14 de maio de 2026
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As oligarquias maranhenses na raiz do imbróglio de 2026

Por Raimundo Borges

O Imparcial – A história política do Maranhão é rica em contradições, solavancos, revoltas e reviravoltas. Desde a Independência do Brasil, em 1822, o Estado tem mostrado o seu lado torto de ser. Resistiu por 10 meses e 21 dias a aderir ao ato mais importante da história do Brasil ao se separar de Portugal pela bravura de D. Pedro I. As elites políticas e econômicas do Maranhão, formadas por portugueses, temendo perder seus privilégios, resistiram o quanto puderam à separação, ocorrida só em 28 de julho de 1823. Mesmo assim, isso só foi possível após intensos conflitos e um bloqueio naval liderado pelo mercenário inglês Lord Cochrane, que ameaçou bombardear São Luís caso a província não se rendesse.

Passados 203 anos daquele episódio, o Maranhão permanece lutando pela independência econômica e social que o faça aparecer nas manchetes não como “o estado mais pobre do Brasil”. Porém, por trás desse rótulo estão histórias, dados curiosos e situações em que se misturam potencial econômico, desigualdade extrema, migração em massa e educação distante da população pobre — de 79% de negros e apenas 10,5% com ensino superior completo, segundo dados do Imesc, de 2025. Na política, o Maranhão tem o seu cotidiano repleto de contrastes sociais, com o centro do poder saltando de oligarquia em oligarquia.

Tais contrastes têm raízes nas elites urbanas interagindo com o coronelismo rural do latifúndio improdutivo e da grilagem violenta de terras públicas por fraudes cartoriais. Tudo isso voltou em novo formato: o agronegócio aprofunda o fosso social entre ricos e pobres no interior do Maranhão. Os imensos campos de soja, milho e algodão, operados com alta tecnologia, têm pouco aproveitamento de mão de obra local, enquanto a população pobre precisa se virar na secular quebra do coco babaçu, nas roças de toco cada vez menores e com os jovens migrando para colheitas de uva, laranja e outras frutas no Sul do Brasil.

As oligarquias políticas foram a fonte do atraso maranhense. A de Vitorino Freire, chamada de período vitorinista, funcionou entre 1945 e 1965, quando José Sarney foi eleito governador. Rompido com o seu passado político, passou a dominar o Maranhão e depois o Brasil. Apenas o médico Nunes Freire foi governador biônico, indicado pelos militares da ditadura, sem a bênção de José Sarney. Em 2014, Flávio Dino derrotou Edinho Lobão, com Roseana Sarney em sua quarta temporada no Palácio dos Leões. Num arranjo do PCdoB com o PSDB de Aécio Neves, a vice caiu no colo de Carlos Brandão. O Maranhão ficou sob o dinismo até 2022, quando Dino foi eleito senador e Brandão governador, ambos já no PSB.

Em 2026, o dinismo se pulverizou sem se tornar uma nova oligarquia. Carlos Brandão e Flávio Dino, ministro do Supremo Tribunal Federal, estão rompidos, enquanto a disputa pelo governo entrou num episódio histórico inusitado. Brandão está sem partido, mas o irmão Marcus assumiu o comando do MDB maranhense e o repassou ao filho Orleans, candidato a governador na sucessão do tio. É uma situação parecida com a de 1965, quando Sarney rompeu com Vitorino Freire e derrotou Costa Rodrigues, apoiado pelo governador Newton Bello. Foi o último suspiro do vitorinismo e o nascimento do sarneísmo, o mais longo período de domínio político da história do Maranhão.

Como o vice Felipe Camarão é do PT, o partido está com a maioria de suas lideranças dentro do governo Carlos Brandão — hoje adversários. Até o presidente Lula apoia Camarão ao Palácio dos Leões, mas também não rejeita o palanque de Orleans, que pode ter Roseana Sarney compondo a chapa como candidata ao Senado. Dessa forma, o PT de Lula estará com uma perna no palanque de Camarão e outra no de Orleans. São vários PTs debaixo da mesma sigla, mas dançando conforme a música tocada pelo pragmatismo eleitoral. Num Brasil dividido pela eleição presidencial, com Lula em guerra contra o bolsonarismo, tudo o que vier a acontecer no Maranhão não está escrito nos manuais da política.

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