Lula critica Trump no New York Times: “O Hemisfério pertence a todos nós”
DCM – O presidente Luiz Inácio Lula da Silvapublicou neste sábado (18) um artigo no The New York Times em que faz duras críticas à política externa dos Estados Unidos após a operação militar que resultou na captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. No texto, Lula reage diretamente à retórica adotada pelo governo Donald Trump, que afirmou, em publicação oficial, que “este é o nosso hemisfério”. Em contraponto, o presidente brasileiro intitulou seu artigo como “Este hemisfério pertence a todos nós”.

Lula classifica os bombardeios dos Estados Unidos em território da Venezuela, realizados em 3 de janeiro de 2026, como “mais um capítulo lamentável na contínua erosão do direito internacional e da ordem multilateral estabelecida após a Segunda Guerra Mundial”. Segundo ele, ações desse tipo aprofundam a fragilização das instituições globais e colocam em risco a paz e a segurança internacionais.
This is OUR Hemisphere, and President Trump will not allow our security to be threatened. pic.twitter.com/SXvI868d4Z
— Department of State (@StateDept) January 5, 2026
No artigo, o presidente afirma que “ano após ano, as grandes potências intensificam os ataques à autoridade das Nações Unidas e do seu Conselho de Segurança”, alertando que, quando o uso da força deixa de ser exceção e passa a ser regra, a estabilidade global fica ameaçada. Para Lula, a aplicação seletiva das normas internacionais gera um cenário de anomia que enfraquece tanto os Estados individualmente quanto o sistema internacional como um todo.
O presidente brasileiro sustenta que não há democracia possível sem regras coletivamente acordadas. “Sem normas comuns, é impossível construir sociedades livres, inclusivas e democráticas”, escreve. Ele acrescenta que chefes de Estado ou de governo podem, sim, ser responsabilizados por violações aos direitos fundamentais, mas ressalta que isso não autoriza ações unilaterais de outros países.
“Nenhum líder detém o monopólio do sofrimento de seu povo. Mas não é legítimo que outro Estado se arrogue o direito de fazer justiça”, afirma Lula no texto. Segundo ele, iniciativas desse tipo ameaçam a estabilidade mundial, interrompem fluxos de comércio e investimento, ampliam o número de refugiados e enfraquecem a capacidade dos países de enfrentar desafios transnacionais, como o crime organizado.
Lula destaca ainda que considera especialmente grave o fato de essas práticas estarem sendo aplicadas na América Latina e no Caribe. Ele lembra que, em mais de 200 anos de história independente, esta é a primeira vez que a América do Sul sofre um ataque militar direto dos Estados Unidos, embora reconheça que já houve outras intervenções norte-americanas na região.
No texto, o presidente defende que a América Latina busca a paz por meio da igualdade soberana entre as nações, da rejeição ao uso da força e da defesa da autodeterminação dos povos. Para ele, ações militares externas trazem violência e instabilidade a uma região que historicamente luta para consolidar soluções políticas próprias.
Ao tratar do cenário internacional, Lula afirma que, em um mundo multipolar, nenhum país deveria ter suas relações exteriores questionadas por buscar a universalidade. “Não nos submeteremos a esforços hegemônicos”, escreve. Segundo o presidente, a construção de uma região próspera, pacífica e pluralista é a única doutrina compatível com os interesses do Brasil e da América do Sul.
Lula também critica a divisão do mundo em zonas de influência e as incursões neocoloniais em busca de recursos estratégicos, que classifica como práticas ultrapassadas e prejudiciais. “A história demonstra que o uso da força jamais nos aproximará desses objetivos”, afirma, acrescentando que um mundo baseado no medo e na coerção não é sustentável, mesmo para as grandes potências.
Ao abordar especificamente a situação venezuelana, o presidente brasileiro defende que o futuro do país deve permanecer nas mãos de seu próprio povo. Segundo ele, apenas um processo político inclusivo, conduzido por venezuelanos, pode levar a um futuro democrático e sustentável para a Venezuela.
Lula encerra o artigo afirmando que seu governo mantém um diálogo construtivo com os Estados Unidos, ressaltando que Brasil e EUA são as duas democracias mais populosas do continente americano. Para ele, a cooperação em investimentos, comércio e combate ao crime organizado é o caminho mais eficaz para enfrentar os desafios comuns. “Somente juntos poderemos superar os desafios que afligem um hemisfério que pertence a todos nós”, conclui.
