Três dias para definir os rumos da história política do MA
Por Raimundo Borges
O Imparcial – Não existe filme “Três dias para decidir”, mas existe “Três Dias para Matar”, com Kevin Costner. A situação política hoje no Maranhão não tem nenhum ingrediente cultural, mas daria um excelente roteiro de suspense. O enredo envolve o vice-governador Felipe Camarão (PT), com um processo de afastamento tramitando no Tribunal de Justiça, sob a relatoria do desembargador Sebastião Bonfim. Já no Supremo Tribunal, outra encrenca jurídica tramita com idêntico pedido contra o governador Carlos Brandão, nas mãos do ministro Alexandre de Moraes, que já recebeu a contestação da Procuradoria do Estado, na qual se nega o alegado descumprimento de decisão do STF.
No parecer pedido por Moraes à Procuradoria-Geral da República, a subprocuradora Cláudia Sampaio Marques não viu elementos que justifiquem a ação do PCdoB estadual, presidido pelo deputado Márcio Jerry, colega de infância de Brandão — nascidos na mesma rua do Cancão, em Colinas. Enquanto espera a decisão de Moraes, Brandão aguarda o TJMA afastar ou manter o vice Camarão, o que, em tese, não lhe dá mais tempo para repensar a decisão de permanecer no governo, renunciar e concorrer ao Senado. Nessa hipótese, abriria uma lacuna institucional de poder. Assumiria a presidente da Alema, Iracema Vale (MDB), porém ela se tornaria inelegível para disputar a reeleição de deputada estadual ou federal em outubro.
Dada a possibilidade de a decisão judicial ser revogada, Iracema teria que não assumir o governo e sair do Maranhão, o que faria o cargo cair no colo do presidente do Tribunal de Justiça. Caso Alexandre de Moraes mande afastar o próprio governador Brandão simultaneamente a eventual afastamento de Camarão pelo TJMA, aprofundar-se-ia a crise. Como os dois casos — do vice e do governador — caberiam em recursos, o imbróglio ficaria parecido com o atual do Rio de Janeiro, em que o governador Cláudio Castro renunciou, o vice foi há dois anos nomeado para o TCE, e o presidente da Alerj, Rodrigo Bacelar, foi cassado pelo TSE.

Faz lembrar fatos complexos ocorridos no Maranhão, não muito distantes. Em 1986, João Alberto de Souza foi eleito vice-governador de Epitácio Cafeteira e, em 1988, eleito prefeito de Bacabal. Ao invés de renunciar à vice-governadoria, ele tirou licença e assumiu a prefeitura em 1989. Só renunciou à prefeitura quando Cafeteira deixou o cargo para disputar o Senado, em 1990. Ao assumir o governo, João Alberto foi destituído pela Assembleia Legislativa, presidida por Ivar Saldanha, que, após se eleger, tomou posse como governador.
Porém, quando Ivar chegou ao Palácio dos Leões, acompanhado de deputados estaduais, João Alberto estava instalado no gabinete, armado com um 38 de cano longo, e a Polícia Militar posicionada na frente da sede do governo, com ordem de atirar em quem ousasse invadir. Quem resolveu a situação foi o desembargador Almeida e Silva, presidente do TJ, ao conceder uma liminar em favor de João Alberto, que ficou no cargo até transmiti-lo ao sucessor Edson Lobão, em 15 de março de 1991. Em 2013, Roseana Sarney afastou o vice-governador Washington Oliveira (PT) em troca de uma vaga no TCE. Em 2014, por ação de Domingos Dutra e Bira do Pindaré, o TJ anulou a nomeação de Washington, mas o STF a manteve.
Roseana queria deixar no Palácio dos Leões o secretário da Infraestrutura, Luís Fernando Silva, para que ele fosse seu candidato a governador. No entanto, Silva desistiu da empreitada por não contar com a estrutura necessária para enfrentar o favorito Flávio Dino. Roseana ficou até o dia 10 de dezembro e passou o cargo a Arnaldo Melo, presidente da Alema — governador por escassos 20 dias. Aquele enredo de 12 anos atrás deixou fortes rescaldos que até hoje alimentam a crise instalada na política do Maranhão desde 2023.
Quando faltam apenas três dias para o prazo de desincompatibilização de cargo público para quem vai disputar as eleições de 4 de outubro, o prefeito Eduardo Braide (PSD) foi às redes sociais anunciar “a maior decisão de sua vida”: assumir a pré-candidatura ao governo do Maranhão, colocando um ponto final na enxurrada de especulações, disse-me-disse e pressão da direção nacional do PSD e do grupo político maranhense que segue leal ao ex-governador e hoje ministro do STF, Flávio Dino, contra Carlos Brandão. E o governador, definitivamente, não deixará o cargo para concorrer ao Senado. Seu projeto é lutar pela eleição do sobrinho Orleans Brandão, que aparece em uma pesquisa da Econométrica, divulgada na segunda-feira, abrindo vantagem significativa de 39,1% contra 32,5% de Braide (registro: MA-06947/2026). No segundo turno, eles aparecem tecnicamente empatados, com Orleans ligeiramente à frente, com um ponto.
Braide, porém, não fala mais nada além do anúncio e dos motivos pelos quais decidiu renunciar ao mandato de prefeito, depois de cinco anos no cargo, para transformar o Maranhão como transformou a capital maranhense. A vice-prefeita Ismênia Miranda ganha dois anos e meio de mandato à frente da capital maranhense. Como simbolismo, a fala foi gravada com o mapa do Maranhão atrás de sua imagem.


