Discrepâncias e coincidências na disputa do Governo do MA
Por Raimundo Borges
O Imparcial – Um dos pilares da democracia representativa brasileira é o ato de discrepar ou divergir, desde a escolha ou recusa de candidatos a serem eleitos pelo voto popular até a de quem detém qualquer grau de poder público ou privado. No momento em que partidos e grupos políticos se estruturam para concorrer às eleições de 4 de outubro, observa-se que, no Maranhão, há vários pontos de discrepâncias e coincidências entre os dois principais concorrentes ao Palácio dos Leões, símbolo máximo da cultura maranhense, sede do Poder Executivo e residência de governantes desde o longínquo ano de 1626 até os dias atuais.
As pesquisas eleitorais apontam Orleans Brandão (MDB) e Eduardo Braide (PSD) com algumas coincidências que vão além do parentesco consanguíneo, como primos de segundo grau com o mesmo bisavô de procedência libanesa. Eles são Eduardo Salim Braide e Orleans Braide Brandão. Outra casualidade: Orleans é apoiado pelo tio Carlos Brandão, governador que despacha no Palácio dos Leões até o fim do mandato; e Braide é apoiado pela prefeita Esmênia Miranda, com gabinete no Palácio La Ravardière, distante 80 metros do de Brandão. Apenas um muro separa os dois principais centros de poder do Maranhão.
As coincidências não ficam apenas na geografia urbana do poder estadual, mas também na questão ideológica, que, desde 2018, move a disputa do Palácio do Planalto e “contamina” os estados, até nas disputas para o Congresso Nacional. Orleans é do MDB e Braide, do PSD, dois partidos classificados de centro por estudiosos, com forte tendência ao pragmatismo, fisiologismo e à construção de alianças tanto à direita quanto à esquerda para manter poder e influência. Ambos são considerados partidos “pega-tudo” (catch-all), ou seja, abrigam diversas correntes ideológicas para maximizar votos e cargos.
Quando se olha a história recente de um Brasil dividido entre bolsonarismo de direita e lulismo de esquerda, a política do Maranhão sempre operou na base do fisiologismo. A máquina do governo é o trem que faz a alegria, gera emprego, renda e voto do grosso do eleitorado de baixa qualificação profissional, dependente de políticas públicas centradas na visão eleitoreira e no poder controlado por oligarquias municipais familiares até se esgotarem. Portanto, em 2026, a eleição, com cinco pré-candidatos até agora ao Palácio dos Leões, marcha rumo a uma disputa acirrada entre Braide e Orleans, ambos de centro, restando a Lahesio Bonfim o voto bolsonarista, que considera o ex-presidente uma espécie de enviado de Deus.
As discrepâncias estão na origem de cada candidatura e na forma de atuação de Braide e de Orleans. Pelas circunstâncias da própria eleição, o ex-secretário de Assuntos Municipalistas foi moldado para o desafio eleitoral, no contexto da ruptura do tio governador Carlos Brandão com o ex-companheiro de três eleições, Flávio Dino. Brandão optou por não apoiar o vice Felipe Camarão (PT) em razão de sua ligação com os dinistas que, por sua vez, também partiram para o confronto direto até no STF. Como não tem grupo, Eduardo Braide não precisou de pressão nem de apoio. Decidiu sozinho deixar a prefeitura na data que lhe conveio e indicou como vice a empresária Elaine Carneiro, sem consultar nem o PSD.
Dos onze pré-candidatos presidenciais até agora, a maioria é de centro-direita e de direita; porém, os dois principais estão nos extremos do campo ideológico: Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Porém, ao contrário do concorrente mais próximo, Lula trabalha a política com extremo pragmatismo, envolvendo o centro e o centro-direita tanto nas eleições quanto no governo. Já o filho de Bolsonaro não tem voto algum no flanco da esquerda, que ele tanto repugna quanto é por ela repelido. No Maranhão, dos cinco pré-candidatos, apenas Felipe Camarão pode levar a melhor na esquerda, pela filiação ao PT e a união com PSB, PCdoB e PV. Os demais vão dividir o grande latifúndio da histórica mistura ideológica maranhense.

