EUA e Israel atacam Irã e país revida: o que aconteceu até agora
BBC – Estados Unidos e Israel lançaram um ataque coordenado contra o Irã na manhã deste sábado (28/02). O presidente americano, Donald Trump, confirmou que “grandes operações de combate” estão em andamento.
Segundo a agência de notícias iraniana Fars, explosões foram ouvidas em cinco cidades: Isfahan, Qom, Karaj, Kermanshah e na capital Teerã. O gabinete do líder supremo do Irã e o gabinete presidencial em Teerã também teriam sido atacados.

O Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã prometeu uma “resposta esmagadora”, afirmando que os ataques ocorreram “mais uma vez durante negociações” com Washington.
As Forças de Defesa de Israel (IDF) afirmaram que o Irã lançou ataques retaliatórios contra o território israelense.
Instalações da Marinha americana no Bahrein também foram alvo de mísseis, segundo o governo local, e explosões foram registradas em Doha, no Catar.
A operação contra o território iraniano acontece após semanas de negociações entre Washington e Teerã na tentativa de fechar um acordo sobre o programa nuclear iraniano.
Na manhã deste sábado, Trump publicou um vídeo confirmando os ataques e afirmando que a ação seria uma forma de prevenção. O Irã “tentou reconstruir seu programa nuclear e continua desenvolvendo mísseis de longo alcance que agora podem ameaçar nossos bons amigos e aliados na Europa, nossas tropas estacionadas no exterior, e que em breve poderiam atingir o território americano”.
Os EUA vão reduzir a indústria de mísseis do Irã a pó e “aniquilar” sua Marinha, disse Trump. O presidente instou os iranianos a usarem o momento para derrubar o regime clerical do país. “Quando terminarmos, tomem o poder. Será de vocês. Esta será provavelmente a única chance que terão por gerações”, declarou.
O mandatário também disse aos membros das forças de segurança iranianas que receberiam “imunidade” se depusessem as armas, ou então “enfrentariam morte certa”.

CRÉDITO, REUTERS
Pouco antes de Trump confirmar os ataques, o ministro da Defesa israelense, Israel Katz, havia descrito a operação como um “ataque preventivo”.
Em um comunicado, o presidente israelense, Benjamin Netanyahu, disse ainda que “um regime terrorista assassino” não deve possuir armas nucleares “que lhe permitam ameaçar toda a humanidade”.
“Agradeço ao nosso grande amigo, o presidente Donald Trump, por sua liderança histórica”, afirmou.
O Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos também se pronunciou. Disse que o país foi alvo de um “ataque envolvendo mísseis balísticos iranianos” e que os destroços, que caíram em uma área residencial em Abu Dhabi, mataram um civil de nacionalidade asiática, cujo nome não foi divulgado.
A Força Aérea dos Estados Unidos opera a partir de uma base em Al Dhafra, ao sul de Abu Dhabi, juntamente com a Força Aérea dos Emirados Árabes Unidos.

‘Resposta esmagadora’
O Ministério das Relações Exteriores do Irã afirmou em comunicado que, embora o Irã estivesse ciente das “intenções” dos EUA e de Israel de realizar ataques, participou das negociações com Washington.
A pasta ressaltou que os ataques ocorreram “enquanto o Irã e os Estados Unidos estavam em meio a um processo diplomático”.
A terceira rodada de negociações indiretas entre o Irã e os EUA foi realizada há dois dias, em 26 de fevereiro, em Genebra, sem grandes avanços.
O Irã e os EUA também realizaram cinco rodadas que não obtiveram resultado em maio de 2025. Uma sexta rodada, que era prevista para junho passado, acabou cancelada após Israel lançar ataques surpresa contra alvos iranianos, desencadeando um conflito de 12 dias no qual os EUA atingiram três importantes instalações nucleares do Irã.
Em nota, o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã afirmou que o “inimigo” presumiu erroneamente que o povo iraniano “cederia às suas exigências mesquinhas por meio de ações tão covardes”.
Também confirmou que as forças armadas iranianas já iniciaram medidas retaliatórias e prometeu “manter o povo informado continuamente”.
O governo iraniano disse ainda que as operações dos EUA e de Israel poderiam continuar em Teerã e outras cidades, instando os cidadãos a “mantendo a calma” e se deslocarem para áreas mais seguras, sempre que possível, para evitar o perigo.
Também tranquilizou o público, afirmando que o governo “preparou todas as necessidades da sociedade com antecedência” e que “não há preocupação com o fornecimento de bens essenciais”, aconselhando as pessoas a evitarem centros comerciais.
Escolas e universidades permanecerão fechadas, os bancos continuarão prestando serviços e os órgãos governamentais vão operar com 50% da capacidade, informou o Conselho.

O Irã está agora sob um bloqueio de internet quase total, de acordo com a NetBlocks, uma agência de monitoramento da internet.
Esta não é a primeira vez em que a internet do país é interrompida. No mês passado, os serviços de telecomunicação foram cortados durante protestos em todo o país, que foram brutalmente reprimidos pelo governo.
Voos cancelados
Todas as principais companhias aéreas desviaram ou cancelaram voos para a região, alegando questões de segurança e pedindo desculpas aos clientes.
A Virgin Atlantic informou que cancelou o voo VS400 do aeroporto de Heathrow, o principal de Londres, para Dubai. Alertou ainda que os voos para as Maldivas, Índia e Arábia Saudita poderão ser mais longos devido à necessidade de redirecionamento.
A British Airways cancelou voos para Tel Aviv e Bahrein até a próxima quarta-feira (4/3), e o voo deste sábado para Amã também foi cancelado.
Com 200 passageiros, o voo BA123 de Heathrow para Doha, que decolou às 20h de sexta-feira (27/2), também recebeu ordem de retornar após um terço do percurso.
A companhia Wizz Air confirmou a suspensão de todos os voos de e para Israel, Dubai, Abu Dhabi e Amã com efeito imediato até o próximo sábado (7/2). Os voos de e para a Arábia Saudita foram cancelados até terça-feira (3/3).
A Emirates suspendeu temporariamente suas operações. Lufthansa, Air India e Turkish Airlines são outras companhias aéreas que anunciaram cancelamentos para a região.
Como se encontra o programa nuclear do Irã?
A situação do programa nuclear iraniano não é clara após o país ter visto suas instalações nucleares chaves serem atacadas durante a guerra de 12 dias entre Israel e Irã em junho do ano passado.
Os EUA entraram brevemente no conflito, atacando três instalações — o maior complexo de pesquisa nuclear do Irã, em Isfahan, além de centros em Natanz e Fordo usados para enriquecer urânio para uso como combustível nuclear.
Trump disse que as instalações haviam sido “destruídas”. Uma semana depois, o chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, Rafael Grossi, disse que os ataques causaram danos graves, embora “não totais”, sugerindo que alguma forma de enriquecimento poderia ser retomada dentro de alguns meses.
A agência estima que, quando Israel lançou ataques aéreos em 13 de junho, o Irã tinha um estoque de 440 quilos de urânio enriquecido a até 60% de pureza — um pequeno passo técnico para atingir os 90% necessários para armas nucleares.
Grossi disse em outubro à agência de notícias Associated Press que essa quantidade — se enriquecida ainda mais — seria suficiente para produzir dez bombas nucleares.
Em novembro, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou à revista The Economist que o enriquecimento de urânio tinha sido paralisado.
No mês passado, ele causou controvérsia em outra entrevista, esta ao canal de notícias Fox News. “Sim, vocês destruíram as instalações, as máquinas, mas a tecnologia não pode ser bombardeada, e a determinação também não pode ser bombardeada.”
Grossi disse à Reuters em janeiro que conseguiu inspecionar 13 instalações nucleares no Irã que não foram bombardeadas, mas não as três principais que haviam sido. Ele afirmou que já tinham se passado sete meses desde a última verificação do estoque de urânio enriquecido do Irã.
Persistem incertezas sobre questões-chave, particularmente a localização e o estado do estoque, além da condição das instalações de enriquecimento.
Iranianos divergem sobre o ataque
No Irã, a reação aos ataques foi diversa, com cenas de pânico em algumas áreas e alívio em outras diante da perspectiva da queda do regime, segundo relatos da BBC Persian.
Por volta das 9h40, iranianos em várias cidades relataram ter ouvido fortes explosões. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram pessoas correndo em pânico perto dos locais das explosões, com gritos e choro ao fundo.
Mas, ao mesmo tempo, parece haver uma sensação de alívio, até mesmo de celebração, entre aqueles que acreditam que a queda do regime só pode ocorrer por meio de intervenção militar. Muitos já previam um possível ataque dos Estados Unidos.
“Se eu morrer, não se esqueçam de que nós também existimos. Aqueles de nós que se opõem a qualquer ataque militar, aqueles de nós que se tornarão apenas um número nos relatórios de mortos”, escreveu um iraniano nas redes sociais.
Outro escreveu: “Maldita seja a ditadura islâmica que causou esta guerra. Já sofremos três guerras.”
Muitos iranianos que vivenciaram o que foi descrito como uma das repressões mais sangrentas contra civis na história moderna dizem agora acolher favoravelmente a mudança de regime, mesmo que ocorra por meio de intervenção militar e assassinato de seus líderes.
Outros, contudo, temem que os ataques aéreos por si só não sejam suficientes para derrubar o regime. Receiam que ele possa sobreviver e, em resposta, tornar-se ainda mais brutal contra o seu próprio povo.
