30 de agosto de 2026
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O que Augusto Cury diz sobre ser de esquerda ou de direita

Augusto Cury, de 67 anos, fez a sua primeira sabatina — aos jornais O Globo e Valor e à rádio CBN —, na manhã de sexta-feira (28/8), após ser um dos três candidatos a participar do primeiro debate presidencial de 2026, que aconteceu no último fim de semana. Neste sábado (29/8), ele será sabatinado novamente, no Jornal Nacional.

Candidato do Avante, ele não se posiciona como alguém de esquerda nem de direita. Em entrevista à BBC News Brasil em abril, afirmou que tem “uma mente capitalista e um coração social”.

“Tenho uma mente liberal, quero um Estado enxuto e eficiente, que acolha as pessoas que estão querendo produzir, mas não têm condições, seja pelos juros altíssimos, seja pela burocracia”, afirmou Cury à BBC.

“Mas essa mente capitalista tem que ser acompanhada de um coração social, que valoriza os direitos humanos no mais alto nível, a educação de qualidade, a proteção da mulher”, ele acrescentou.

Essa discussão voltou a aparecer na sabatina de sexta-feira. “No mundo todo, nos enganaram, de maneira cruel, dizendo que temos que estar divididos em dois barcos. Mas mais de 90% das dores das pessoas não têm cor ideológica. A dor da mulher morta pelo parceiro não é de direita ou de esquerda. A das pessoas neurodivergentes [também] não é. Quando o professor perde autoridade em sala de aula, [também] não é.”

“Minha mente é capitalista, com todos os pressupostos do capitalismo. Mas meu coração é social porque eu escutei a dor a vida toda. E eu também vivi essa dor da dificuldade financeira — a vida inteira fui aluno de escola pública”, ele acrescentou durante a entrevista, que aconteceu no Rio de Janeiro.

Cury entrou na corrida eleitoral com o currículo de escritor de autoajuda, médico psiquiatra e palestrante, que decidiu trocar os livros pelo palanque.

Ele se projeta como uma terceira via, ancorando-se no lema de que tem “uma mente capitalista e um coração social”, perfil que, segundo ele, o distanciaria tanto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto do senador Flávio Bolsonaro(PL).

Na sabatina, Cury evitou responder a perguntas que dividem a sociedade, como a possibilidade de anistia aos condenados pelo 8 de janeiro, quando apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro tentaram invadir e tomar o poder nas sedes do Legislativo, do Executivo e do Judiciário.

Ao ser instigado pelos jornalistas a se posicionar, no entanto, Cury disse que formaria um corpo de juristas, composto tanto por brasileiros quanto estrangeiros, para reavaliar as condenações.

“Na minha visão, houve várias condenações desproporcionais”, disse, recusando responder, porém, se daria anistia a Bolsonaro caso seja eleito. “Se houve tentativa de golpe, não serão beneficiados. Por favor, não me coloque no centro dessa guerra política, porque senão vamos alimentar a polarização.”

Ao ser questionado se isso não o colocaria no centro do barômetro ideológico, o escritor rejeitou a ideia e disse que “o centro está no limbo entre ser neutro, estar em cima do muro” e que ele é “contra ser uma pessoa que não tem opinião”.

Cury disse ser possível unir a agenda econômica e social e cita como exemplo a proposta de rever o sistema prisional, que, em sua avaliação, faz “com que a sociedade pague duas vezes, porque são de R$ 3 mil a R$ 4 mil gastos por mês com cada prisioneiro e, quando ele retorna à sociedade, reincide no crime e volta ao presídio”.

“O Brasil aprisiona muito, ao contrário do que se acredita. Os criminosos devem, sem dúvida, ir às barras da Justiça, mas quem estamos aprisionando? São os criminosos de alta periculosidade ou jovens que não têm como sobreviver e acabam cometendo crimes, vendendo drogas?”, questionou.

Dois homens aparecem lado a lado durante um debate. Renan Santos, à direita, de terno escuro e óculos, leva o dedo indicador à boca em um gesto de silêncio, enquanto Augusto Cury, à esquerda, de terno azul e gravata amarela, olha em sua direção. Eles estão diante de um fundo escuro iluminado em tons azulados.
Os candidatos Renan Santos, à esquerda, e Augusto Cury, à direita, em debate da Band

O escritor reconhece que pautas como essa podem levá-lo a ser ligado à esquerda e, em última análise, a Lula e ao PT, mas disse ter esperança de que o eleitorado não vá se deixar convencer por essas associações e de que os adversários não vão lançar mão dessa estratégia.

“Isso não é uma pauta da esquerda. As pessoas associam à esquerda, mas é uma pauta suprapartidária, porque também a esquerda não fez nada de grande impacto para mudar a ressocialização e impedir que as prisões se tornem escolas do crime. Essas pautas são sequestradas.”

“Eu não sou ameaça nem pra direita nem para esquerda, porque todos gostam de mim”, disse Cury, que foi instigado a fazer uma curta descrição sobre cada um de seus adversários. A princípio, ele rejeitou a ideia, mas cedeu ao pedido dos jornalistas.

“Renan Santos tem que fazer uma faculdade, se preocupar menos com bomba nuclear […]; Ronaldo Caiado é uma pessoa inteligente, mas está dentro da polarização; Romeu Zema está do outro lado do espectro, mais radical, à direita, quer privatizar tudo […]; Flávio Bolsonaro, temos um livro que estamos filmando agora e que vamos filmar e gastamos dez vezes menos; Lula ficou 12 anos [no poder], para que essa necessidade neurótica de poder?”, disse o candidato.

Críticas a Renan Santos

Antes de sua primeira sabatina, no debate da Band, ao lado do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) e de Renan Santos (Missão), Cury chamou atenção ao reagir às críticas de Santos ao eleitorado de Lula, a quem o empresário chamou de “canalha”. “Estão rifando o futuro do Brasil, e eu não quero o voto deles”, afirmou.

“Olha, Renan, você tem um nível de agressividade que me assombra. As ideias podem ter fundamento, mas a agressividade asfixia a capacidade de as pessoas terem suas próprias opiniões. Nós estamos em uma democracia, e a beleza dela está na divergência”, disse Cury.

“Você pode criticar as ideias de Lula, e elas são criticáveis, mas você não pode criticar a pessoa, transformando ela em uma escória humana, quase um lixo. E nem mesmo o eleitor de Lula”, acrescentou o candidato do Avante.

Um desejo antigo para ‘aumentar a régua do debate’

Cury é um sujeito de predicados superlativos. Considerado o escritor brasileiro mais lido da última década, ele vendeu mais de 30 milhões de livros no país e agora quer estender essa ambição à política.

O escritor contou à BBC News Brasil em abril que se lançar à política é um desejo antigo, mas sua família tinha medo de que ele pudesse se ferir em um ambiente “extremamente agressivo e espinhoso”.

Uma década depois, com o amadurecimento de suas filhas, ele contou que teve apoio para se candidatar, com a promessa de que, caso fosse eleito, não buscaria um segundo mandato.

“Não avaliei me candidatar a nenhum outro cargo, seja deputado, seja senador, seja governador, porque não quero fazer carreira política. Meu objetivo é aumentar a régua do debate”, afirmou.

“Só acho que o Brasil não pode ser sequestrado por duas famílias — no bom sentido, sem fazer julgamento dessas famílias, mas o Brasil é muito maior do que a família Bolsonaro e a família Lula da Silva.”

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