1 de outubro de 2026
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O DNA familiar que domina as eleições em todo o Brasil

Dos candidatos “postes” aos bons de votos, a disseminação do poder político é uma tradição cada vez mais presente no Brasil, desde a época colonial.

Por Raimundo Borges

O Imparcial – As eleições gerais de domingo próximo escondem muitos detalhes sobre os candidatos que passam despercebidos ou são “normalizados” pelos eleitores, apesar do impacto deles na democracia brasileira. O domínio das famílias na política é uma herança estrutural ligada às origens coloniais e patriarcais do país, persistindo até hoje como um fator central de poder em todas as esferas institucionais.

Nestas eleições, o fenômeno dessa “genética” de poder é muito mais forte do que se imagina. Na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro exibe nos comícios a foto do pai, Jair Bolsonaro, como um amuleto milagroso. É a família com mais candidatos por vários estados, todos carregando o sobrenome como uma tocha a apontar o futuro político de resultado quase garantido nas urnas.

Michelle discursa em ato pró-anistia do 8 de Janeiro, junto a Bolsonaro (a partir da esquerda), Carlos, Flávio e Jair Renan — Foto: Miguel Schincariol/AFP/06-04-2025

Flávio Bolsonaro, o ‘01’, concorre ao Planalto; Michelle Bolsonaro, ao Senado pelo DF; Carlos Bolsonaro é candidato ao Senado por Santa Catarina; Jair Renan já é vereador e disputa uma cadeira na Câmara dos Deputados, assim como Rogéria Bolsonaro, ex-mulher de Jair e mãe de Flávio, Eduardo e Carlos, concorre pelo Rio; e Renato Bolsonaro (irmão de Jair), por São Paulo; Marcelo e Valéria, parentes de Bolsonaro, são candidatos a deputado estadual em São Paulo. Se não bastasse, existem ainda outros 12 candidatos que adotam o sobrenome Bolsonaro e estão na urna do dia 4.

Todos são filiados ao PL, partido de direita no qual Jair Bolsonaro assinou a ficha de filiação em 2021, como presidente. Faltam nas eleições o próprio Jair, em prisão domiciliar por tentativa de golpe em 2023, e Eduardo, cassado pela Câmara dos Deputados por residir nos Estados Unidos, onde atua junto ao governo Donald Trump pelas medidas contra o Brasil – de tarifaço a punição de ministros do STF.

Outro núcleo familiar numeroso nas eleições são os cinco filhos do missionário R. R. Soares, líder da Igreja Internacional da Graça de Deus: Filipe, Marcos (PSDB-RJ); David e Daniel Soares (União); e André (Republicanos), este primeiro suplente de Waguinho Carneiro, na disputa do Senado pelo Rio de Janeiro.

No Maranhão, a parentada também infla a corrida aos mandatos de governador a deputado estadual. Eduardo Braide é irmão de Fernando (candidato a federal), primo de Orleans, que é sobrinho de Carlos Brandão.

Josimar do Maranhãozinho, deputado federal, tem quatro parentes nas urnas: a esposa Detinha e o filho Josimar Jr. concorrem à Assembleia Legislativa. Os sobrinhos Fabiana Vilar (dep. estadual) e Aldir Jr. (vereador em São Luís) concorrem à Câmara Federal, todos pelo PL. Othelino Neto, atual deputado estadual, candidato a federal, é marido da senadora Ana Paula Lobato.

Incrível, só um sobrenome Sarney

Outros candidatos de currículo familiar: Roseana Sarney (Senado); Roberto Rocha (filho do ex-governador Luís Rocha), candidato ao governo; André Fufuca, filho de Fufuca Dantas (Alto Alegre do Pindaré); Catulé Júnior (filho de Catulé, vereador de Caxias com 10 mandatos); os irmãos Pedro Lucas e Paulo Casé, filhos de Pedro Fernandes, prefeito de Arame; Neto Evangelista é marido da vereadora Thay, irmã de Rui Jorge, candidato a estadual, ambos filhos da prefeita de Lago da Pedra, Maura Jorge; Claudio Cunha, marido da prefeita de Serrano; Solange Almeida, esposa do ex-prefeito de Igarapé do Meio; Maedja Campos (mulher do prefeito de Paço, Fred Campos); Júlio Filho (filho do prefeito de São José de Ribamar, Julinho Matos); Paula Prata é mulher do prefeito de Santa Inês, Felipe dos Pneus. Em Caxias, Paulo Marinho Jr., candidato a deputado federal; a deputada federal Amanda Gentil (federal) é filha do ex-prefeito Fábio Gentil, marido da deputada Daniella Jadão; e Claudia Coutinho, mulher de Ferdinando Coutinho, ex-prefeito de Matões, irmão de Humberto Coutinho.

A imensa lista de candidatos saídos de grupos familiares só do Maranhão não cabe no espaço desta coluna. O portal Congresso em Foco identificou 104 deputados e senadores com familiares candidatos nesta eleição: são 69 na Câmara e 35 no Senado. Juntos, eles representam 17,5% dos 594 congressistas. No Senado, o movimento consanguíneo chega a 31 candidatos, do total de 81 parlamentares. Na Câmara, são 69 dos 513 deputados, ou 13,5%. É a democracia com seus fundamentos deformados pelos laços do parentesco.

No Rio de Janeiro, o grupo familiar de Marcelo Crivella (Republicanos), candidato a senador, chega a sete nas eleições. Ele é primo dos cinco irmãos candidatos, e Edna Macedo (Republicanos-SP), tia deles e candidata à reeleição para deputada estadual. Marcos, David e Crivella exercem atualmente mandato na Câmara. Edna é irmã do bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus.

No Pará, os Barbalho somam cinco candidatos. O ex-governador Helder Barbalho (MDB) disputa o Senado e tem como primeiro suplente o pai, o senador Jader Barbalho (MDB). O ex-ministro das Cidades Jader Filho (MDB), irmão de Helder, concorre a deputado federal, enquanto a mãe dos dois, a deputada federal Elcione Barbalho (MDB), tenta uma vaga na Assembleia Legislativa.

Cinco Arraes em PE

Em Pernambuco, cinco descendentes do ex-governador Miguel Arraes estão nas urnas. João Campos (PSB) disputa o governo, enquanto o irmão Pedro Campos (PSB), deputado federal, tenta a reeleição. As irmãs Marília e Maria Arraes, netas de Miguel Arraes, também concorrem. Marília (PDT) disputa o Senado e Maria (PSB), atual deputada federal, tenta uma vaga na Assembleia Legislativa. João e Pedro, filhos do ex-governador Eduardo Campos, são bisnetos de Arraes. O quinto é Daniel Valença (Psol), também neto de Miguel Arraes e candidato pela primeira vez a deputado estadual.

Calheiros em dois Estados

A família Calheiros tem quatro integrantes na disputa. O senador Renan Calheiros (MDB-AL) tenta a reeleição, enquanto o filho Renan Filho (MDB-AL), também senador, concorre ao governo de Alagoas. Os irmãos de Renan completam o grupo: o deputado federal Renildo Calheiros (PCdoB-PE) busca novo mandato em Pernambuco, e Remi Calheiros (MDB), deputado estadual, concorre novamente em Alagoas.

No Maranhão, o DNA da política é detectado na lista de candidatos a deputado federal e estadual em dezenas de municípios – quase como se fosse uma regra eleitoral. Desde Imperatriz aos pequenos municípios, as eleições fazem parte do jogo de poder. O parente do prefeito ou da prefeita é lançado como “poste” para o teste de urna. Se não vencer, pode disputar a eleição municipal de 2028; se for eleito, ótimo: pode ser candidato a prefeito lá na frente. Afinal, existe uma lógica do ex-governador e atual vereador de Bacabal, João Alberto, sobre perder eleição: “Voto nunca se perde. Se acumula para a próxima vez”.

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