A desigualdade contra mulheres continua sendo uma das maiores vergonhas do mundo
Revista Fórum – Os números globais desmontam a narrativa confortável do progresso. Mulheres continuam vivendo sob sistemas jurídicos que reconhecem menos direitos, toleram violência e institucionalizam desigualdades.

Dia Internacional da Mulher não é uma data festiva. Funciona como um diagnóstico do nosso tempo. Quando os dados são colocados diante do mundo, a conclusão se impõe com nitidez incômoda: a igualdade entre homens e mulheres ainda não se tornou um princípio jurídico universal.
Nenhum país alcançou plena igualdade legal entre homens e mulheres. A média global indica que mulheres possuem apenas 64% dos direitos reconhecidos aos homens. O dado aparece no relatório do Secretário-Geral das Nações Unidas “Ensuring and Strengthening Access to Justice for All Women and Girls”, lançado em 4 de março de 2026, em Nova York, durante as atividades preparatórias da 70ª sessão da Commission on the Status of Women (CSW70). Esperei lançarem esse relatório para poder concluir esse artigo. Valeu a espera.
Mais do que uma estatística, esse número revela uma arquitetura silenciosa de desigualdade. Metade da população mundial continua vivendo sob sistemas legais que distribuem proteção jurídica de forma assimétrica.
Essa desigualdade não aparece apenas em discursos políticos ou debates acadêmicos. Ela está inscrita em códigos civis, legislações trabalhistas, tribunais e normas administrativas que moldam a vida cotidiana de bilhões de pessoas.
Os dados ajudam a dimensionar o problema.
Em 54% dos países do mundo, o estupro ainda não é definido juridicamente com base no consentimento. Na prática, isso significa que uma mulher pode sofrer violência sexual e encontrar um sistema legal incapaz de reconhecer plenamente o crime.
Outro indicador expõe a dimensão do atraso: cerca de três em cada quatro países ainda permitem algum tipo de casamento infantil ou forçado, frequentemente respaldado por exceções legais ou permissões familiares.
A desigualdade também atravessa o mercado de trabalho. Em 44% das nações não existe obrigação legal de pagar salários iguais para trabalho de igual valor.
Não é um detalhe técnico. Quando essa exigência não está inscrita na lei, a desigualdade salarial deixa de ser exceção e passa a ser tolerada institucionalmente.
Quando essas lacunas se combinam, o resultado é previsível.
O sistema jurídico — que deveria funcionar como proteção — passa a operar como filtro seletivo de direitos.
Os efeitos aparecem nos números globais da violência.
Cerca de uma em cada três mulheres no mundo já sofreu violência física ou sexual ao longo da vida, geralmente praticada por parceiros íntimos.
Outro levantamento internacional revela um dado ainda mais perturbador: mais de 370 milhões de meninas e mulheres vivas hoje sofreram estupro ou abuso sexual antes de completar 18 anos, segundo estimativa global divulgada pela UNICEF em 2024, baseada em pesquisas realizadas em dezenas de países.
Mesmo em regiões com instituições consolidadas, o problema permanece. Um estudo conduzido na União Europeia e publicado em março de 2026 pela Agência de Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA) mostrou que 30,7% das mulheres já sofreram algum tipo de violência física ou sexual, e a maioria desses casos nunca chega ao conhecimento das autoridades.
A subnotificação não nasce do acaso. Ela cresce em ambientes onde denunciar significa enfrentar processos humilhantes, descrédito institucional e riscos sociais.
Quando vítimas deixam de procurar o sistema judicial, algo essencial começa a se romper.
A confiança nas instituições desaparece.
Uma justiça que não alcança metade da população perde legitimidade.
Esse cenário convive com um paradoxo evidente.
A humanidade atravessa um período de transformações tecnológicas profundas. Inteligência artificial reorganiza mercados de trabalho, algoritmos orientam decisões financeiras e avanços científicos ampliam fronteiras da medicina.
Mas questões elementares sobre igualdade jurídica entre homens e mulheres continuam abertas em grande parte do planeta.
O contraste é evidente.
Sociedades capazes de desenvolver tecnologias sofisticadas ainda discutem direitos básicos ligados à autonomia feminina.
Em alguns contextos, o quadro tem se agravado.
Nos últimos anos, relatórios internacionais registraram tentativas de restringir direitos reprodutivos, enfraquecer legislações de proteção contra violência doméstica e reduzir políticas públicas voltadas à igualdade de gênero.
O ambiente digital ampliou essa pressão.
Mulheres que ocupam espaços públicos — jornalistas, pesquisadoras, políticas ou lideranças sociais — tornaram-se alvos frequentes de campanhas coordenadas de assédio online, perseguição digital e difamação.
A tecnologia ampliou as ferramentas de ataque mais rapidamente do que os mecanismos de proteção.
Estima-se que cerca de 1,8 bilhão de mulheres no mundo ainda não possuam proteção legal adequada contra violência digital, segundo relatórios internacionais publicados entre 2023 e 2025 sobre direitos digitais e segurança online.
Outro aspecto raramente discutido aparece na organização da economia doméstica.
Quando se somam trabalho formal e trabalho não remunerado, mulheres continuam assumindo uma carga desproporcional de responsabilidades familiares.
Pesquisas internacionais compiladas pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) indicam que mulheres dedicam cerca de dez horas semanais a mais que homens a tarefas domésticas e cuidados familiares, trabalho essencial para o funcionamento da sociedade, mas frequentemente invisível nas estatísticas econômicas.
Durante décadas, esse peso foi romantizado por uma narrativa cultural conhecida: a da supermulher.
A ideia parecia elogio, mas escondia um mecanismo silencioso de transferência de responsabilidades.
A expectativa implícita era simples: mulheres deveriam ser simultaneamente profissionais eficientes, cuidadoras permanentes, gestoras domésticas e referências emocionais.
Não era reconhecimento.
Era normalização da sobrecarga.
Milhões de mulheres não precisam provar resistência extraordinária.
Precisam de estruturas que deixem de exigir heroísmo diário.
Por isso, tratar igualdade de gênero como slogan institucional ou tema ritualizado de campanhas anuais não passa de retórica confortável. A transformação não ocorre em seminários comemorativos nem em hashtags sazonais. Ela aparece — ou não aparece — nas decisões concretas que distribuem poder, renda e oportunidades.
Os próprios relatórios internacionais ajudam a enxergar isso com clareza.
O Global Gender Gap Report 2025, publicado pelo World Economic Forum, mostra que, mantendo o ritmo atual, o mundo levará cerca de 131 anos para alcançar paridade econômica entre homens e mulheres. O estudo analisa dados de 146 países e revela que mulheres ocupam apenas 32% dos cargos de liderança globalmente, apesar de representarem quase metade da força de trabalho qualificada.
A desigualdade também aparece nas decisões de investimento.
Levantamento divulgado em 2024 pela consultoria McKinsey & Company, com base em mais de 400 empresas globais, mostra que companhias com maior presença feminina em cargos executivos apresentam desempenho financeiro superior. Mesmo assim, mulheres ocupam apenas um em cada quatro cargos de alta liderança corporativa.
Na política, o cenário não é diferente.
Dados da Inter-Parliamentary Union (IPU), atualizados em 2025, indicam que mulheres ocupam 26,7% das cadeiras parlamentares no mundo.
Em outras palavras: a maioria das leis que moldam a vida das mulheres continua sendo votada em parlamentos predominantemente masculinos.
Esses números mostram onde a igualdade realmente começa — ou onde ela continua sendo bloqueada.
Ela aparece na pergunta concreta sobre quem é contratado para posições estratégicas,
sobre quem recebe financiamento para empreender,
sobre quem chega às diretorias e conselhos de decisão,
sobre quem recebe salários equivalentes pelo mesmo trabalho,
e sobre quem encontra um sistema judicial disposto a proteger seus direitos com a mesma urgência que protege os de qualquer cidadão.
A igualdade não nasce em discursos. Ela nasce na distribuição real de poder.
É por isso que o 8 de março precisa ser entendido de outra maneira.
Não como um ritual anual de elogios.
Mas como uma verificação incômoda da distância entre aquilo que as sociedades afirmam defender e aquilo que realmente praticam.
Enquanto metade da humanidade continuar vivendo sob sistemas legais que garantem menos direitos, toleram violência e distribuem oportunidades de forma desigual, o Dia Internacional da Mulher não poderá ser tratado como celebração.
Ele continuará funcionando como algo mais duro.
Um lembrete público — repetido ano após ano — de que a igualdade entre homens e mulheres ainda não se tornou uma decisão política universal.
E enquanto essa decisão continuar sendo adiada, cada 8 de março revelará a mesma verdade desconfortável: o problema nunca foi falta de discursos.
O problema sempre foi falta de coragem institucional para transformar direitos em realidade.

