Católicos mais com Lula, evangélicos mais com Flávio: o que as pesquisas mostram sobre a batalha do voto e as religiões
A poucos dias das eleições, uma questão religiosa tem sido o centro da disputa entre as campanhas à Presidência de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). O embate ganhou força quando se espalhou que Flávio, evangélico, supostamente pretendia retirar o título de “padroeira do Brasil” de Nossa Senhora Aparecida. A santa é um dos principais símbolos do catolicismo no país.
Com desdobramentos nos tribunais e assunto de discussões acaloradas nas redes sociais, a controvérsia pública atingiu grandes proporções ao envolver, no fim da corrida eleitoral, os dois maiores grupos religiosos do Brasil.
Católicos e evangélicos representam 79% dos brasileiros com 16 anos ou mais, segundo dados coletados pela Quaest no início de 2026 para uma pesquisa do Instituto de Estudos da Religião (ISER) — 50% se declaram católicos e 29%, evangélicos.
Hoje, a grande maioria das intenções de voto de católicos e evangélicos se concentra em Lula ou Flávio Bolsonaro. Na pesquisa Quaest divulgada na segunda-feira (28/9), os dois somam 77% das intenções entre católicos e 73% entre evangélicos no primeiro turno.
O presidente aparece à frente na preferência dos católicos, com 48%. O candidato do PL tem 29%. Mas Flávio lidera no segmento evangélico, com 46%, contra 27% de Lula.
O restante das respostas se divide entre candidatos com percentuais baixos em cada segmento: Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão) aparecem com 3% em cada um dos dois grupos, enquanto Romeu Zema (Novo) tem 1% em ambos.
Brancos, nulos e eleitores que dizem que não irão votar representam 8% entre os católicos e 10% entre os evangélicos. Os indecisos são, respectivamente, 5% e 6%.
Segundo a pesquisa, Lula cresce entre católicos e evangélicos. O levantamento, feito nos dias seguintes ao imbróglio em torno de Nossa Senhora, mostrou que, no primeiro turno, o presidente subiu cinco pontos percentuais (de 43% para 48%) das intenções de voto entre católicos em uma semana. Já entre os evangélicos, o crescimento foi de quatro pontos (de 23% para 27%). A margem de erro é de três pontos para católicos e de quatro para evangélicos.
Com os resultados, o presidente abriu 19 pontos de vantagem sobre Flávio entre os católicos. Ao considerar somente os evangélicos, o candidato do PL lidera com os mesmos 19 pontos de diferença, mas em movimento descendente. Na pesquisa anterior, as vantagens eram de 16 pontos para Lula nos católicos e de 26 pontos para Flávio nos evangélicos.
A mesma tendência é vista nas projeções de um eventual segundo turno. Embora Flávio amplie sua vantagem na ala evangélica e diminua a diferença entre os católicos, o presidente mostrou, na atual pesquisa, uma evolução maior do que a do adversário.
No eleitorado católico, Lula tem 50% e Flávio, 37% — na rodada anterior, eram 46% e 37%. Já no segmento evangélico, Flávio surge com 54% contra 30% de Lula. Uma semana antes, o placar era de 58% a 28%.
Lívia Reis, professora de Ciências Sociais na Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio) e coordenadora do ISER, diz que o fato político em torno do título da Nossa Senhora Aparecida pode ter impacto eleitoral, mas pondera que não é possível simplificá-lo nem estimar seu tamanho olhando apenas para dados referentes à religião dos eleitores.
Seria necessário haver um cruzamento com outros indicadores, como os de classe, raça ou região, para observar todas as variáveis em jogo e explicar uma oscilação eleitoral entre religiosos.
Isso porque um católico branco do Norte é muito diferente de um católico negro do Nordeste, por exemplo. Não daria para tratar ambos como se fossem o mesmo grupo. Seus valores se provam, estatisticamente, diz Reis, muito diferentes uns dos outros.
Como as pesquisas não divulgam todos os dados demográficos de seus levantamentos, o cruzamento torna-se impossível, e há, no momento, diversos pontos cegos para essa análise.
A professora dá como exemplo as diferenças dos votos entre evangélicos negros e brancos nas eleições passadas.
“A gente sabe que, em 2022, evangélicos negros votaram mais no Lula, enquanto os evangélicos brancos votaram mais no Bolsonaro”, afirma Reis.
Algo parecido se dá entre os católicos. Segundo pesquisa do ISER, o favoritismo do presidente na ala católica é sustentado por negros e pardos. Entre os católicos brancos, há empate.
“Não dá para saber se as oscilações nas pesquisas de agora vieram dos religiosos mais pobres ou dos mais ricos, nem se vieram dos brancos ou negros”, diz Reis. “Temos um limite para podermos conectar.”
A pesquisadora afirma que também é preciso considerar o impacto do pacote de benefícios sociais recém-anunciado pelo governo. Há duas semanas, Lula divulgou reajustes no Bolsa Família, medida aprovada por 59% dos eleitores, de acordo com a Quaest, e a terceira fase do Desenrola com compra de dívidas pela União.
“Ficou mais claro à população que as propostas entre os dois candidatos são distintas em relação à transferência de renda”, afirma Reis. “Os religiosos também percebem isso.”

Outro anúncio que pode ter influenciado o crescimento dos votos dos dois grupos religiosos em Lula é a proibição das bets, em vigor desde 25 de setembro. Dados da pesquisa “Religião e Vida Pública no Brasil”, do ISER, mostram que 90% da população concorda que apostas online viciam e destroem as famílias. A concordância é de 93% entre evangélicos e de 88% entre católicos.
Rodrigo Toniol, professor de Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diz que, embora seja precipitado associar a melhora de Lula à controvérsia sobre o título da santa, é possível afirmar que o episódio serviu para esquentar as eleições tidas como “mornas” e mobilizar os eleitores comuns e os militantes.
“A polêmica passa a ser o grande aglutinador do debate e condensa as estruturas que já estavam pré-determinadas”, diz Toniol.
“Assim, a desconfiança de muitos dos católicos com relação a um projeto de dominação evangélico ganha muita força. Não importa se a polêmica é verdade. O que importa é que produz um alinhamento de uma cadeia de associação de ideias.”
Toniol reforça que a explicação religiosa é sedutora, mas não justifica, sozinha, os movimentos das pesquisas eleitorais.
“É claro que há uma depuração estatística para dizer em que medida a religião é um componente determinante, mas, ainda assim, me parece que, quando começamos a produzir outros recortes, aparecem movimentos muito mais interessantes”, diz.
“Se olharmos, por exemplo, a série das três últimas pesquisas e pensarmos na classe C no segundo turno, a vantagem do Flávio caiu de 12 pontos para 3 nas últimas três rodadas. Acho que a classe C é a classe que vai determinar essa eleição.”

