
As diferenças entre João Alberto e Camarão como vice-governadores
Por Raimundo Borges
O Imparcial – Desde o distante ano de 1947, quando foi criada a figura do vice-governador do Maranhão, copiando o que fixou a Constituição Federal de 1946 com o vice-presidente da República, até hoje nenhum desses mandatários foi eleito sem estar no cargo no Palácio dos Leões. É esse retrospecto histórico que o atual vice-governador Felipe Camarão se propõe a interromper, mesmo aparecendo nas pesquisas a uma distância quilométrica dos dois principais concorrentes, Eduardo Braide (PSD) e Orleans Brandão (MDB). Piora ainda a situação por ter de enfrentar a máquina do governo do qual faz parte, na condição de adversário do titular Carlos Brandão, atuando fortemente em favor do parente Orleans.
O primeiro vice-governador, Saturnino Bello, o Satu Bello, foi eleito indiretamente pela Assembleia Legislativa, no contexto da redemocratização do Brasil em 1945, com o fim do Estado Novo de Getúlio Vargas. As eleições estaduais, em dezembro daquele ano, foram convocadas para eleger a Assembleia Constituinte do Maranhão. O parlamento escolheu Eleazar Campos governador e Satu vice, a partir de fevereiro de 1946. No interregno político, Satu virou peça importante no organograma do governo, inclusive como membro do Tribunal de Contas do Estado, por ele criado. Em 1947, Satu Bello foi sucedido na vice pelo jornalista e deputado João Pires Ferreira, fundador de O Imparcial, que o vendeu, em 1944, para o jornalista e empresário Assis Chateaubriand.

Na década de 1950, Satu Bello candidatou-se novamente ao cargo de governador, depois de romper com Vitorino Freire, mas perdeu no conturbado movimento chamado “Greve de 51”, causado por fraudes eleitorais. Por sua vez, o atual vereador de Bacabal, João Alberto de Souza (MDB), foi o único a ser vice-governador duas vezes. Entre abril de 1990 e 1991, ele chegou ao governo em substituição a Epitácio Cafeteira, que se desincompatibilizou para concorrer ao Senado. O ato se deu em meio a uma controvérsia jurídica. Alberto, eleito prefeito de Bacabal em 1988, tirou licença, ao invés de renunciar ao mandato para assumir o governo.
Após tomar posse, explodiu uma crise. João Alberto teve que se armar de pistola no gabinete do Palácio dos Leões e mandar a Polícia Militar cercá-lo, com ordem de atirar em quem tentasse invadir. A ameaça real vinha da Assembleia Legislativa, que elegeu o presidente Ivar Saldanha como governador e deu-lhe posse formal. Porém, uma liminar do TJMA manteve João Alberto no cargo até 1991, quando passou a faixa ao sucessor, Edison Lobão. Hoje, com 90 anos e vereador mais votado de Bacabal, Alberto é uma das figuras mais marcantes dos últimos 60 anos na história da política do Maranhão. É também o político mais leal aos Sarney antes, durante e depois de o patriarca ser presidente do Brasil.
No outro período de vice-governador, João Alberto era deputado federal, quando se licenciou para assumir a Secretaria de Governo de Roseana Sarney, tendo sido eleito senador em 1998. Em 1992, havia sido derrotado na disputa pela Prefeitura de São Luís por Conceição Andrade, apoiada por Jackson Lago (PDT). Em 2006, ele derrotou Roseana Sarney na disputa pelo governo do Maranhão, com João Alberto na vice. No entanto, em 2009, Jackson foi cassado pelo TSE, seus votos foram anulados e Roseana assumiu, com Alberto fazendo história como o único maranhense a ser eleito duas vezes vice-governador.
Agora, quem se dispõe a se tornar o primeiro vice-governador a disputar a titularidade do cargo, fora do Palácio dos Leões e na oposição ao titular no mandato, é o professor de Direito Felipe Camarão, filiado ao PT. Ele marcou a convenção estadual para o próximo dia 1º de agosto, um dia antes da convenção nacional, que oficializará o presidente Lula como candidato à reeleição. Significa que o PT maranhense enfrenta uma nova onda de turbulência, bastante diferente da observada nas eleições anteriores. Ao contrário de João Alberto, o vice Camarão está no meio de uma tempestade, cujo principal timoneiro eleitoral no Maranhão é o presidente Lula.

