição de Lula. Jorge Messiastambém deve deixar o governo caso sua indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF) seja aprovada pelo Senado.

Apesar da saída de todos esses ministros, dez titulares já confirmaram que seguem nos cargos e não devem concorrer a nenhum cargo nas eleições, entre eles Alexandre Padilha, da Saúde; Mauro Vieira, das Relações Exteriores, e Guilherme Boulos, da Secretaria Geral da Presidência. 

Segundo fontes do Palácio do Planalto, as substituições serão feitas de maneira gradual até a data limite estipulada pela lei eleitoral para não prejudicar a continuidade dos trabalhos de cada uma das pastas.

Veja quem sai e quem fica no governo

Candidatos a governos ou vice-governos estaduais: 

  • Geraldo Alckmin (São Paulo)
  • Renan Filho, dos Transportes (Alagoas) 
  • Camilo Santana, da Educação (Ceará) 
  • Márcio França, do Empreendedorismo (São Paulo)

Candidatos ao Senado: 

  • Fernando Haddad, da Fazenda (São Paulo)
  • Simone Tebet, do Planejamento (São Paulo ou Mato Grosso do Sul)
  • Rui Costa, da Casa Civil (Bahia) 
  • Marina Silva, do Meio Ambiente (São Paulo)
  • Alexandre Silveira, de Minas e Energia (Minas Gerais) 
  • Carlos Fávaro, da Agricultura (Mato Grosso) 
  • Waldez Góes, da Integração (Amapá) 
  • André Fufuca, do Esporte (Maranhão) 
  • Silvio Costa Filho, de Portos e Aeroportos (Pernambuco) 

Candidatos à Câmara Federal: 

  • Anielle Franco, da Igualdade Racial (Rio de Janeiro)
  • Luiz Marinho, do Trabalho (São Paulo)
  • Sonia Guajajara, dos Povos Indígenas (São Paulo)
  • Paulo Teixeira, do Desenvolvimento Agrário (São Paulo)
  • Gleisi Hoffmann (Paraná) 
  • Jader Filho, das Cidades (Pará)
  • André de Paula, da Pesca (Pernambuco) 
  • Wolney Queiroz, da Previdência (Pernambuco) 
  • Margareth Menezes, da Cultura (Bahia)

Ministros que permanecem no governo

  • Alexandre Padilha (Saúde)
  • Mauro Vieira, (Relações Exteriores)
  • Guilherme Boulos (Secretaria Geral da Presidência)
  • Vinícius Carvalho (Controladoria Geral da União)
  • José Múcio (Defesa)
  • Esther Dweck (Gestão e Inovação)
  • Márcia Lopes (Mulheres)
  • General Amaro (Gabinete de Segurança Institucional)
  • Frederico de Siqueira Filho (Comunicações)
  • Gustavo Feliciano (Turismo)

Entre o perfil técnico e político

A cientista política Priscila Lapa considera com a saída de Haddad do Ministério da Fazenda, o governo deve indicar alguém com perfil técnico, buscando de alguma maneira agradar os agentes do mercado. No entanto, deve aproveitar as vagas abertas pelas saídas dos demais ministros para fazer sinalizações à classe política e à sociedade.

“A ocupação de ministérios sempre será um elemento de barganha. Ao ocupar apenas tecnicamente e com um perfil mais técnico, ele pode não contemplar as expectativas desses partidos aliados. Ele [Lula] pode sim, em alguns casos, como a Fazenda, fazer isso, mas eu acho que, na maior parte das vezes, ele ainda seguirá um pouco mais a linha de agradar aqueles que podem compor uma base visando a reeleição”, avalia. 

“Quanto mais partidos ele conseguir abrir a frente de diálogo para um processo pragmático, mais efetivo será o resultado. Eu acho que ele tentará, sim, apesar dos últimos embates, trazer partidos do Centrão mais fortemente como aliados nessa reta final pré-eleição”, complementa Lapa. 

A ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann
A ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann |Crédito: Antonio Cruz/ Agência Brasil

O cientista político Cláudio Couto concorda que “eventualmente o governo possa colocar nesses cargos algumas figuras de perfil mais político que ele pretenda projetar de alguma maneira ou até já fazer uma troca de guarda pensando em um segundo mandato, no caso do Lula, em um quarto mandato”, no entanto, considera que os perfis dos substitutos deve ser mais técnico.

“Normalmente, nessas substituições do período de desincompatibilização, quem assume são secretários executivos, que são pessoas que já estão no órgão, conhecem o funcionamento dele, já estão acostumados à dinâmica do órgão e, consequentemente, podem permitir que haja continuidade sem perturbar muito o andamento do governo nesse período eleitoral. Eu imagino que esse deve ser o perfil mais provável dos que venham a substituir”, avalia Couto. 

O cientista político argumenta que outra possibilidade é que a definição dos palanques eleitorais tenham peso na reforma ministerial. “Eu não descartaria de todo a formação da coligação eleitoral com a indicação de alguns ministros vinculados a partidos ou a grupos políticos regionais que possam vir a ser incluídos na coligação formal ou informalmente, e daí a indicação para os ministérios pode obedecer a esse tipo de cálculo político”, pontua. 

Claudio Couto afirma ainda que não deve haver mudanças significativas ou sensíveis, a não ser em relação à saída de Lewandowski do ministério da Justiça, que também obedecerá a um cálculo eleitoral, já que foi uma promessa de campanha do presidente Lula, em 2022, a criação do Ministério da Segurança Pública, separado da Justiça. 

“Com a saída do [Ricardo] Lewandowski do Ministério da Justiça e a provável criação de um Ministério de Segurança Pública, com alguns nomes de expressão para esses dois cargos. Até porque sabemos que esse é um assunto que vai ser muito tematizado pela oposição, sobretudo pela ultradireita”, considera Couto. 

Relação com o Congresso

Na relação com o Congresso, Priscila Lapa espera uma acentuação dos embates no Congresso, sobretudo porque, a partir da desincompatibilização, o parlamento deve contar com a presença de figuras políticas de peso, que devem retomar seus mandatos até o fim desta legislatura. É o caso das ministras Gleisi Hoffmann, Sonia Guajajara e Marina Silva, que são deputadas federais eleitas.

“É possível que os embates deles sejam muito acentuados, primeiro em razão do próprio plano eleitoral, onde as coisas estão postas de uma forma mais tensa e incisiva. O Congresso passou esses três anos em uma linha de não abrir mão de suas pautas ou de suas perspectivas e, até agora, nesta reta final do ano, tenta manter a sua inserção no processo orçamentário e na definição das políticas públicas como um todo. Dificilmente eles recuarão se até agora conseguiram manter essa linha, fazer suas conquistas e impor um certo ritmo da agenda parlamentar diante da agenda do Executivo”, avalia Priscila. 

“A tendência com a vinda desses perfis hoje mais ligados ao governo, que têm esse posicionamento mais ideológico, como a Gleisi [Hoffmann], a própria Marina Silva e a Sonia Guajajara para o parlamento, é que ocorra uma acentuação ou uma radicalização dos debates em alguns momentos”, agrega a especialista.

Já Couto não vê grandes mudanças em relação ao parlamento, pelo curto período e tempo que os ministros-parlamentares terão de mandato, além de estarem focados em suas campanhas eleitorais.

“Isso não vai mudar o parlamento, pois muda mais o governo do que o parlamento. Porque são poucas pessoas e, mesmo nesse último ano, elas voltando após a desincompatibilização, nem é de se imaginar que sejam pessoas que, por exemplo, possam chegar no Legislativo e assumir cargos importantes em comissões ou eventualmente alguma substituição na mesa, coisas desse tipo. Então, eu acho que, quanto à liderança do partido, até pode ser, mas nem nisso eu apostaria. Ou seja, a meu ver, as mudanças tendem a ser marginais nesse caso”, avalia.

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