Trump pode interferir nas eleições do Brasil?
Por Raimundo Borges

O Imparcial – Desde quando os gregos passaram a usar o espaço da Ágora, praça pública de Atenas, para debater seus problemas e fazer nascer o exercício da democracia, raramente na história a humanidade viu esse sentimento político tão ameaçado quanto em 2026. Em agosto de 2024, em palestra pelos 20 anos da Fundação FHC, o cientista político de Harvard e escritor renomado Steven Levitsky disse que, se o republicano Donald Trump voltasse eleito à Casa Branca, a democracia estaria sob pesada ameaça. Ele usaria as instituições do Estado americano para perseguir rivais, amordaçar críticos, violar liberdades civis e encorajar a violência política, entre outras medidas autoritárias.
Hoje nem vale especular sobre o que está ocorrendo com a política externa do país mais poderoso do mundo. Por muito tempo, os Estados Unidos se consideraram uma democracia exemplar: um país em que outras nações podiam se espelhar para construir seus sistemas políticos após conquistar a independência ou se libertar de regimes autoritários. No entanto, sob Trump na Casa Branca, o mundo está em pânico com a América ameaçando o planeta com tarifaço, derrubando presidentes à força, prometendo transformar Gaza em um resort estilo “Riviera do Oriente Médio”, tomar a Groenlândia “de qualquer jeito”, anexar México e Canadá, detonar o Irã, controlar a Venezuela e seu petróleo.
Depois de ordenar a invasão de um país vizinho do Brasil, com bombardeios que mataram 77 pessoas (segundo dados de ONGs e da imprensa), Trump já mostrou que não vai deixar barato qualquer eleição nos países da América Latina. Com seu apoio econômico de US$ 20 bilhões, os EUA conseguiram garantir a maioria ao partido do presidente Javier Milei na eleição legislativa. No Brasil, Trump puniu o ministro Alexandre de Moraes e outros ministros do STF, com a Lei Magnitsky, por conta dos processos contra Jair Bolsonaro. Em outubro, o país realiza a primeira eleição geral após a tentativa de golpe de Estado, orquestrada por Bolsonaro para impedir a posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Na primeira pesquisa eleitoral de 2026 sob a legislação eleitoral, divulgada nesta terça-feira, 13/01, pelo Instituto Ideia, Lula da Silva lidera todos os cenários testados para o primeiro e o segundo turnos, contra os governadores Tarcísio de Freitas, Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado e Romeu Zema; o senador Flávio Bolsonaro e a enteada Michelle Bolsonaro. Logicamente, Trump vai, sim, interferir na eleição do Brasil, maior país da América Latina, presidido pelo petista que se destaca no mundo também por tomar posições contrárias às políticas externas do colega norte-americano, a partir dos tarifaços.
Logicamente, a tentativa de golpe, com culminância em 8 de janeiro de 2023, não caiu no esquecimento, apesar do fracasso. O Congresso está dominado pelo Centrão, grupo que virou incubadora de golpistas, sob o controle ideológico da extrema-direita bolsonarista. Mesmo com a prisão de dezenas deles, inclusive Jair Bolsonaro, Lula permanece acuado pela pressão do Congresso, que estende suas ações ameaçadoras rumo aos ministros da Suprema Corte. Logo, nada impede que o golpe fracassado seja remodelado e adaptado à nova ordem mundial, emanada do “imperador” norte-americano do século XXI.
Com a experiência política de três mandatos presidenciais, sua visão atualizada do mundo dominado por tecnologias digitais e a nova ordem multipolar, com centros de poder nos EUA, China, União Europeia, Rússia, Índia e Brasil, as eleições prometem ser tão importantes quanto as de 1989, a primeira depois do golpe militar de 1964. A “química” com Lula, que fez Trump respeitar o Brasil, não significa que haja liga nas eleições. Por isso, o petista está com todo o seu time em campo, buscando alianças que resultem na ampliação da base governista no Congresso. Portanto, até a Quarta-feira de Cinzas, muita bola vai rolar na política do Brasil e do Maranhão, a partir das demissões nos ministérios e nas secretarias.
