O papel dos vices e a difícil escolha na hora da decisão
Por Raimundo Borges
O Imparcial
A figura do vice é carregada de presunção, suspeitas, desconfiança e imprevisibilidade. Desde o vice-presidente da República até o vice-prefeito de um minúsculo município, é mais fácil haver conflitos de interesses do que harmonia duradoura. As desavenças que destruíram a relação amistosa entre o governador Flávio Dino e o seu vice, Carlos Brandão, brotaram ao redor dos dois políticos e evoluíram para crise pessoal. Hoje, é quase impossível imaginá-los um dia repetindo o gesto de mãos erguidas, com palavras de ordem, em nome do povo do Maranhão, como fizeram tantas e tantas vezes em oito anos.
O Brasil já vive o ambiente efervescente da pré-campanha eleitoral para presidente da República, governadores, senadores e deputados. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai para a reeleição e promete repetir Geraldo Alckmin como vice de sua chapa. Do mesmo jeito, ele repetiu, em 2006, o empresário do PL, José Alencar, como vice de sua primeira vitória em 2002. O atual vice-presidente tem trajado rigorosamente o figurino do cargo, duplamente ocupado com o de ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, espécie de Lula embaixador perante o empresariado brasileiro e internacional.
No Maranhão, o vice-governador Felipe Camarão e o titular Carlos Brandão vivem às turras. Há tempo que nem uma palavra é dita ou ouvida entre eles. É a política do diálogo mudo e do tititi ao redor. Resultado: o governador e o vice estarão em palanques opostos nas eleições que ocorrerão em pouco mais de seis meses. Camarão seria candidato a governador e Brandão a senador. Mas, em 2023, o trem do poder descarrilou e a carga emborcou. Nem Lula conseguiu juntar os frangalhos. Brandão não será candidato e vai apoiar Orleans. Camarão já fala em concorrer ao Senado na chapa de Eduardo Braide, mas nem ele próprio tem certeza dessa empreitada rumo ao Palácio dos Leões.
Está provado que a escolha de vice não é uma tarefa fácil. Nenhum dos pré-candidatos a governador do Maranhão fez qualquer referência ao vice. Esse tipo de escolha tem sido uma dor de cabeça para qualquer político. Roseana Sarney sabe bem o que significa um vice. Em 1994, na sua primeira eleição ao governo, ela optou pelo engenheiro José Reinaldo, tido como espécie de “filho” querido de José Sarney, de quem foi ministro. Mas a escolha só se deu de madrugada, como último ato da convenção do PFL, que tinha como certo o nome de Ricardo Murad para vice. O desfecho desse jogo desandou nas eleições seguintes e virou um parafuso sem rosca até os dias de hoje.
Agora, com o advento das comunicações digitais e da velocidade das redes sociais, a boataria sobre o atual vice-governador Felipe Camarão, sua relação com o PT, com Lula e com Eduardo Braide (PSD), transforma a pré-campanha num parangolé. Daí a figura do vice, seja de Braide, seja de Orleans Brandão ou de Lahesio Bonfim, ganha novos contornos e expectativas. Afinal, o vice não é apenas o sucessor, mas também um ator político relevante e responsável pela interlocução com o Legislativo, com a sociedade, além de colaborador na administração. Brandão fez esse papel no governo Flávio Dino (PCdoB), mesmo sendo do PSDB.
A história dos vice-presidentes do Brasil é marcada por instabilidade e importância estratégica, com nove dos 26 detentores do cargo assumindo a Presidência devido a mortes, renúncias ou impeachments. Criado em 1891, o cargo foi extinto na Era Vargas (1934–1937), restaurado em 1946 e consolidado com eleição em chapa conjunta após 1964. Vices notáveis incluem José Sarney, único a assumir o mandato inteiro no Planalto; Itamar Franco e Michel Temer. No Maranhão, os vice-governadores também fizeram, de diferentes modos, a história ser contada pelos vieses mais surpreendentes. Carlos Brandão está dando a sua contribuição em um tema carregado de tensão e distensão, medido pelas circunstâncias.


