Na homenagem a O Imparcial, José Sarney destaca Raimundo Borges
Por Raimundo Borges
O Imparcial – A sessão especial da Assembleia Legislativa do Maranhão em homenagem aos 100 anos do Jornal O Imparcial, quinta-feira, 8, sob a presidência da deputada Iracema Vale (MDB), acabou como um evento histórico. Iracema, primeira mulher a presidir a Alema em seus 190 anos, foi autora do projeto, aprovado por unanimidade, que concedeu ao matutino centenário o título de Patrimônio Cultural e Imaterial do Maranhão, cuja entrega ao diretor executivo, Célio Sérgio, e ao presidente Pedro Freire foi prestigiada por autoridades dos Três Poderes, jornalistas, articulistas e servidores de O Imparcial.
O ex-presidente José Sarney, 96, fez um discurso histórico para a imprensa do Maranhão, ao relatar sua passagem, aos 18 anos, pela redação de O Imparcial, como o primeiro emprego de sua carreira literária e, depois, política. Usou a Tribuna da Alema com a mesma desenvoltura e traquejo na oratória a que tanto se acostumou no Congresso Nacional — único brasileiro a presidi-lo por quatro vezes —, na Presidência da República, pelo mundo afora como chefe de Estado, em universidades, academias literárias e organizações internacionais.

Quando se referiu a este jornalista Raimundo Borges, diretor de Redação de O Imparcial há 35 anos e primeiro orador da solenidade, Sarney não lhe poupou palavras generosas: “Raimundo Borges fez um discurso emocionado e conciso. Disse muita coisa, mas sem dizer o essencial. Não disse que ele é um grande jornalista. Escreve num estilo perfeito, no qual os adjetivos não invadem o texto com liberdade desnecessária. Não adota o humorismo, que às vezes passa a ideia de velho e bolorento. Ele é um jornalista de estilo moderno, que trata as coisas mais graves do cotidiano sem recorrer ao sensacionalismo e a outros apelos”.
Na minha vez, entre outras coisas, destaquei o papel do jornal dos Associados na jornada histórica deste século que acaba de atravessar, num estado com quase 50% da população analfabeta em 1926 e num país em que hoje apenas 0,002% das empresas chegam à marca de 100 anos. “Portanto, é algo extraordinário estarmos aqui, nesta data, comemorando um século de O Imparcial, jornal que, ao longo de sua trajetória, tem resistido a todos os tipos de pressões e incompreensões, mas também sido alvo da lealdade, do respeito e da admiração de seus leitores e da equipe compromissada com a liberdade de expressão”.

Lembrei ainda da luta do jornal para se adaptar às tecnologias, ao modelo de jornalismo equilibrado, sem se render e sem perder a liderança do mercado. Não sem motivo, passaram por sua redação e suas páginas nomes que fizeram a história política, econômica, social, cultural e literária do Maranhão e do Brasil. José Sarney, Ferreira Gullar, José Louzeiro, Austregésilo de Ataíde, Neiva Moreira, Assis Chateaubriand, Benedito Buzar, Franklin de Oliveira, Sebastião Jorge, Ribamar Bogéa (fundador do Jornal Pequeno), Josué Montello, dentre tantos outros, fizeram de O Imparcial suas trincheiras de lutas e carreira profissional. Sarney, quando assumiu a Presidência da República, ganhou um quadro com a foto e a legenda: “Nosso repórter que chegou à Presidência do Brasil”.
Sarney lembrou de sua passagem pela redação de O Imparcial, sob a direção de José Pires de Saboia, que lhe deu a mão e abriu-lhe espaço importante no caminho que seguiu na vida, principalmente na política. “A figura dele é insubstituível em minha memória e em minha vida”, disse o ex-presidente. “Entrei no jornal como ‘foca’, depois de passar em primeiro lugar numa prova de redação, com uma matéria sobre a Quinta do Barão”.

Era o casarão que acabou dentro da área central de São Luís, originalmente conhecida como Quinta das Laranjeiras, uma luxuosa propriedade rural e moradia do início do século XIX (1789/1812), localizada no final do antigo Caminho Grande (atual Rua Oswaldo Cruz), em São Luís. Pertencia ao comendador português José Gonçalves da Silva, conhecido como “O Barateiro”, e posteriormente ao seu genro, o 2º Barão de Bajé. A partir de 1908, virou Colégio Marista e, hoje, é uma escola do Iema, pertencente ao Governo do Estado.
Sarney relatou ainda que ingressou como repórter de polícia, quando percorria as delegacias junto com o primeiro repórter fotográfico de O Imparcial, Dreyfus Azoubel. A primeira reportagem policial dele foi sobre uma “louca que ameaçava muita gente no povoado rural Tibiri”. Depois, foi editor do Caderno Cultural, já como poeta, numa época em que, no Maranhão, segundo Sarney, “quem não era poeta não tinha relevância”. Saboia colocou uma placa preta, como um outdoor, na porta do prédio 46 da Rua Afonso Pena, na qual antecipava as manchetes de O Imparcial do dia seguinte.

Uma história contada por quem dela efetivamente participou ainda na adolescência e, aos 96 anos, a narra com incríveis detalhes, qualidade dos que têm uma memória admirável. Como jornalista, Sarney filiou-se ao sindicato da categoria em São Luís, do qual nunca saiu, assim como nunca deixou de escrever em jornais do Maranhão e do país. N’O Imparcial, ele publica uma crônica semanalmente na edição de sábado. Ela é reproduzida em sites e blogs. Como escritor, Sarney já publicou dezenas de livros, alguns traduzidos até para o russo. É dono de uma biblioteca particular com mais de 100 mil volumes, inclusive de obras raras.
O ex-presidente do Brasil José Sarney é dono de uma trajetória política única e de um estilo literário moderno, muitas vezes marcado por ironia e reflexões sobre o poder. Aqui estão algumas de suas frases marcantes: “Durante o meu mandato, a história se contorceu, mas a democracia não murchou na minha mão”, e também: “Todo homem, por força de sua condição social, é necessariamente um político, tanto por querer quanto por não querer”. Recentemente, ele disse ao presidente Lula: “Não tenho futuro, o que tenho é passado. Velho gosta é de agrado. Como você me agrada, eu gosto de você”. Lula respondeu: “Então vou continuar lhe fazendo agrado”.
Sobre O Imparcial, Sarney o classificou como o maior depositório da história do Maranhão, por registrar e guardar o cotidiano, as mentalidades, os conflitos e os valores da sociedade, tornando-se uma fonte fundamental para estudo. Como jornalista, Sarney já publicou oito livros só de artigos na imprensa em geral, dos 123 títulos ao longo de sua carreira, que o fez membro da Academia Maranhense de Letras aos 22 anos e da Academia Brasileira de Letras, onde é o decano.

