22 de setembro de 2026
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A centenária de Jaguarana e os seus exemplos de vida

Por Raimundo Borges
Jornalista e membro da Academia Caxiense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Caxias.

A localidade Jaguarana não é circunscrita como povoado, aldeia ou vilarejo. Também não está demarcada no mapa de Caxias, nem nos livros de história e de geografia. Mas está sintetizada no cordão umbilical ali enterrado de cada morador em mais de 150 anos daquele lugar, ora de vegetação acinzentada da caatinga do sertão maranhense, cercado pelos morros da Taboca, do Alecrim e do Macaco, ora pelos babaçuais e carnaubais, que compõem o autêntico bioma do cerrado, como um animal que se garante no mimetismo da natureza – seis meses de vegetação verde e seis meses de verão seco e cobertura florestal cinzenta.

A população ‘jaguaranense’ talvez não chegue a 110 pessoas, residentes em pouco mais de 28 casas de taipa, quase todas cobertas de palha de babaçu, palmeiral que margeia o Riacho das Cajazeiras e se junta às espécies de carnaúba, buriti, tucum e pati, árvores entremeadas de aroeira, gonçaleiro, caatinga-branca, jatobá, pau-ferro, angico e angelim. Os nascidos ali formam famílias seculares de amizade sem fim e de parcerias que se arrastam por geração em geração. Suas raízes se perdem na poeira do tempo, na simplicidade da vida, com o presente abraçado a um futuro sustentado no calor humano e no respeito aos mais velhos.

Grande parte daquela comunidade jaguaranense, estabelecida no 3º Distrito, distante 42 quilômetros da cidade de Caxias (merecidamente tratada como Princesa do Sertão), tem uma relação ancestral de parentesco, ou é originária de piauienses fugidos das inclementes secas que devastavam o Nordeste no decorrer do século 20, ou de outros pontos do Maranhão. Parte dela descende da população rural do Piauí e Ceará, caminhantes de corpo esquelético, barriga vazia, matulão às costas e fé na mente, medida pelas passadas nos caminhos rastreados nas alpercatas artesanais em busca do lugar de terra molhada para viver, produzir e resistir a tudo.

Que lugar é esse?

O lugar não importava, os meios de alcançá-lo, também não. Mas seguiam, embrenhados por estradas empoeiradas, caminhos sem rumo definido, matulão de molambos, barriga roncando e cabeça cheia de fé nos santos que dão nome a grande parte daquela gente. Era nesse mundo de incertezas, ambiente de verão que estorrica a terra, inverno que enche os riachos, grotas que roncam na correnteza, tabuleiros que enverdecem, mandacarus que brotam flores, roças que se enchem de fartura e sonhos realizados, que Jaguarana passou séculos assistindo à passagem do tempo, sem pressa, sem mudança.

Em meio aos jaguaranenses nasceu Lídia da Silva Rios. Menina que cresceu na roça plantando arroz, mandioca, milho e feijão ao lado do pai, Raimundo Leôncio da Silva – sobrenome mais registrado nos cartórios do Brasil. Na juventude, não gostava de festa, não se interessou por nenhum rapaz e nem os rapazes a viram como uma futura esposa. O tempo foi passando e Lídia nem se dava conta de que a vida de solteira não disponível tinha seus motivos pessoais: ter a liberdade como companheira. Levava a vida do jeito que lhe convinha e como o ambiente lhe permitia. Sem escola em Jaguarana, ela e 98% dos contemporâneos cresceram e viveram na escuridão do analfabetismo. Até a década de 60, havia dois eleitores em Jaguarana: Demétria Maria da Silva, minha querida mãe, descendente do Piauí, e Antonil da Silva, filho da terra e irmão de Lídia.

Um esteio de aroeira

Antes de perder o pai e a mãe e ficar sem marido, cansada da roça e da quebra do babaçu, Lídia virou costureira dos familiares e amigos. Até altas horas da noite, como um esteio de aroeira fincado na terra dura, ela costurava, bordava e fazia o acabamento das roupas sob a luz de uma lamparina a querosene. Viveu indiferente ao que se passava em volta. Alheia a quase tudo, nem prestava atenção em quem saía e chegava para morar em Jaguarana. Enquanto isso, o mundo à distância se transformava, com o rádio de pilha, a televisão em preto e branco, os foguetes rasgando o espaço sideral e a indústria de transformação expandindo as cidades, mudando costumes – e Lídia da Silva, indiferente.

Os anos se passavam, as décadas se sucediam e Lídia não se dava conta se lá fora mudava a moeda, ou se chegava um televisor na sala; se mudava o presidente do Brasil, o governador ou o prefeito de Caxias. Morando só na companhia de um cão vira-lata, que também se ia e outro que vinha. Mas nunca estava só. Os familiares e vizinhos lhe faziam companhia e lhe davam conforto, aprendiam suas lições de vida e espantavam a solidão.

Nunca viu o mar

Lídia nunca viu o mar, nunca usou um maiô, nunca saiu de Jaguarana, não precisou de médico até décadas passadas. Cura-se com chás de alecrim-do-campo, capim-limão ou açafrão colhido no mato. Come o que a roça e o quintal lhe oferecem de melhor: arroz, feijão, mandioca e milho, galinha caipira. Autêntica vida movida à simplicidade, ao contato direto com a natureza e ao ritmo do tempo sem escala; da imensidão do céu, do vento roçando na palha da casa. Tipo de vida que representa resgatar valores essenciais, priorizar a paz sem o barulho das grandes cidades e ter o encontro com a alegria nas coisas básicas do dia a dia.

Aquela mocinha nascida em 1923 e inupta até 2026 se adaptou ao mundo sem energia elétrica até 2015, sem escola e sem um amor para dividir afazeres e emoções, mas sabendo o que importa para ser feliz, amando a si mesma, valorizando o temor a Deus, até se tornar a única mulher centenária atualmente em Jaguarana. Antes dela, foi a quebradeira de coco Maria André, que também viveu 101 anos e deixou uma renca de filhos, netos e bisnetos. No dia 3 de agosto, Lídia da Silva Rios completou 103 anos, vivendo a lucidez incomum num lugar insólito. Em sua casinha de taipa, ela dá exemplo de superação, de coragem e de resistência invulgar sob os fluidos da natureza.

Em mais de um século, Lídia não viu a evolução do mundo, não tomou um banho de mar, não teve marido e filhos, não conheceu uma cidade grande, mas não sofre por ter vivido bebendo água de cacimba no pote, montado na cantareira da sala. Nunca reclamou da vida transbordante de simplicidade e de valores que a faz uma mulher especial, de espírito grandioso para uma sociedade oprimida pela busca do que imagina ser a solução, pela fome de consumo, pela ambição e pela pouca fé no outro.

No dizer da bacharela em Direito Edilene Rios, sobrinha-neta de Lídia, a centenária carrega consigo uma trajetória marcada pelo trabalho, pela honestidade e pela simplicidade de um ser humano extraordinário, movido pela força de ser uma mulher especial. “É a certeza de que cada pessoa constrói sua trajetória de vida, superdimensionada pelos valores e pelos sábios exemplos para quem quiser deles se apropriar”. Ela não está só. No grupo com mais de 100 anos no Maranhão, o IBGE indica 2.470 pessoas. Mas Lídia é, particularmente, única.

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