100 anos de uma catedral de papel
Por Raimundo Borges
O Imparcial – O jornal é uma catedral nunca terminada, na qual o trabalho é a informação apurada, com a liberdade de fazê-la chegar à sociedade. O Imparcial juntou cada notícia em suas páginas como quem garimpa, no dia a dia, uma imprensa sem amarras. Já se passaram 36.500 dias desde aquela manhã de 1º de maio de 1926, quando o jornal do empresário João Pires Ferreira, pela primeira vez, apareceu nas ruas de São Luís, sendo ele próprio a notícia anunciada na voz dos jornaleiros: “Olha O Imparcial!”. Aquele 1º de maio, como Dia do Trabalhador, marcou um momento crucial na história trabalhista, com a greve geral na Inglaterra, uma das maiores paralisações industriais do século XX, com repercussão no mundo.
Como empresa jornalística, A Pacotilha foi gerada dentro de uma importadora dos irmãos João e José Pires Ferreira, localizada na rua que mais tarde foi chamada de 10 de Novembro, demolida em 1941 para o interventor Paulo Ramos construir a Avenida Magalhães de Almeida, ligando o novo Mercado Central à beira-mar. Só em 1944, quando o jornal foi comprado pelo jornalista Assis Chateaubriand, ocorreu a mudança de endereço para a Rua Afonso Pena. Ele veio a São Luís e ainda tentou adquirir o prédio azulejado da Rua Osvaldo Cruz, hoje Palacete Gentil Braga. Porém, ao se deparar com o sobradão de quatro andares, na Afonso Pena, 46, Chateaubriand não pensou duas vezes.
Foi naquele endereço, durante 55 anos, que a catedral de papel dos Diários Associados passou pelas maiores mudanças, até chegar ao bairro Renascença II. Na jornada, O Imparcial sofreu pressões políticas, concorrência desleal e até tentativa de compra por políticos mal-intencionados, mas resistiu firme, com determinação, a pena da imparcialidade, coragem e capacidade de se reinventar diante das tecnologias. Chegar a 100 anos, em um estado com pesada história de atraso, é muito mais do que buscar lucro. É uma jornada tocada à força da ideia, movida pelo desejo de servir, educar pela leitura, informar e transformar, pelo idealismo de um jornalismo calcado na boa apuração.

Pela redação de O Imparcial passaram uma infinidade de advogados, políticos, pesquisadores, escritores renomados, operários e jornaleiros – estes como pontas de lança dessa construção sem prazo para terminar. O Imparcial testemunhou a cidade de São Luís passar de 30 mil habitantes para mais de um milhão e participou de suas transformações como veículo de informação, tangido pela boa prática do jornalismo, num processo contínuo de mediação entre fatos e a sociedade. Funciona simultaneamente como a porta de entrada para a compreensão de uma realidade (começo), como meio de consolidação da memória e da interpretação dos acontecimentos (fim).
Em 1990, um fato curioso marcou a memória do jornalista Raimundo Borges. No final da campanha para governador do Maranhão, quis a opinião do candidato Edison Lobão (PFL) sobre a expectativa da votação. Ele mostrou-se otimista; porém, aproveitou para tecer ligeiras considerações sobre a cobertura da campanha por O Imparcial, que teria beneficiado mais o concorrente João Castelo (PRN). Ao ouvir Castelo sobre o mesmo tema, curiosamente, ele também reclamou de que o jornal teria dado mais ênfase ao palanque de Lobão. Conclusão: a cobertura foi realmente equilibrada, levando-se em conta a própria avaliação dos dois principais candidatos ao Palácio dos Leões, vencida por Lobão.
Quando se relembra a história política, vale destacar que, em 1926, não havia governador, mas sim “presidente” do Maranhão (Magalhães de Almeida). Portanto, trata-se de um século em que o Brasil viveu um contínuo processo de evolução política, com golpes de Estado, Congresso fechado, militares impostores no Poder Central, a democracia usada como trampolim para sua própria destruição, governadores e prefeitos biônicos, sem passarem pelo crivo das urnas, e também avanços econômicos, sociais, políticos e tecnológicos, como os atuais. Logo, as eleições de 2026 projetam um cenário de profunda mudança na construção da catedral da democracia brasileira, com 100 anos de registros nas páginas de O Imparcial.


