Quando a multidão vota inquieta
Edson Vidigal*
– Cristo ou Barrabás?
Perguntou Pilatos à multidão inquieta. Procurador e ao mesmo tempo Juiz das infrações às leis de Roma, Poncio Pilatos – depois de interrogar Jesus de Nazaré, o Cristo, chegara à conclusão de que ele não cometera crime nenhum segundo as leis romanas.
Barrabás estava preso condenado sob a acusação de crimes comuns com violência, segundo as leis romanas, atentatórios à paz social. Naquele plebiscito presencial – consulta direta ao povo, se deveria cancelar a prisão de Barrabás e anistiá-lo ou entregar o Cristo ao julgamento por Caifás, da Velha Guarda do Templo, por violações às leis arcaicas do judaísmo retrógado daquele tempo.
Não, Jesus de Nazaré, que entrara em Jerusalém naquela manhã de domingo montado num jumento chegando a ser aclamado como o Rei dos Judeus – ao que ele contestou afirmando que o seu reino não era deste mundo; não! Nem de longe, Jesus Cristo poderia ser comparado a Barrabás. Naquele processo, não estava sob a jurisdição romana.
Então, Pilatos lavou as mãos simbolizando não abstenção, mas negando seguimento por incompetência absoluta de foro, ou seja, não tinha nada a ver com os afazeres daquele homem, já maior de idade (33 anos), um Filho de Deus!
A decisão da maioria popular redimiu Barrabás anistiando-o e atirou pesada cruz no ombro de Cristo, o qual a levou entre chibatadas ao Gólgota acabando crucificado até à morte física entre dois ladrões.
Isso aconteceu, realmente. Está nos evangelhos.
Pois foi esse homem quem ensinou, dentre outras lições eternas, – pelas arvores, conhecereis os frutos! E – Acautelai-vos dos falsos profetas; eles surgem vestidos em peles de cordeiros, mas por dentro são lobos vorazes!
Daqui até o próximo domingo, dias das eleições para Presidente, Governador, Senadores e Deputados, eles, os falsos profetas, ainda estarão por aí peruando o seu voto. Você pode até desconfiar quem são eles, mas diz que não vota nos candidatos que você acha que são do bem, que são honestos, bem-preparados para o novo trabalho; resolveu que não votará neles porque dizem por aí que eles não vão ganhar.
Ora, isso, mais que tudo, não ajuda em nada a democracia! É o mesmo que empurrar para o abismo o regime das liberdades públicas, dos direitos adquiridos, das conquistas sociais, da igualdade de todos perante a lei, da soberania nacional; o regime assim definido – do povo, pelo povo, para o povo.
Chacrinha, um popular animador de auditório de televisão no século passado, mandava para o Trono (do Poder) no palco, quem obtivesse mais aplausos.
– Vai para o trono ou não vai?
As torcidas organizadas, num arremedo caricato do tribunal que anistiou Barrabás e mandou Cristo para morrer crucificado no Gólgota, disputavam com os gritos mais altos e com os aplausos mais intensos quem deveria ir para o Trono.
(“Eu vou fazer uma torcida organizada / cada moça desmaiada / em pago cem mil reais / eu quero flores, quero faixa / desta vez ou vai ou racha / quero o mundo aos meus pés!”. Como jingles de campanhas, muitos entre os antigos cantores do rádio perseguiam o estrelato seguindo essa lógica.
A ser assim, o País não careceria mais de eleições. Bastava obter resultados de pesquisas, na verdade, apenas amostragens dispendiosas, e proclamar os eleitos!
Mussolini inventou o fascismo instigando o ódio nas massas populares que lotavam as praças às oposições democráticas. Entre os gritos de palavras de ordem e aplausos intensos, as multidões fanáticas viam no Duce o seu grande salvador. E deu no que deu. E ainda hoje, neste nosso tempo, há muita gente querendo que as coisas da política sejam como naquele tempo.
Dá para esquecer o mal que esconderam, mas logo depois disseminaram sob tentativas de golpes contra a soberania popular das eleições livres com pluripartidarismo e voto consciente e secreto?
Edson Vidigal, o autor, é Advogado. Foi Presidente do STJ e Corregedor Nacional do TSE.

