14 de fevereiro de 2026
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Caso Master atropela Toffoli e estremece os Três Poderes

Por Raimundo Borges

O Imparcial – Já se passaram 42 anos desde que o cantor, compositor e escritor Chico Buarque escreveu, com Francis Hime, o clássico da MPB “Vai Passar”, que se transformou no hino da Nova República, no primeiro passo histórico da redemocratização do Brasil, sacramentada em 1988 com a Constituição Cidadã, uma das mais modernas do Ocidente. Aquele samba-enredo é uma mescla de críticas à ditadura militar de 1964, ao escravagismo e à opressão, com a esperança popular expressa no carnaval, simbolizando a passagem dos tempos sombrios para o raiar da liberdade. Hoje, o Brasil ainda atravessa o rubicão político, tentando se libertar de dramas sociais que mancharam sua história para sempre, como a corrupção.

O caso do Banco Master chegou ao Supremo Tribunal Federal como uma bomba de pavio ativado. Também esbarrou no Congresso Nacional, no Banco Regional de Brasília, no escândalo dos descontos ilegais do INSS e em vários estados e municípios. No Senado, o tornado provocou uma enxurrada de 25 pedidos de impeachment contra o ministro Dias Toffoli, que foi retirado da relatoria. As “tenebrosas transações” entre uma empresa da família de Toffoli e o magnata dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, afetam a imagem da Suprema Corte, que decidiu sortear o ministro André Mendonça, nomeado por Jair Bolsonaro como “terrivelmente evangélico”, como o novo relator da encrenca.

Mesmo depois de liquidado pelo Banco Central, o Master está no centro do maior escândalo financeiro da história do Brasil, contado em dezenas de bilhões de reais na área dominada pela elite dos “barões famintos”, cujos tentáculos se espalham pelos Três Poderes. Até a troca de relatoria no STF desperta preocupação no Congresso, dominado pelo Centrão, cujos parlamentares veem risco de uma atuação mais rigorosa no avanço das investigações que Toffoli tentou controlar desde a Polícia Federal, passando pela PGR e, finalmente, no Supremo. Em pleno Carnaval, o pesadelo do Master será a nova “página infeliz da nossa história”, com seus desdobramentos bem longe das passarelas do samba.

Afinal, o samba é, antes de tudo, um ritmo brasileiro de resistência, hoje cada vez menos alienado e mais compenetrado sobre o “sanatório geral”, na alegria, na luta e na certeza de que a opressão “vai passar”. Portanto, o Carnaval de 2026 é um dos mais politizados dos últimos tempos. Até o PT tentou barrar alegoria de escola de samba de SP com homenagem ao vice-presidente Geraldo Alckmin e ao ex-governador José Serra. Enquanto isso, no Rio, a escola Acadêmicos de Niterói abriu uma polêmica com o enredo contando a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva. O assunto foi parar no TSE, onde os juízes não viram motivo para barrar o desfile, desde que o samba não extrapole para propaganda eleitoral.

Seja como for, o escândalo do caso Vorcaro–Banco Master vai ultrapassar o Carnaval, porém sem afetar a festa mais popular do planeta, que, contudo, arrastará para a quaresma e para a campanha eleitoral uma ressaca sem fim. Cabe, no entanto, o verso: “Num tempo / Página infeliz da nossa história / Passagem desbotada na memória / Das nossas novas gerações / Dormia / A nossa pátria mãe tão distraída / Sem perceber que era subtraída / Em tenebrosas transações”. A mesma Nova República que José Sarney herdou e pôs para andar permanece democraticamente vibrante, mas com seus desencantos do passado ainda assombrando os que lutaram para que ela fosse uma verdadeira mãe feliz.

Depois de arranhar a credibilidade da Suprema Corte, o Banco Master vai chegar ao Senado, onde seus representantes encontram “gancho” político para alongar a pauta de um debate necessário, que envolve personagens da esquerda, do centro, da direita e do mundo financeiro, dentro e fora da campanha eleitoral mais enigmática deste século XXI. As pressões no Congresso são enormes para colocar as investigações na ordem do dia, mesmo com o presidente Davi Alcolumbre (UB-AP) sendo “padrinho” de Jocildo Silva Lemos, presidente da Amapá Previdência (Amprev), investigado pela Polícia Federal por suspeita de participação em fraudes envolvendo aportes de R$ 400 milhões no Banco Master.

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