Como evangélicos e católicos se diferenciam nas eleições
Por Raimundo Borges
O Imparcial – A dois meses das eleições de 4 de outubro, os partidos e seus candidatos estão correndo atrás de qualquer segmento que resulte em voto. Ora voltam as atenções para o público jovem, principalmente os eleitores de primeira viagem; ora são os empresários do agro, da indústria e do comércio; ora a agenda se volta para as mulheres, os idosos, os pretos e os profissionais do ramo de aplicativos. Mas um segmento religioso tem um peso incalculável nas eleições: são os protestantes. De tão forte politicamente, criaram a Bancada Evangélica no Congresso, com 210 deputados, de 513, e 20 senadores, de 81.

Segundo levantamento do portal G1, nas eleições deste ano no Brasil, pelo menos 274 pastores e bispos evangélicos vão concorrer a vagas no Congresso Nacional, nos governos estaduais (em 26 estados) e nas assembleias legislativas. Só em São Paulo, 40 evangélicos são candidatos a deputado federal ou estadual, adotando uma postura conservadora, apoiando-se mutuamente e agindo politicamente como um partido, embora professem a fé cristã baseada na Bíblia. Também apoiam a pauta antiaborto, a liberdade religiosa, o Estatuto do Nascituro e abominam a ideologia de gênero. O grupo é maior do que blocos tradicionais e atua nas duas Casas do Congresso com forte articulação suprapartidária.

No Rio de Janeiro, dois evangélicos, Antony Garotinho e Marcello Crivella, estão à frente nas pesquisas sobre a corrida ao Palácio Guanabara. No Maranhão, a senadora Eliziane Gama leva para a campanha o modo pragmático do PT e do presidente Lula para se aproximar dos “irmãos”. Em manifesto divulgado em junho, os governos do partido dizem que sempre “tiveram uma postura de respeito e reconhecimento” das Igrejas Evangélicas. Na Assembleia Legislativa, a deputada estadual Mical Damasceno está integrada à campanha de Orleans Brandão, que tem Edivaldo Júnior (batista) como vice de sua chapa.
A rigor, o Brasil é o país mais católico do mundo, com 120 milhões de pessoas que se declaram seguidores da fé romana, 56,7% da população, mas, em termos de união partidária, eles estão longe de ser comparados aos evangélicos. O Código de Direito Canônico da Igreja Católica proíbe expressamente que clérigos (padres e diáconos) e pessoas consagradas (como freiras e monges) assumam cargos públicos que impliquem a participação no exercício do poder civil ou tenham parte ativa em partidos políticos. Outras religiões, como as de matriz africana, não são proibidas de participar de mandatos eletivos.

Segundo pesquisa desta semana do Instituto Datafolha, em cenário de segundo turno, Lula lidera entre os eleitores católicos, enquanto Flávio Bolsonaro aparece à frente no meio evangélico. Entre os católicos, Lula registra 54% das intenções de voto contra 37% de Flávio Bolsonaro. Já entre os evangélicos, Bolsonaro aparece com 60% e Lula, com 31%, sendo esse o único segmento em que o liberal consolida uma margem tão significativa. Outras pesquisas apontam que 52% dos evangélicos se inclinam para a direita ou centro-direita, enquanto o restante se divide entre o centro, o centro-esquerda e a esquerda, e 52% dos católicos se dizem eleitores do candidato Lula e 26%, do filho de Bolsonaro.
Segundo especialistas ouvidos pela BBC Brasil, para entender o que leva católicos a preferirem Lula e evangélicos, Bolsonaro, é preciso compreender que a definição do voto ocorre de forma diferente nesses dois segmentos. Os evangélicos, na média, vão à igreja mais de uma vez por semana (53%); os católicos, apenas uma vez (17%). Os católicos têm uma relação mais distante das lideranças e sem diálogo entre si, ao contrário dos evangélicos. “Os católicos vão menos à Igreja e não têm diálogo político com os padres e bispos. Mas os evangélicos ouvem os pastores falarem de eleição, de voto e de candidatos, relação que acaba sendo determinante na urna.” Assim, a fé alimenta a política, e a política acaba engolindo a fé.

