29 de outubro de 2026
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O exílio de Flávio na democracia ante o da esquerda na ditadura

Por Raimundo Borges

O Imparcial – Nem precisa ser filósofo para tentar-se desvendar o Paradoxo do Mentiroso, sobre a “frase mentirosa”. Pense e responda: Ela é verdadeira? Se você disser “sim”, a frase mentirosa é verdadeira, então o fato é como está dito, mas a frase mentirosa diz que ela é falsa. No dia seguinte à derrota eleitoral pelo presidente Lula, o senador Flávio Bolsonaro declarou em vídeo nas redes que a retenção de seus passaportes, ordenada pelo ministro Alexandre de Moraes, horas antes, era inaceitável perseguição.

Estaria baseado na fala do irmão, Eduardo Bolsonaro, dia 23, que deveria deixar o País se perdesse a eleição. “Eu nunca falei isso e não vou deixar o Brasil. Vou organizar a oposição ao Lula”, avisou.

Na mesma noite de 2ª feira, sem cumprir a ordem judicial e avisar o PL e aliados políticos, ele repetiu o gesto do pai Jair Bolsonaro em 30 de dezembro de 2022. Fez o último voo no avião presidencial rumo a Miami, onde acompanhou a tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023 e ficou mais três meses.

Nos desdobramentos das condenações e prisões sobre aqueles ataques à democracia, centenas de aliados e familiares bolsonaristas também fugiram do Brasil para a Argentina e os Estados Unidos, alguns capturados e outros não, como os ex-deputados federais Carla Zambelli e o ex-chefe da Abin Alexandre Ramagem.

Eduardo, o filho 02 de Jair Bolsonaro, abandonou voluntariamente o mandato e foi morar nos Estados Unidos, fora do alcance da Justiça, sendo destaque nas mídias internacionais. Cassado pela Câmara e demitido da Polícia Federal, onde tinha cargo de escrivão, ele leva vida de ricaço em solo americano.

Teve forte influência nos tarifaços decretados por Donald Trump contra o Brasil, graças à sua posição no contexto da direita latino-americana contra a esquerda lulista, apoiado por Marco Rubio. Agora, foi a vez de Flávio fazer uma fuga cinematográfica com a esposa e filhas, com o aval de Trump, que, no 1º turno, elogiou a eleição no Brasil e a posição de Flávio na frente de Lula, e agora fala em fraude.

Diante dos fatos paradoxais que tumultuam a política do Brasil, tanto Flávio quanto Trump se encaixam, filosoficamente, no clássico Paradoxo do Mentiroso, em que uma frase leva a uma contradição insolúvel: se ela for verdadeira, torna-se falsa; e, se for falsa, torna-se verdadeira.

Historicamente, ocorre hoje no Brasil um paradoxo clássico comparado à ditadura militar de 1964, quando quase 10 mil pessoas de esquerda se exilaram no Chile, na Europa e no Uruguai, até por terra no país vizinho. Hoje, com o Brasil em plena democracia e sob a Constituição de 1988, a direita que foge “como perseguida” é a mesma que defende ditadura e golpe militar, vestida na Bandeira Brasileira, dizendo-se “patriota”.

O golpe de 1964 fez com que o Brasil construísse, na rua, na dor e nas mortes, uma das democracias mais avançadas do mundo moderno, com lutas iniciais das organizações de esquerda, mas sem um líder nacional. Eram vários líderes atuando em partido ou em outras organizações sociais em que a democracia liberal se confrontava com a revolução socialista de inspiração chinesa ou cubana.

Em meio à pressão do regime sobre essas tendências, aparece Lula, um sindicalista intuitivo, destemido e líder absoluto, mas nunca radical e incendiário. Pelo contrário. A nova esquerda lulista remodelou a estratégia por democracia, reconciliação, anistia, eleições diretas e a Constituição de 1988.

As eleições de governadores e presidente fizeram a esquerda contemporânea mudar de postura, já dividida entre alas mais moderadas em coalizões de centro-esquerda e estabilidade institucional, mesmo com correntes mais radicais ou socialistas que continuam a criticar o modelo capitalista e o neoliberalismo.

Já a direita bolsonarista pegou carona no movimento mundial extremado, que atua fortemente em papel invertido contra o lulismo dos governos do PT, em época de tecnologias digitais aplicadas à política. Até a campanha encerrada, a esquerda era quase analógica, mas o povo a mudou com a força dos jovens e das mulheres nas redes e nas ruas, e venceu.

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