1 de maio de 2026
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O grito de voz rouca de quem resiste há 100 anos

Por Raimundo Borges
Diretor de Redação

O Imparcial – A máxima maquiavélica de que os fins justificam os meios parece ter perdido a validade neste quarto de século XXI. Os meios de comunicação impressa já não justificam tanto mais os fins. Estão se esvaindo na relevância histórica do tempo. Porém, os jornais são a parte desse meio que mantém a incrível capacidade de se reinventar e se adaptar às tecnologias digitais que, de fato, mudam o mundo das comunicações, da ciência e da humanidade. O Imparcial enfrenta uma luta quase sozinho como impresso, para não perder a voz de quem completa 100 anos neste 1º de maio. Eram 14 jornais em São Luís no começo deste século XXI, e agora restam dois. Foi oficialmente reconhecido como Patrimônio Imaterial do Maranhão por lei da Assembleia Legislativa, de autoria da presidente Iracema Vale.

No mundo em que a história dos fatos atropela a própria história da humanidade, o jornalismo impresso tem que se reinventar todo dia para não ser tragado pela revolução tecnológica e social em curso. Ao se debruçar sobre a trajetória da Empresa Pacotilha, editora de O Imparcial, nesses 100 anos de superação e transformação, a primeira ideia que surge é uma indagação: “Até quando o papel estará imprimindo notícias, cultura e histórias?”. Em 1926, quando o empresário João Pires Ferreira decidiu levar às ruas um jornal em São Luís, com o perfil da imparcialidade na abordagem jornalística, obviamente ele não pensava estar fincando os alicerces de uma história centenária na imprensa.

O desbravador

Há 100 anos, quando o rádio ainda era um meio de comunicação introdutório no Brasil e no mundo, o jornal impresso nem precisava correr atrás da notícia. A notícia é que corria para chegar ao jornal do dia seguinte sem perder a factualidade. Tudo era feito manualmente, a partir do texto manuscrito ou da máquina de escrever, serviço completado pelos tipógrafos que, catando tipo por tipo de chumbo, montavam as páginas tituladas com fontes do alfabeto moldado em madeira. Nada era feito sem pressa, porque o jornal era o único meio de comunicação de massa, ainda por cima com grande parte dela analfabeta.

O Diário de São Luís, que tinha como editor o jornalista Nascimento de Moraes, pai de um dos precursores do ambientalismo incipiente no Maranhão, José Nascimento de Moraes Filho, foi impactado pelo surgimento de O Imparcial em 1926. Até a empresa exibidora de filmes – Eden, Rox, Royal e Rex (João Paulo) – passou a adotar o novo jornal como veículo de seus anúncios. Como aquela empresa alugou o Teatro Arthur Azevedo como casa de espetáculos de filmes, o Diário de São Luís, antes de encerrar suas atividades, fez uma dura campanha contra, em razão do uso de um teatro público para exibir filmes com ingresso pago.

Vocação para liderar

Com poucos meses de circulação, O Imparcial já marcava sua vocação para ser referência. Mudou do formato tabloide para um tamanho intermediário, do qual migrou para o standard, medindo 56 x 32 cm, ou mancha gráfica de aproximadamente 52,5 cm x 32 cm, o formato dos grandes jornais mundo afora. Como o rádio chegou ao país em 1922 para transmitir as comemorações do centenário da Independência do Brasil, no Maranhão os jornais tornaram-se o meio de comunicação de maior influência e poder político. Em 1944, Assis Chateaubriand comprou o jornal e o incorporou aos Diários Associados.

Convidou para dirigi-lo o advogado cearense José Pires de Saboia, recém-formado pela Universidade Federal do Ceará, por sugestão de João Calmon, diretor regional do grupo. Saboia já atuava no jornal Correio do Ceará, da Rede Associada. No final da década de 1950, ele acabou como professor da Universidade Federal do Maranhão e advogado do Banco do Brasil. Foi eleito deputado federal entre 1967 e 1975, sendo ainda secretário de Interior e Justiça do governo Nunes Freire, já fora do comando de O Imparcial e da Rádio Gurupi. Na década de 1980, Saboia integrou a Academia Maranhense de Letras. Quando foi cumprir os mandatos na Câmara e depois assumir a Secretaria de governo, Pires de Saboia deixou na direção dos Associados o juiz Arthur Almada Filho, que havia sido afastado da magistratura pela ditadura militar de 1964 e reintegrado somente no começo da década de 1990. Chegou a desembargador em 1995 e vice-presidente do TJ-MA. Mais tarde, criou o Instituto Histórico e Geográfico de Caxias, além de ser um dos fundadores da Academia Caxiense de Letras, ao lado de Jacques Medeiros e vários intelectuais da Princesa do Sertão.

Adirson Vasconcelos

Em 1969, os Associados mandaram para o Maranhão o também jornalista cearense Adirson Vasconcelos, que, em 1973, implantou a maior revolução gráfica no jornal, trocando a impressão da Rotoplana por uma moderna rotativa Goss Headliner Press em offset. Acabou com as oficinas de composição linotipo e a clicheria, de responsabilidade do ex-craque do MAC, Moacir Bueno. Mas manteve Almada Lima na diretoria, Raimundo Melo e Raimundo Cordeiro Filho como diretores comerciais. Adirson voltou para Brasília e foi substituído por Francisco Busto. Já como escritor de mais de 60 livros, a maioria sobre Brasília, Adirson tornou-se referência histórica na capital que acompanhou desde a primeira missa na nova catedral, a qual foi cobrir como repórter do Correio do Ceará e acabou ficando. Hoje, com 90 anos, ele permanece em Brasília e é também membro da AML.

Antes de Adirson, em 1968, deu entrada na redação de O Imparcial o jovem Pedro Batista Freire, em busca de uma oportunidade. Fez uma prova escrita e foi indicado para revisor, ao lado do hoje desembargador Josemar Lopes. A redação tinha como secretário Ferreira Bati e como editor de capa o jornalista Alfredo Galvão, ex-marido da médica Maria Aragão. A revisão ficava ao lado da oficina, que tinha como um dos linotipistas o juiz aposentado Aureliano Neto, com passagem pelo Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado (Sioge). Aureliano é escritor e membro da AML, assim como José Sarney, cujo primeiro emprego foi de repórter de O Imparcial, e Ribamar Bogéa, depois fundador do Jornal Pequeno.

Pedro Freire

De revisor, Pedro Freire passou a repórter, chefe de reportagem, diretor de Redação, diretor-geral e presidente. Em sua gestão, O Imparcial avançou na melhoria gráfica, com a introdução de novas tecnologias na impressão e pré-impressão em CTP. Passou do preto e branco para a policromia, com a radiofoto e o telex na transmissão de imagens e textos, até o advento do computador e da internet como substitutos da máquina de escrever, já no começo da década de 1990. A Pacotilha mudou de empresa Ltda. para S/A, e Pedro Freire foi responsável pela aquisição de impressora vertical, de seis unidades em cores, do terreno do Renascença II e da construção da sede atual.

O sobrado da Rua Afonso Pena, adquirido por Assis Chateaubriand, foi trocado com a Prefeitura de São Luís pelo terreno da atual sede. O sobradão histórico acaba de ser completamente restaurado com recursos federais do IPHAN e da prefeitura, sob a supervisão da presidente da Fundação Cultural, Kátia Bogéa. Naquele sodalício, um dos mais belos de toda a área tombada pela Unesco como patrimônio cultural da humanidade, será instalado o Museu Nacional dos Azulejos.

Com Célio Sérgio

Enquanto isso, O Imparcial segue sua trajetória, hoje sob a direção executiva de Célio Sérgio, que começou na empresa há 35 anos como diagramador, passando a gerente de tecnologia e web designer, a partir da entrada do computador na redação e demais setores, com suas ferramentas agregadas à internet. Célio já produziu dezenas de capas premiadas, tanto pela criatividade quanto pela força representativa das imagens.

Por sua vez, este jornalista Raimundo Borges está completando 56 anos na Pacotilha, dos quais 35 como diretor de Redação e autor da coluna política BASTIDORES desde 1984. Também foi repórter nos jornais Diário da Noite e Diário de São Paulo (SP), O Globo (RJ), Correio Braziliense e escreveu reportagem especial para a revista Comunità Italiana. É condecorado pela UFMA, Alema, Prefeitura de Caxias, TRE-MA, Câmara de São Luís; cidadão ludovicense, comendador do governo estadual, membro da ACL e do IHGC.

Ingressei no jornal meio deslumbrado com aquelas instalações da Rua Afonso Pena, 46, suas centenas de janelas e uma escadaria em espiral talhada em madeira de lei, única na cidade de São Luís. Ao descer do ônibus da Empresa Alves, linha João Paulo, passei pela Praça João Lisboa e já vi exemplares de O Imparcial expostos nas bancas de João Mendes e Raimundo Mondego, imaginando se um dia teria o nome escrito naquele papel quase “sagrado” do jornalismo maranhense. E acabei sendo um dos mais pontuais nos 56 anos deste centenário, com edições contadas em algarismos romanos no alto da logomarca. Uma jornada épica na qual nem os fins justificam os meios.

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