Suprema baixaria na sessão histórica do STF
Por Raimundo Borges
O Imparcial – A exemplo da polarização nas eleições brasileiras, o Supremo Tribunal Federal também está com o plenário dividido meio a meio. Foi o que se pôde ver nesta terça-feira, na sessão extraordinária e a mais desbocada entre os seus togados.
Como consequência, o desfecho daquele bate-boca vai se alongar até o próximo dia 23, quando os ministros vão para o tudo ou nada no segundo round da maior crise da Suprema Corte, sem prazo para acabar e sem lição de justiça a deixar aos brasileiros. A cada nova onda de vazamentos do escândalo de Daniel Vorcaro, seus tentáculos sacodem a Praça dos Três Poderes.
Como o STF nunca havia passado por uma encrenca de tamanha magnitude, a sessão de ontem, que se prolongará nos bastidores e na política até o dia 23, foi marcada por um ambiente de tensão, pouco resultado sobre o tema central da agenda e um palavreado nunca visto nas sessões da Corte.
Nem nos momentos mais graves da história brasileira os ministros da toga mais valiosa do Poder Judiciário se incomodaram com as transmissões televisivas ao vivo para o Brasil e o mundo. Afinal, é o STF debatendo corrupção, acusações de perseguição e desvio de conduta entre Alexandre de Moraes, André Mendonça e outros três citados no lamaçal de Daniel Vorcaro.
A escultura da Deusa Themis, plantada em frente ao STF, estremeceu na base, cimentada pelas mãos do escultor mineiro Alfredo Ceschiatti. Ela representa uma mulher, sentada e vendada, segurando a espada, como um dos símbolos mais usados para caracterizar as deusas greco-romanas das leis e da justiça.
É o símbolo do Poder Judiciário brasileiro, mas a crise ao seu redor nasceu, evolui e está com imenso grau de interferência nas eleições de 4 de outubro, principalmente a do Palácio do Planalto. A crise virou o paiol de bombas prontas para detonar até a democracia, beirando os 35 anos da Carta de 1988.
A guerra do STF, que Fachin tentou conduzir com sobriedade, foi transferida para mais perto ainda das eleições, com suas revelações estrondosas dentro e fora do Palácio guarnecido pela Deusa Themis.
No dia 8 de janeiro de 2023, a escultura foi vandalizada até pelo batom de uma dama chamada Débora Rodrigues, com a expressão: “Perdeu, mané”, aludindo a uma frase dita por Luís Roberto Barroso, ministro do STF, a apoiadores pró-Bolsonaro, após o resultado da eleição presidencial em 2022. Em 13 de dezembro de 2024, em novos atos terroristas, um homem ateou fogo de artifício na mesma estátua da Justiça.
Seja como for, o que mais se realçou na sessão extraordinária do STF foi o rito litúrgico do Plenário. Bate-boca, dedo em riste, ofensas e um presidente embaralhado no jogo colegial que, apesar de tudo, ficará na história do Supremo como uma ignomínia na cúpula do poder mais alto do Brasil.
Tudo orquestrado pela manipulação de poderosos da República a cargo do banqueiro Daniel Vorcaro, com a sua incrível capacidade de gangster, ao distribuir milhões e milhões de reais a quem pudesse salvar o Banco Master, prática fora de todos os mecanismos adotados pelo sistema financeiro.
O banqueiro, preso antes de fugir para Dubai, manteve uma rede de contatos e contratos empresariais com parentes de ministros do STF: mulher de Alexandre de Moraes, filho de Kassio Nunes Marques, negócio com Dias Tóffoli, encontro com André Mendonça e vários políticos, entre eles o candidato presidencial Flávio Bolsonaro (PL).
Tudo está nos relatórios da Polícia Federal e da PGR e nos vazamentos que surgiram dessa documentação, parte dela pinçada para a imprensa, conforme o interesse em jogo. Flávio Dino questionou o rito e a decisão do presidente Edson Fachin, enquanto o decano Gilmar Mendes perguntou, ironicamente: “Quem é o vazador-geral da República?”

