31 de março de 2026
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PSD deve apoiar Lula em pelo menos 14 estados, mesmo com Caiado e linha auxiliar a Flávio Bolsonaro

Revista Fórum – Partido comandado por Kassab, que se tornou um gigante na política nacional, até tem candidato e discurso teoricamente conservador, mas o “bruto” da legenda está com o petista.

O PSD (Partido Social Democrático) chega a 2026 como o “fiel da balança” da eleição nacional. Sob o comando rígido de Gilberto Kassab, a legenda não apenas inchou em número de prefeitos (superando os mil nas últimas eleições), mas tornou-se um organismo complexo que desafia as leis da física política. Nesta semana, o partido oficializou o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, como seu pré-candidato à Presidência da República. No papel, o PSD tem um nome próprio, um discurso de ordem e uma inclinação ao agronegócio. Na prática, porém, o coração pulsante da máquina partidária, aquela que entrega votos e tempo de TV, está, em sua grande maioria, batendo no ritmo do Palácio do Planalto.

A estratégia de Kassab é clara: o PSD é “grande demais para caber em um único lado”. Enquanto Caiado serve como uma vitrine da velha direitona e uma contenção ao bolsonarismo extremista de Flávio Bolsonaro (PL), o “bruto” da legenda, especialmente no Norte e Nordeste, já selou o destino com Lula. Não se trata de uma traição, mas de uma simbiose institucional: o PSD nacional ocupa ministérios estratégicos (Agricultura, Minas e Energia, Pesca), e as lideranças estaduais sabem que a sobrevivência de seus projetos locais depende da tinta da caneta presidencial.

Abaixo, detalhamos o mapa dessa “geometria variável”, separando quem marchará com o petista, quem aposta no projeto de oposição e os casos onde o pragmatismo cria situações únicas.

1 – O balaio de gato tem nome: Minas Gerais

Com Alexandre Silveira no Ministério de Minas e Energia e a aliança com o senador Rodrigo Pacheco, ex-presidente do Senado, tudo caminhava para o PSD mineiro ser o principal braço de Lula no segundo maior colégio eleitoral do país. Mas as coisas mudaram de repente e estão muito confusas. Silveira segue sendo um pêndulo que inclina forte à esquerda, mas o atual governador de Minas, Mateus Simões, que entrou no lugar de Zema (Novo), filiou-se ao PSD e passou a ser a figura anti-Lula de poder na legenda estadual, ao passo que Pacheco, diante de tal manobra, deixou a sigla e anunciou sua filiação ao PSB, para continuar tendo como objetivo derrotar o grupo de Zema. Por enquanto, é difícil entender como a coisa vai ficar por lá.

2 – Uma equação dificílima e ultracomplexa: São Paulo

O bunker do pragmatismo e o divórcio de Tarcísio são dois exemplos de fatores ou acontecimentos que parecem incoerentes entre si no PSD paulista. O estado mais rico do país é onde o PSD opera sua estratégia mais sofisticada. Em 25 de março de 2026, Gilberto Kassab deixou o cargo de Secretário de Governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) para se dedicar exclusivamente à articulação nacional do partido. Embora o PT paulista tenha tentado atrair Kassab para a vice de Lula, numa tentativa de reeditar a “fórmula Alckmin”, a decisão foi pelo campo oposto. Em São Paulo, o PSD foi o alicerce do projeto de reeleição de Tarcísio, mas viu tudo ir por água abaixo com saída do vice-governador Felício Ramuth, que abandonou a legenda e filiou-se ao MDB. Pela lógica, fora da chapa de Tarcísio na reeleição em São Paulo, Kassab deveria marchar ao lado de Ronaldo Caiado (ou Flávio Bolsonaro, em um eventual segundo turno), utilizando sua gigantesca rede de prefeitos do interior paulista para barrar o avanço lulista no maior colégio eleitoral do Brasil. Mas a pergunta é: ele fará isso, podendo em algum momento fortalecer seus laços com o Planalto?

3 – O Exército de Lula: Onde o PSD deve ser base fiel

Nesses estados, o PSD não apenas apoia Lula, mas é o pilar que sustenta o governo federal contra o avanço da oposição. Aqui, a candidatura de Caiado é vista como uma formalidade de Brasília que não desce para o palanque local.

  • Bahia: O PSD de Otto Alencar é o “sócio majoritário” do PT baiano. A aliança é histórica e inquebrável para 2026.
  • Alagoas: Totalmente integrado ao grupo de Renan Filho (MDB) e Paulo Dantas, o PSD atua como barreira contra Arthur Lira (PP) e apoio irrestrito a Lula.
  • Mato Grosso: Através de Carlos Fávaro (Agricultura), o PSD é a “embaixada de Lula no Agro”, tentando converter o setor produtivo ao projeto de reeleição.
  • Sergipe: O partido governa com Fábio Mitidieri e mantém sintonia fina com a Esplanada dos Ministérios.
  • Piauí: Integrado à base do governador Rafael Fonteles (PT), o PSD piauiense é lulista por definição e até lançará um candidato ao Senado na chapa petista.
  • Ceará: O PSD de Domingos Filho caminha com a hegemonia petista de Camilo Santana e Elmano de Freitas.
  • Espírito Santo: Aliado de Renato Casagrande (PSB), o PSD de Paulo Hartung compõe a frente ampla de apoio ao Planalto.
  • Rio de Janeiro: Eduardo Paes é o maior símbolo do PSD lulista no Sudeste; a prefeitura do Rio é o quartel-general da campanha de Lula no estado.
  • Pernambuco: O partido integra a base de apoio federal e busca espaços na chapa majoritária de 2026 com o PT/PSB.
  • Paraná: Apesar de Ratinho Jr. ser um nome de centro-direita, o PSD paranaense mantém pontes administrativas vitais com o governo federal, e a saída de Ratinho da disputa presidencial arrefeceu o tom crítico.
  • Amazonas: Com senadores como Omar Aziz, o PSD é o escudo de Lula no Norte, defendendo a Zona Franca e a agenda ambiental do governo.
  • Maranhão: Através da senadora Eliziane Gama, o PSD mantém uma conexão umbilical com Lula, mesmo que localmente dispute espaço com o PT.
  • Mato Grosso do Sul: O PSD de Nelsinho Trad é o fiel da balança que garante governabilidade a Riedel (PSDB) e recursos federais de Lula.
  • Distrito Federal: Paulo Octávio e José Roberto Arruda buscam uma “Frente Ampla” que pode incluir o PT para derrotar o grupo de Celina Leão.

4 – O QG da Oposição: Com Caiado ou a “linha auxiliar

Aqui o cenário inverte. O PSD é oposição declarada, servindo como palanque para Ronaldo Caiado ou flertando com o bolsonarismo para garantir redutos conservadores.

  • Goiás: O epicentro da oposição. Sob Ronaldo Caiado e Vanderlan Cardoso, o PSD é a antítese do lulismo e o motor da candidatura presidencial da sigla.
  • Rondônia: Sob o governador Marcos Rocha, o PSD é um bunker conservador e fechado com Caiado contra o governo federal.
  • Santa Catarina: João Rodrigues lidera um PSD que rompeu com o Planalto e com o PL de Jorginho Mello, buscando ser a “direita de gestão” em SC.
  • Paraíba: Com Pedro Cunha Lima, o PSD é a voz das oposições contra o aliado de Lula, João Azevêdo, e apoia Caiado.
  • Acre: Sérgio Petecão consolidou o afastamento de Lula, apostando no voto conservador e na aliança com o agronegócio para sobreviver no Senado.
  • Roraima: Integrado ao grupo de Antonio Denarium, o PSD-RR ignora as ordens de Kassab e atua na ala conservadora.

5 – O Cenário sui generis: Estados em indefinição ou confusão

Estados onde o peso eleitoral é menor na balança nacional ou onde a briga local é tão específica que o apoio presidencial fica em segundo plano.

  • Amapá: Dr. Furlan lidera um PSD independente e fortíssimo, mas que não se vincula a Lula para não fortalecer o rival local, Davi Alcolumbre.
  • Rio Grande do Sul: Eduardo Leite mantém o PSD em independência crítica; o partido no estado rejeita o lulismo e foca em uma via própria gaúcha. No entanto, Leite deve rejeitar apoio tanto a Caiado quanto a Flávio Bolsonaro, pois nos últimos tempos tem repetido insistentemente que é “contra extremismos”. Isso deve deixá-lo numa posição de silêncio, cuidando de seus interesses no estado enquanto a disputa corre por lá.
  • Tocantins: Laurez Moreira (PSD) tenta ser o sucessor de Wanderlei Barbosa; o partido flutua entre a base federal e a necessidade de não parecer “esquerdista” no interior.
  • Pará: Embora o estado seja dominado pelos Barbalho (MDB), o PSD atua de forma pragmática, mas sem o protagonismo que tem em outras unidades da federação.
  • Rio Grande do Norte: O PSD local ainda se reorganiza após perdas de lideranças, mantendo uma postura de “esperar para ver” quem oferecerá as melhores condições de coligação.

O diagnóstico inequívoco sobre o “gigante”

O PSD de 2026 é um espelho do Brasil: fragmentado, pragmático e movido a resultados. Gilberto Kassab conseguiu a proeza de ter um candidato a presidente para chamar de seu (Caiado), enquanto mantém a maioria de seus generais nos estados alimentando a engrenagem que deve tentar reconduzir Lula ao poder. Para o eleitor, a sigla é um enigma; para o poder, é a peça indispensável.

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