18 de julho de 2024
Geral

“Minha família enriqueceu com a escravidão”, diz mulher do banqueiro João Moreira Salles

Por Vanessa Adachi

De uma carreira como intérprete profissional e professora universitária, aos 56 anos Branca Vianna deu uma guinada para fundar, em 2019, a Rádio Novelo, hoje a maior produtora de podcasts jornalísticos em estilo narrativo do país e uma das pioneiras da profissionalização do formato por aqui.

Casada com um dos homens mais ricos do Brasil, o documentarista e ex-acionista do Itaú Unibanco, João Moreira Salles, ela também é nascida em uma família de elite do Rio de Janeiro, com raízes em Minas Gerais.

Da investigação dessa origem por historiadores, nasceram no ano passado dois episódios do podcast ‘Rádio Novelo Apresenta’ (Mexer no vespeiro e O Visconde), que trazem à tona o passado escravocrata da sua família.

Seu tataravô, o Visconde do Rio Preto, foi um homem riquíssimo, que chegou a ter mais de dez fazendas de café movidas a mão-de-obra escrava no interior mineiro. Ao morrer, o visconde deixou como herança nada menos que 1280 pessoas escravizadas.

João Moreira Salles. (Foto: Reprodução)

Vianna quis revisitar o passado com um objetivo claro em mente: refletir em família, mas também provocar a reflexão de outras famílias da elite econômica, política e intelectual do país.

“A ideia de que é ‘ok’ você enriquecer com o trabalho escravo e se beneficiar disso por 100 anos, 150 anos, incomoda bastante e é algo que precisa ser questionado”, diz ela em entrevista ao Reset.

“Existe uma linha que conecta a escravidão e as atitudes das pessoas brancas hoje em dia no Brasil. Especialmente as pessoas brancas de elite. É nossa responsabilidade lidar com essa questão.”

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Você, sua irmã e a sua prima encomendaram a dois historiadores uma pesquisa sobre a origem da fortuna do tataravô de vocês, o Visconde do Rio Preto. Por quê?

A gente sempre soube da origem da fortuna dele. Passávamos as férias na fazenda da minha avó, que é quem descende do Visconde do Rio Preto. Nessa fazenda, que foi construída depois da abolição por uma filha dele, mas que vem da mesma fortuna, em cima do piano tinha um quadro enorme, com ele vestido com um fardão e uma espada na cintura.

Sempre soubemos que ele plantava café, que era um homem muito, muito rico e que teve muitas fazendas. Também sabíamos que ele tinha tido muitos escravos, mas nunca paramos para pensar no que isso significava hoje em dia.

O estopim [para começarmos a nos questionar] foi a campanha do Trump. Levamos um susto. Como alguém podia falar abertamente coisas tão racistas, xenófobas, machistas, agressivas, violentas e ofensivas?

Começamos a questionar o que sabíamos do nosso passado, o que o resto da família pensava. Será que alguém já tinha parado para pensar que viemos dessa origem escravocrata horrorosa, de um homem que escravizou tantas pessoas, que possivelmente foi traficante de escravos?

Nunca tínhamos visto uma família vinda dessa herança escravocrata falando publicamente sobre isso. E, mais importante, o que a gente pode fazer para trazer esse assunto à tona.

Como começou? 

Na infância, quando íamos a cavalo visitar a Fazenda do Paraíso, que foi onde ele morou e morreu, todas nós tínhamos visto um livro dos escravos. Era um livro grande, de capa de couro, bem velho, escrito à mão, onde tinha o registro das pessoas escravizadas da fazenda, com detalhes sobre a vida dessas pessoas, a profissão.

Algumas vezes com a origem, de que região da África a pessoa tinha vindo, se era casada, se não era, quantos filhos tinha, se tinha sido vendido, se tinha sido comprado. Um livro que tinha impressionado a família toda.

E se conseguíssemos achá-lo? Como há poucos registros dos escravizados no Brasil, talvez fosse útil para pesquisadores. Quem sabe os historiadores pudessem achar outros documentos sobre os escravizados para torná-los disponíveis para descendentes e para quem pesquisa sobre escravidão no Brasil?

Uma das vantagens de você vir de uma família como a minha é que você sabe de onde veio, eu tenho minha árvore genealógica inteira. É muito diferente das pessoas que são descendentes de escravizados no Brasil, que muitas vezes não sabem, ou sabem até a avó, às vezes até a bisavó, mas dali não passa.

Como isso foi recebido por outras pessoas da família?

A minha família é muito progressista, de um modo geral. Mas, mesmo assim, havia um certo mito do Visconde do Rio Preto como sendo um grande homem de negócios, de visão, que tinha modernizado muito a região de Valença, onde as fazendas dele ficavam, de que era normal ter pessoas escravizadas naquela época.

Não nos interessava ficar condenando, hoje em dia, as pessoas daquela época. A ideia era pensar como isso afeta as atitudes que pessoas como nós temos com relação às pessoas mais pobres, às pessoas não brancas.

Existe uma linha que conecta a escravidão e as atitudes das pessoas brancas hoje em dia no Brasil. Especialmente as pessoas brancas de elite, mas acho que as pessoas brancas de um modo geral, com relação às pessoas que não são brancas, sejam indígenas, sejam negras.

A ideia de que é ‘ok’ você enriquecer com o trabalho escravo e se beneficiar disso por 100 anos, 150 anos, incomoda bastante e é algo que precisa ser questionado.

Todo mundo na família deu entrevistas para a pesquisa e gostou muito do resultado. Causou um debate bacana na família.

De alguma forma é uma dor para você?

Não gosto de dizer que seja uma dor ou um sofrimento, porque eu me beneficiei, entende? É desagradável, me incomoda. Mas não fui eu que sofri.

Outra coisa que não sinto é culpa. Culpa é uma coisa, responsabilidade é outra. Culpa eu só posso sentir por algo que fiz. Responsabilidade eu posso sentir por algo que outra pessoa tenha feito, especialmente uma pessoa da minha família.

Nossa responsabilidade, como pessoas brancas no Brasil, sejam pessoas que vêm de uma herança escravocrata, sejam pessoas de imigração mais recente que tenham se beneficiado dos programas de governo que não foram estendidos aos escravizados quando a escravidão foi abolida, é lidar com essa questão.

Nós, brancos, temos que conversar sobre isso e tentar entender o mal que a gente causa.

O Brasil é um país bastante racista e o racismo acontece todo dia. Temos que prestar atenção no sofrimento dos outros, no racismo que é perpetrado por pessoas como nós contra pessoas que não são brancas.

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