“Dormia sem saber que era estuprada”: o desabafo de Gisèle Pelicot, violentada pelo marido por 10 anos
DCM – A francesa Gisèle Pelicot detalhou ao programa Fantástico, que foi ao ar neste domingo (22), o horror de uma década sendo violentada pelo próprio marido, Dominique Pelicot, que a dopava sistematicamente, convidava desconhecidos para abusá-la e registrava os crimes em vídeo.

O caso chocou a França e o mundo e resultou na condenação do agressor a 20 anos de prisão em dezembro de 2024, a pena máxima para estupro no país. Ao decidir falar publicamente, Gisèle afirmou que quer impedir que a vergonha recaia sobre a vítima. “Esse lado sombrio, nós nunca o vimos. Eu nunca descobri, até que aprendi a fazer isso”, disse.
O pesadelo veio à tona em novembro de 2020, quando Gisèle foi chamada a uma delegacia e confrontada com imagens de uma mulher inconsciente sendo abusada. Inicialmente sem reconhecer a si própria, ela descreveu o choque ao perceber a dimensão dos crimes cometidos por alguém com quem viveu por 50 anos.
“O delegado me diz: ‘é você’, e eu respondo: ‘não, não sou eu’. Coloco meus óculos para tentar compreender e ele me pergunta: ‘a senhora conhece esse homem?’. ‘Claro que não’. Nesse momento, meu cérebro já não processa mais nada. Eu me desconecto, não escuto mais nada”, relatou.
O momento mais doloroso, segundo ela, foi contar aos três filhos. “Como você diz pros seus filhos: seu pai me estuprou e me fez ser estuprada por 10 anos? Foi um golpe devastador para eles também. Eu ainda consigo ouvir minha filha gritando na sala”.
Rede de agressores e investigação
As investigações revelaram que Dominique recrutava agressores em fóruns online. Em dois anos e meio, a polícia identificou 80 homens entre 22 e 70 anos, considerados pessoas comuns da região onde o casal vivia, e 50 foram julgados e condenados.
“Trinta deles ainda estão vagando por aí, não foram presos até hoje”, alertou. Um dos agressores era vizinho da família. “Ele era um homem na casa dos quarenta, pai de quatro filhos. Mesmo assim, veio à minha casa e me estuprou. E eu, que não me lembrava de nada, respondia ‘olá senhor’ na padaria”.
Sintomas ignorados e manipulação
Durante anos, Gisèle sofreu apagões de memória, alterações na fala e problemas de saúde sem entender a causa. Procurou médicos diversas vezes, mas o marido a acompanhava e minimizava os sintomas. “Não lembrava o que tinha feito na véspera… Meus filhos diziam que eu estava com a voz enrolada, como se tivesse bebido”.
Em juízo, ela abriu mão do anonimato e enfrentou acusações das defesas dos réus. “Diziam: você é cúmplice, consentiu. Esse comportamento das advogadas mulheres me humilhou. Para nós, vítimas, a punição é dupla: o sofrimento que passamos e a luta contra essa vergonha”.
Hoje, Gisèle afirma que transformou a dor em luta por mudanças sociais e educacionais. “A sociedade precisa evoluir. Os homens precisam assumir a responsabilidade… Não devemos tolerar a dominação sobre as mulheres”.
Mesmo após tudo, ela mantém o sobrenome do ex-marido para proteger os netos e pretende visitá-lo na prisão em busca de respostas.
“Preciso olhar nos olhos dele e perguntar por quê. Preciso de respostas”. Sobre seguir em frente, concluiu: “Talvez elas não mudem nada, mas é como sigo em frente com a minha vida. Dizer a ele que sou uma mulher feliz, em paz e serena. O livro é uma forma de dizer que hoje sou uma mulher livre novamente, que ama novamente, que confia novamente. E que estou de pé, sempre de pé”.
Assista abaixo:
