Acordo com os EUA é quase impossível até quarta, avalia governo Lula
DCM – O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não vê espaço para fechar um acordo com os Estados Unidos antes da próxima quarta-feira (15), data prevista para o anúncio estadunidense sobre uma nova etapa do tarifaço contra produtos brasileiros. Auxiliares do Planalto rejeitam incluir Pix e etanol em uma negociação que, na avaliação interna, exigiria concessões contrárias aos interesses do Brasil.
Duas autoridades do governo afirmam que o diálogo com Washington continua aberto, mas sem avanço para um entendimento. Em evento em São José dos Campos (SP), Lula respondeu a uma pergunta sobre as sobretaxas com a frase: “não vai ter tarifaço”.
A investigação conduzida com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA levou o USTR, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, a concluir que o Brasil adota práticas discriminatórias e desarrazoadas no comércio bilateral. O órgão defendeu uma sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, embora tenha incluído uma lista extensa de exceções.
O ministro Márcio Elias Rosa, do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), disse que a chance de acordo é mínima no prazo atual. “A expectativa de um acordo é quase nenhuma, ou nenhuma mesmo, seja por conta do prazo ou do que apontam os Estados Unidos, pontos sobre os quais não haverá concessões hoje ou amanhã por esse governo”, afirmou.

Pix, etanol e açúcar travam a negociação com Washington
Integrantes do governo brasileiro classificam a recomendação estadunidense como abusiva e injusta. Elias Rosa citou o Pix e o etanol como temas fora do alcance de concessões imediatas e cobrou que os EUA ampliem a lista de exceções. “Há pontos sobre os quais não haverá concessões, porque são inegociáveis, outros equivocados e todos descabidos”, disse o ministro.
Na semana passada, Elias Rosa afirmou que a eliminação do imposto de importação do etanol estadunidense não está na mesa de negociação do tarifaço. O ministro disse que a entrada do produto dos EUA no Brasil causaria danos sobretudo ao Nordeste, onde fica um dos polos produtivos nacionais, e afirmou que Lula defende tratar o etanol apenas se Washington discutir também as tarifas aplicadas ao açúcar brasileiro.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, enviou ao USTR uma proposta de “acordo zero a zero” para etanol e açúcar, com eliminação de impostos de importação dos dois lados. Em audiência pública, ele sugeriu adiar o debate sobre o tarifaço para depois das eleições brasileiras, o que levou a gestão Lula a divulgar nota de repúdio contra a interferência nas negociações em curso.
Lula discutiu o tarifaço com ministros e auxiliares na última sexta-feira (10). O governo espera que os EUA definam um período de implementação da nova tarifa, o que abriria espaço para manter conversas, e insiste em contato em nível ministerial; após a aplicação da medida, o Planalto decidirá se mobiliza a Lei de Reciprocidade, em vigor desde o ano passado, para reagir a sanções econômicas de outro país.

