Tensão máxima na semana das desincompatibilizações
Por Raimundo Borges
O Imparcial – A disputa pelo governo maranhense por três atores políticos, até o momento, entrou numa rota de colisão difícil de imaginar o tamanho das perdas e danos antes e depois das eleições de 4 de outubro. Quando se examinam os cenários de quatro anos atrás, os acordos, discursos, alianças e abraços nem de longe se comparam àqueles em que os personagens se digladiam hoje, a uma semana da saída dos cargos públicos e da troca de partido. O prefeito Eduardo Braide monitora tudo à distância, sem quebrar o segredo de ser ou não candidato. Perto dele, as relações entre o governador Carlos Brandão e o seu vice, Felipe Camarão (PT), deixaram de ser o sintoma de uma crise passageira para escalar rumo à guerra declarada.
Esta semana foi marcada pela criação de uma CPI na Assembleia Legislativa, subscrita por 23 deputados da base governista, para investigar denúncias de supostas irregularidades contra Felipe Camarão, quando era secretário de Educação no governo Flávio Dino. A CPI é baseada em parecer do Ministério Público Estadual, cujo chefe, Danilo José de Castro, pediu o imediato afastamento de Camarão, por meio de liminar. Ele aponta supostas ligações do vice com um esquema de lavagem de dinheiro, movimentação atípica de valores milionários e crimes contra a administração pública.
Em um vídeo nas redes sociais, Camarão faz duras críticas ao governador Carlos Brandão, a quem chama de “coronel” por tentar eleger o sobrinho Orleans Brandão como sucessor. O vice se diz vítima de “tentativa de golpe nunca visto na história do Maranhão” para retirá-lo da disputa pelo governo. O presidente nacional do PT, Edinho Silva, divulgou nota de solidariedade a Camarão em razão da CPI, mas não fala em sua eventual candidatura aos Leões. Ele também reclama de nunca ter tido acesso ao parecer do MP, vazado para blogueiros de São Luís, com ampla repercussão na imprensa nacional. Promete processar os envolvidos no caso, que diz estar afetando até a segurança de sua família — pais e filhas.
A CPI pode ser instalada na próxima semana, com a indicação dos integrantes pelos partidos e blocos que decidem no plenário da Alema. O pedido é do deputado médico Yglésio Moises (PRTB), que, por ironia, já foi filiado ao PT, por onde disputou mandato na Câmara de São Luís e na Alema. Logo, conclui-se que a próxima semana será tão explosiva quanto a que está terminando. Pode ser que o ministro do STF, Alexandre de Moraes, julgue a ação que pede o afastamento do governador Carlos Brandão, proposta em 2024 pelo partido Solidariedade, então sob a presidência da senadora Ana Paula, esposa do deputado Othelino Neto, líder do bloco de oposição ao governo Brandão na Alema.
Brandão é acusado de descumprir ordem do STF sobre a prática de nepotismo no governo, com a nomeação de parentes, os quais, porém, foram exonerados. Esta semana, a Procuradoria-Geral do Estado (PGE) fez a defesa de Brandão perante Moraes. Argumenta que “não há respaldo jurídico para o afastamento de Brandão” e afirma que ele cumpriu as medidas cautelares impostas por Alexandre de Moraes. Nega as irregularidades apontadas e diz que a ordem de suspensão de nomeações consideradas nepotismo cruzado foi observada. Portanto, a tensão é inegável nos dois lados do grupo que chegou ao poder em 2014, sob a liderança de Flávio Dino, com o então tucano Carlos Brandão como vice-governador.
A crise escalou para dentro dos partidos e da estrutura do governo estadual. Brandão realizou, na quinta-feira, a última reunião do Conselho de Gestão com os 12 secretários pré-candidatos que vão se desincompatibilizar até o dia 3, inclusive Orleans Brandão. Coincide com a “janela partidária”, que agita uma leva de políticos, com e sem mandato, no troca-troca de legendas. É um autêntico salve-se quem puder no jogo de quem pode mais e quem pode menos na briga pelos futuros mandatos. O deputado Duarte Júnior saiu do PSB, entrou na União Brasil e foi vetado pela deputada Amanda Gentil. Roberto Rocha entrou no PSDB e, no dia seguinte, já estava fora. Perdeu para o deputado Juscelino Rezende, que colocou a irmã, Luanna Rezende, no PT.

