15 de janeiro de 2026
DestaquesEconomiaGeral

BC decreta liquidação extrajudicial da Reag por fraudes envolvendo o Banco Master

Revista Fórum – Com a decretação, os bens dos controladores e dos ex-administradores da instituição tornam-se indisponíveis.

Banco Central decretou nesta quinta-feira a liquidação extrajudicial da Reag, em meio a investigações que apuram suspeitas de irregularidades e possíveis fraudes financeiras envolvendo operações relacionadas ao Banco Master.

Segundo o BC, a decisão foi tomada após a constatação do comprometimento da situação econômico-financeira da instituição e de violações relevantes às normas que regem o funcionamento das entidades integrantes do Sistema Financeiro Nacional (SFN).

Em nota, a autoridade monetária afirmou que “a decretação da liquidação extrajudicial foi motivada por graves violações às normas que regem as atividades das instituições integrantes do SFN”.

A Reag atuava no segmento S5 da regulação prudencial, que reúne instituições de pequeno porte e com baixa relevância sistêmica. Em 2025, a corretora ocupou a 56ª posição no ranking de câmbio do Banco Central, com participação de 0,081% do volume financeiro total e 0,14% do número de operações de câmbio realizadas no país.

O Banco Central informou ainda que continuará adotando “todas as medidas cabíveis para apurar responsabilidades”, o que pode resultar na aplicação de sanções administrativas e no envio de informações a outras autoridades competentes, conforme previsto na legislação.

Com a decretação da liquidação extrajudicial, os bens dos controladores e dos ex-administradores da instituição tornam-se indisponíveis. A medida tem como objetivo preservar recursos para eventual ressarcimento de credores.

O esquema

Uma investigação do Ministério Público Federal (MPF) e da Polícia Federal (PF) aponta que o Banco Master teria concedido empréstimos a empresas que não quitavam as parcelas, criando receitas apenas no papel. Segundo os investigadores, os recursos dessas operações de crédito eram rapidamente transferidos para fundos administrados pela gestora de recursos Reag, que simulavam uma rentabilidade considerada irreal. Em seguida, o dinheiro retornava ao próprio banco na forma de aplicações financeiras.

Esse fluxo financeiro entrou na mira das autoridades e motivou a deflagração de uma operação da Polícia Federal para apurar suspeitas de gestão fraudulenta, manipulação de mercado e lavagem de capitais.

De acordo com documentos do inquérito, os contratos de empréstimo tinham prazos de carência prorrogados às vésperas do início previsto para o pagamento das parcelas. “Na prática, não houve efetivo pagamento de juros nem amortizações”, registra a investigação.

Para rastrear o caminho do dinheiro, a área de supervisão do Banco Central (BC) solicitou ao Banco Master, em julho de 2024, comprovação de que um dos fundos que recebeu recursos dos empréstimos possuía saldo suficiente para honrar eventuais pedidos de resgate. Os técnicos também pediram a apresentação de controles internos para monitorar a evolução dos projetos financiados e o acompanhamento dos valores liberados a cada cliente.

Em resposta, o Master afirmou ao BC que os esclarecimentos deveriam ser solicitados à Reag, administradora dos fundos. A posição chamou a atenção dos técnicos do órgão regulador, que apontaram “falta de adequado acompanhamento das operações estruturadas” por parte da instituição financeira.

Já a Reag informou ao Banco Central que os ativos dos fundos abastecidos com recursos do Master eram, em sua quase totalidade, papéis do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), considerados de baixo valor de mercado. A gestora também afirmou garantir liquidez mensal de até R$ 1 bilhão para resgates, por meio de outro fundo, o Gold Style.

O BC, no entanto, identificou que, além dos problemas relacionados aos ativos do Besc, não havia ativos líquidos suficientes na carteira do fundo Gold Style para suportar os resgates prometidos. Para o órgão regulador, as constatações indicam descumprimento de normas legais e falhas no gerenciamento do risco de crédito das operações.

Procurada, a defesa do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, afirmou que as conclusões “não correspondem aos fatos”. Em nota, declarou que o banco “era submetido a auditorias independentes, supervisão permanente e a rotinas de fiscalização contínua”, acrescentando que a defesa segue colaborando com as autoridades e confia que o avanço das apurações afastará premissas sem sustentação técnica ou documental. A Reag não respondeu aos questionamentos.

Rentabilidade extraordinária

Um documento do Banco Central encaminhado ao MPF reforça que as operações entre o Master e a Reag envolveriam uma “reavaliação indevida de ativos”, permitindo aos fundos de investimento obter “rentabilidade extraordinária”.

O caso considerado mais emblemático é o empréstimo de R$ 459 milhões concedido pelo Banco Master à Brain Realty Consultoria e Participações Imobiliárias, empresa dirigida por uma ex-funcionária da Reag. Assim que recebeu os recursos, a empresa transferiu quase todo o valor para o Fundo Brain Cash, criado pela Reag apenas 20 dias antes, com patrimônio inicial de R$ 15 mil.

Em cerca de uma hora e meia, R$ 450 milhões foram aplicados no Brain Cash e, em seguida, repassados ao Fundo D Mais, também ligado à Reag e detentor de papéis do Besc. Três minutos depois, o Fundo D Mais transferiu o mesmo montante ao FIDC High Tower para liquidar parte da aquisição desses ativos.

A investigação

Segundo a investigação, o fundo reavaliou os papéis de baixa liquidez para R$ 10,8 bilhões, registrando uma rentabilidade de 10.502.205% em 2024. Para comparação, no mesmo período, a maior criptomoeda do mundo teve retorno de cerca de 120% em dólar, enquanto o ouro valorizou 61,6% em reais.

A Polícia Federal também apura a suspeita de que, após circularem por estruturas administradas pela Reag, os recursos tenham retornado ao Banco Master por meio da compra de Certificados de Depósito Bancário (CDBs), principal forma de captação da instituição no mercado.

Diante das suspeitas, investigadores realizaram nesta quarta-feira uma operação de busca e apreensão em endereços ligados a Daniel Vorcaro e a João Carlos Mansur, fundador da Reag.

A gestora de recursos também é alvo da Operação Carbono Oculto, deflagrada em setembro do ano passado pela Polícia Federal e pelo MP para investigar um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo integrantes da facção Primeiro Comando da Capital (PCC). Pelo menos três fundos administrados pela Reag que mantiveram negócios com o Banco Master — Hans 95, Reag Growth e Anna FIC — também constam na lista de investigados.

A Reag nega irregularidades e afirma que qualquer associação com organizações criminosas “não consta de nenhum documento oficial, denúncia, relatório de análise ou manifestação das autoridades competentes”.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *