19 de abril de 2026
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Os 44 anos de voto direto, que mudaram o Maranhão

Por Raimundo Borges

O Imparcial – Já se foram 44 anos em que o Brasil e o mundo passaram por profundas mudanças políticas, sociais, econômicas e, principalmente, tecnológicas. 1982 foi marcado pela volta das eleições diretas para governador nos estados e territórios, suprimidas em 1966 pelo AI-3, que sucedeu o AI-2, de 1965. O ditador marechal Castelo Branco extinguira os partidos e tornou indireta a escolha de governador pelas assembleias legislativas. Em 1979, acabou o bipartidarismo e, no Maranhão, a disputa pelo Palácio dos Leões ocorreu entre o deputado federal Luiz Rocha (PDS) e Renato Archer (PMDB), codoense, capitão de fragata, filho do ex-governador Sebastião Archer; Reginaldo Sousa (PDT), Osvaldo Alencar (PT) e Cesário Coimbra (PTB).

Nesses 44 anos, o Maranhão passou por uma revolução no campo, antes dominado pela agricultura de subsistência, roças de toco, arroz de sequeiro e o babaçu como uma de suas principais molas da economia popular. A região de cerrado de Balsas começava a ser “descoberta” pelos gaúchos com suas máquinas agrícolas, aplicadas no plantio e na colheita de arroz e soja, naquele imenso espaço de chapadas, latifúndios, terras devolutas, baratas e griladas. Hoje, por qualquer ângulo que se olhe, nada, portanto, tem aparência das eleições de 2026, já com cinco pré-candidatos rumo ao governo do Estado.

Desde as regras que definem a campanha eleitoral até o número de partidos, além do avanço da democracia para as áreas sociais, jurídicas, políticas, econômicas e tecnológicas, o Maranhão e o Brasil atravessaram um caminho difícil, com lutas que fizeram a engrenagem do desenvolvimento andar com mais velocidade. A disputa pelo Palácio dos Leões mudou o jeito de fazer política, está desmantelando as oligarquias municipais e valorizando o voto como principal fonte da democracia brasileira. Até a divisão ideológica que polariza, em 2026, a eleição presidencial, no Maranhão tem coloração e jeito próprios de ser.

Em 1982, nem se falava em internet na campanha, muito menos em celular com suas ferramentas usadas na política. Nas eleições de 15 de novembro, o candidato Luiz Rocha usou como símbolo de campanha uma enxada, mensagem de quem tinha origem no campo e que trabalharia em prol do desenvolvimento da agricultura. Usando linguagem de sertanejo, Rocha foi eleito com 76% dos votos (678 mil), contra 20% de Renato Archer, que tinha como vice-governador o advogado Aureliano Neto, representante de Imperatriz. Hoje, é juiz aposentado, membro da AML, escritor e articulista de O Imparcial. Já o petebista Cesário Coimbra obteve escassos 632 votos.

A candidatura de Luiz Rocha resultou de um acordo de pacificação política entre João Castelo, último governador biônico da ditadura, e José Sarney, último governador eleito pelo voto direto em 1965, no amanhecer do regime militar de 1964. Indicado por Sarney, tinha como vice o engenheiro e primo João Rodolfo. Castelo foi eleito senador, e o PDS só não elegeu Cid Carvalho, Epitácio Cafeteira e Vagner Lago, do PMDB. Dos 41 deputados estaduais, o PMDB elegeu oito, sendo Haroldo Saboia o mais votado e Gervásio Santos o menos. Filho de Loreto, depois pecuarista e produtor de arroz em Balsas, Luiz Rocha, quando estudante, foi presidente da Umes em São Luís e vice da UNE, com José Serra na presidência.

Aquele acordo de Sarney com Castelo, a exemplo do celebrado em 2022 entre Carlos Brandão e Flávio Dino, acabou em crise e rompimento. No fim do governo, Luiz Rocha não saiu para disputar o Senado e ficou sozinho, sofrendo uma campanha implacável da oposição. Na posse do sucessor Epitácio Cafeteira, em 1986, ele sequer pôde cumprir o ato de passar a faixa. O novo governador mandou avisar que não queria encontrá-lo no Palácio dos Leões, pois estava com a faixa verdadeira em casa, e a de Luiz Rocha era uma réplica que mandou fazer no Rio, quando deu falta da original no cerimonial do Palácio. Quem recebeu a faixa foi o oficial de dia da PM, responsável pela guarda dos Leões, e Cafeteira recebeu a sua, das mãos de Ricardo Murad, presidente da Alema. É a fuzarca da política do Maranhão que nunca envelhece.

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