Histórias que desonram a “Cidade Maravilhosa”
Por Raimundo Borges
O Imparcial – Não foi de nenhuma escola de samba, nem de um sociólogo brasileiro ou do maestro Tom Jobim, que tanto cantou o Rio de Janeiro, a primazia de batizá-la como “Cidade Maravilhosa”. A proeza do gesto magnânimo para a antiga capital do Brasil foi da poeta francesa Jane Catulle Mendès, que, em 1913, lançou o livro La Ville Merveilleuse, com poemas sobre sua passagem pelo Rio, que seria de duas semanas e durou três meses. Esse é apenas o lado belo da história de uma cidade que tanto encanta turistas do mundo todo e desencanta historiadores que mergulham nos dramas sociais, econômicos e políticos das favelas cariocas e delas recolhem farto material literário, poético, cinematográfico e cultural em todas as versões.
Esta semana, o governador Claudio Castro foi o 7º ocupante do Palácio Guanabara a ter que deixar o cargo, numa sequência desastrosa de afastamentos, cassações e prisões. Alvo de investigações por abuso de poder econômico e corrupção eleitoral, ele renunciou um dia antes de se tornar inelegível até 2030 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Como o vice também perdeu o cargo e o presidente da Alerj está preso, o governo ficou com o presidente do TJ. Nos últimos oito anos, cinco deles foram presos: Moreira Franco, Sérgio Cabral, Luiz Fernando Pezão, Rosinha Garotinho e Anthony Garotinho. Um caso único no país, que desonra o título ostentado pela capital fluminense.
Castro é suspeito de envolvimento em um esquema de mandatos anteriores, quando era vereador e vice-governador do Rio. Sempre negou os crimes, e a defesa dele garante que as suspeitas são infundadas e vai pedir a nulidade do relatório da PF. A história recente registra que somente Benedita da Silva e Nilo Batista nunca foram presos no cargo de governador, ocupado quando os eleitos caíram – Anthony Garotinho e Leonel Brizola, respectivamente. Já Wilson Witzel foi afastado em 2020 por suspeitas de desvios na área da saúde, na Operação Tris in Idem (“Três do mesmo”, em latim). Em abril de 2021, ele sofreu impeachment, e o vice, Claudio Castro, assumiu e, em 2022, foi reeleito.
Em 2018, Luiz Fernando Pezão foi preso poucos dias antes do fim do mandato. Recebeu voz de prisão dos agentes da força-tarefa da Lava Jato no Palácio Laranjeiras, residência oficial do chefe de Estado. Respondia a crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. O ex-governador ficou preso até dezembro de 2019, após uma decisão do STJ libertá-lo. A defesa do ex-governador negou todas as acusações contra ele. Já Sérgio Cabral foi preso em novembro de 2016, suspeito de receber propina para a concessão de obras públicas. As penas somadas de 23 processos chegaram a 425 anos. Após cumprir seis anos de cadeia, foi solto em fevereiro do ano passado.
Rosinha Garotinho foi presa com o marido em 2017 por crimes eleitorais. Eles negam a prática do crime. O marido dela, e também ex-governador, Anthony Garotinho, chegou a ser preso três vezes em um ano, entre novembro de 2016 e novembro de 2017. Moreira Franco, governador entre 1987 e 1991, foi preso em março de 2019 em uma operação da Lava Jato, pelo juiz Marcelo Bretas, juntamente com o ex-presidente Michel Temer e outros. Em 2022, o juiz Marcus Vinícius Reis Bastos, da 12ª Vara Federal do Distrito Federal, rejeitou a denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF) pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. Temer hoje é citado como conciliador de conflitos e consultor político.
Em outubro de 2025, nada menos que nove governadores de direita e centro-direita, em uma articulação de Ronaldo Caiado (GO), Romeu Zema (MG) e Tarcísio de Freitas (SP), foram em comitiva apoiar o colega Cláudio Castro (PL-RJ) após a “Operação Contenção”, nos Complexos da Penha e do Alemão, em que morreram 121 pessoas, dentre elas policiais. Apesar da ampla repercussão internacional, até hoje as investigações prosseguem no âmbito do STF. As perícias e apurações revelaram que nenhum dos 115 suspeitos inicialmente identificados constava na lista de alvos com prisão preventiva decretada. Além disso, até furtos de fuzis e outros itens foram flagrados pela Corregedoria da Polícia do Rio – que continua lindo.


