As lições da cassação de prefeito do PL com vice do PT em Estreito
Por Raimundo Borges
O Imparcial – O que faz da política a ciência social mais complexa nas relações humanas é a combinação de fatores que envolvem interesses difusos, ambição pelo poder, clareza, convicção, emoção, contradição e ideologia. Portanto, não poderia dar certo a única coligação no país, realizada em Estreito, no sudoeste do Maranhão, entre o PL e o PT, que venceu a eleição em 2024. Acusado de abuso de poder econômico em diferentes formatos, o prefeito Léo Cunha, empresário do PL em Imperatriz, e sua vice, Irenilde da Silva (PT), professora com forte liderança na área em que atua, foram cassados pela Justiça Eleitoral. Embora o ato não tenha relação com desavenças ideológicas, abre espaço para amplo debate e conclusões.
A autêntica união dos contrários entre dois partidos que, nacionalmente, travam uma batalha ideológica de vida ou morte, foi possível em Estreito pela força política regional do deputado federal Josimar do Maranhãozinho. Ele é o mandachuva no PL estadual, mesmo sendo odiado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. Ele até tentou “expurgar” Josimar do PL, mas o presidente da legenda, Valdemar da Costa Neto, fez ouvidos de mercador quando o “mito” xingou o deputado de “bandido” e contumaz em fazer besteira, mesmo sendo responsável pela eleição de 40 prefeitos no Maranhão em 2024. Mas Michelle Bolsonaro tomou o PL Mulher da deputada Detinha e o entregou à vereadora de São Luís, Flávia Berthier.
A dupla da prefeitura de Estreito não está afastada dos cargos porque ainda pode recorrer. Mas o juiz Bruno Nayro de Andrade Miranda, da 82ª Zona Eleitoral do Maranhão, condenou o prefeito Léo Cunha à inelegibilidade por 8 anos, devido à gravidade das ações ilegais durante a campanha. Já a vice, Irenilde da Silva, escapou da inelegibilidade por ser considerada uma participante passiva nas irregularidades apontadas no processo. De qualquer maneira, as cassações servem também de alerta para vários outros casos idênticos que correm na Justiça maranhense contra prefeitos, por abuso de poder político e econômico.
O estrago nos dois partidos, no entanto, não chega a ser tão significativo, tanto pelo baixo reduto eleitoral de Estreito quanto pela possibilidade de a cassação ainda vir a ser anulada pelas instâncias superiores da Justiça. Porém, como o fato aconteceu em plena pré-campanha, o PT foi o que menos perdeu nessa “união instável” entre os dois partidos que se digladiam ferozmente na conjuntura nacional. O líder do PL estadual, Josimar, tem pouco a fazer por Léo Cunha em razão de vários problemas que enfrenta no Supremo Tribunal Federal sobre o mau uso de verbas de emendas parlamentares.
Segundo Maquiavel, a política é a arte de conquistar o poder, alimentar o ego, processar a combustão que move as ações e influenciar a governabilidade. No Brasil de hoje, o maquiavelismo está presente nos embates políticos e nas decisões de integrantes dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. É tudo uma mistura de difícil compreensão para as camadas da sociedade. No contexto específico de Estreito, a ideia de que a união dos contrários dá azar pode estar além da superstição. Mesmo sendo um processo sem relação partidária, pode acabar se desdobrando em um final imprevisível, que seria a realização de uma eleição suplementar sem os atuais protagonistas do município.
No mandato passado, pelo menos 96 prefeitos foram cassados no Brasil. Dos eleitos em 2024, 26 não tomaram posse por diversos motivos de ordem legal, e 10 chefes de capitais renunciaram em março passado para disputar as eleições de outubro deste ano. Um deles é Eduardo Braide, do PSD, que está em campanha para governador do Maranhão. Já os casos de suspensão, cassação e afastamento do cargo se acumulam em vários municípios pelo país afora, inclusive no Maranhão. Todos esses imbróglios servem de lição para as eleições gerais deste ano perante o eleitorado.

