3 de agosto de 2026
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Os rastros de uma civilização milenar na Amazônia brasileira

DW – Mapeamento aéreo a laser revelou mais de 400 sítios cerimoniais do povo Aquiry – que, segundo pesquisadores, chegou a reunir até 3 milhões de habitantes.

Uma nova pesquisa co-autorada por cientistas brasileiros revelou estruturas deixadas no que hoje é a junção dos estados do Acre e do Amazonas por uma civilização de milhões de pessoas que habitou o sudoeste da Amazônia entre 600 a.C. e 850 d.C.

A descoberta, publicada na revista Nature, desafia o que se sabia sobre a densidade populacional e a complexidade cultural da região amazônica.  

A civilização Aquiry, nome derivado do termo indígena para o rio Acre, construiu grandes centros com fins políticos e rituais que abrangem cerca de 183 mil quilômetros quadrados, um território quase do tamanho do Paraná.

Seus vestígios são enigmáticas figuras geométricas no solo: espaços delimitados por valas de vários metros de profundidade, conectados entre si por caminhos retos.

Mais de 400 sítios identificados, mas podem ser milhares

Os arqueólogos encontraram vestígios de mais de 400 sítios bem preservados. Mas eles estimam que possam ter existido mais de 20 mil antigos centros cerimoniais na região. Isso é bem mais do que estimativas anteriores de 10 mil para toda a Amazônia, observou a revista Science.

O maior dos sítios descobertos pelos pesquisadores ocupa 50 hectares, o equivalente a 70 campos de futebol.

“O que mais nos surpreendeu foi o número extraordinariamente elevado de geoglifos [grandes figuras feitas no chão] e outras construções de terra encontradas em uma área que representa menos de 3% da Grande Amazônia”, afirmou o autor principal, o arqueoantropólogo Martti Pärssinen, da Universidade de Helsinque, ao Science Alert.

Imagem aérea na Amazônia mostra uma vala quadrangular com as bordas arredondadas cavadas no solo e, dentro dela, uma outra vala quadrada
As estruturas geométricas da civilização Aquiry eram provavelmente centros de reuniões políticas e de rituaisFoto: Martti Pärssinen

Amazônia pode ter tido dezenas de milhões de habitantes

O novo estudo estima que entre 1,25 milhão e 3 milhões de pessoas viviam ali no início do primeiro milênio. O dado desafia as estimativas anteriores sobre a população de toda a região amazônica, que oscilavam entre 1 e 10 milhões.

Segundo os autores, a população total da Amazônia pode ter alcançado dezenas de milhões de pessoas: “Nossas descobertas provocam uma reviravolta no que sabíamos sobre o passado da região amazônica”, afirma Pärssinen, em comunicado da Universidade de Helsinque.

E acrescenta: “Muitas outras regiões da Amazônia podem ter sido muito mais densamente povoadas e ter passado por uma transformação muito mais intensa do que se supunha até agora”.

Civilização de agricultores e construtores

Os Aquiry também deixaram sua marca na paisagem vegetal. Eles queimaram florestas de bambu para abrir áreas destinadas ao cultivo de milho, abóbora e mandioca, além de construir seus centros cerimoniais e os largos caminhos que levavam até eles. Também manejavam espécies de árvores de alto valor cultural, promovendo sua propagação em detrimento de outras espécies.

“O impacto humano sobre o meio ambiente amazônico foi muito maior do que se acreditava”, destaca Pärssinen. “A civilização também alterou a produção e o balanço de carbono da antiga Amazônia, algo que deveria ser mais bem considerado nos futuros modelos climáticos.”

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