20 de maio de 2024
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Como o PCC se infiltrou no bilionário sistema de ônibus de SP

Investigações apontam que traficantes de drogas lucram com o transporte em áreas mal geridas pelo poder público paulistano há quase 25 anos.

Objeto da investigação que resultou na Operação Fim da Linha, deflagrada na última terça-feira (9/4) contra duas empresas que operam linhas de ônibus nas zonas sul e leste da capital paulista, a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no bilionário sistema de transporte público paulistano começou há quase 25 anos, quando a gestão da ex-prefeita petista Marta Suplicy(2001-2004) decidiu regularizar os chamados perueiros, que faziam o transporte de moradores nos bairros de periferia, em cooperativas.

Regularização dos perueiros

Em 1990, a gestão da ex-prefeita Luíza Erundina, também eleita pelo PT, tentou regularizar os perueiros criando quatro linhas que ligavam os extremos sul e leste da cidade aos bairros de Santo Amaro e Itaquera, respectivamente, e cadastrou motoristas para operá-las. O programa foi expandido, mas não foi suficiente para acabar com os operadores clandestinos, diante do crescimento populacional dessas regiões.

Já no início dos anos 2000, em Diadema, cidade vizinha da capital e perto das represas da zona sul, um grupo começou a cobrar taxas de proteção de até R$ 15 mil por mês dos perueiros que operavam nas duas cidades. Esse grupo tinha entre os integrantes, segundo o Ministério Público de São Paulo (MPSP), Antônio José Muller Júnior, o Granada, que era integrante do PCC, facção criminosa que havia sido fundada em 1993 dentro do sistema prisional paulista. O negócio dos ônibus se mostrou lucrativo e, aos poucos, os filiados ao PCC passaram a operar também na zona leste.

Naquele período, já na gestão Marta Suplicy (PT), a Prefeitura empreendeu nova tentativa para acabar com os clandestinos e regularizar o sistema. Dessa vez, a medida deu certo. O então secretário de Transportes, Jilmar Tatto, negociou a criação de cooperativas de perueiros, que teriam de abandonar as Kombis e operar micro-ônibus.

Além disso, as cooperativas teriam contrato firmado com a Prefeitura, operando linhas com horários de partidas pré-definidos e itinerários determinados pela SPTrans, empresa municipal que administra o sistema de ônibus. Essas linhas fariam um serviço complementar ao atendimento dos ônibus tradicionais, que ligam os bairros ao centro, operando linhas menores, entre os bairros mais afastados e os terminais regionais.

PCC no volante

Para o Ministério Público, o PCC usou diversos métodos, da cooptação à ameaça, para assumir a presidência de parte dessas cooperativas que foram regularmente criadas no início dos anos 2000. A Prefeitura, contudo, não adotou nenhuma medida efetiva para coibir o ingresso de perueiros ligados ao tráfico de drogas no sistema. Granada, por exemplo, obteve cargo de diretor da Transmetro, cooperativa que se transformou na Cooperpam.

O ex-secretário Jilmar Tatto chegou a ser alvo de um inquérito policial com outras sete pessoas, suspeitas de ligação com o crime organizado. A polícia, entretanto, não reuniu indícios suficientes para denunciá-lo à Justiça.

Após a regularização, segundo o MPSP, os traficantes e assaltantes de banco filiados ao PCC passaram a ter segurança para investir nas cooperativas, mantendo ônibus tanto para arrecadar com o serviço de transporte de passageiro quanto para lavar dinheiro oriundo do tráfico e de outros crimes. Nesse esquema, motoristas de ônibus, que deveriam ser os verdadeiros cooperados, eram funcionários da facção ou laranjas.

Uma das provas dessa prática foi uma correspondência, descoberta em maio de 2012, entre dois dos membros da chamada “Sintonia Final Geral”, o núcleo de comando do PCC que fica abaixo apenas de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder máximo da organização.

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